Eu Não Fiquei Presa na Espera

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Índice

O meu noivo, Flávio Marinho, tinha uma mania estranha: depois das nove da noite, ele simplesmente não atendia nenhuma ligação. Mesmo na época em que eu e ele estávamos no auge da paixão, bastava o relógio bater nove horas e ele desligava a ligação na minha cara sem a menor piedade. Teve uma noite em que cheguei muito tarde em casa. Eu percebi que alguém estava me seguindo, entrei em pânico e liguei para ele. O que eu ouvi foi a voz dele, carregada de impaciência: — Você pode, por favor, respeitar o meu horário de descanso? Tchau. Naquela noite, eu terminei de prestar depoimento na delegacia sozinha, sem sequer ter o direito de culpá-lo por aquilo. Mas, naquele dia, quando eu abri o computador dele, acabei vendo, por acaso, no histórico sincronizado de ligações, um registro de chamada que começava às nove da noite e só terminava às nove da manhã do dia seguinte. Doze horas inteiras. Todas as noites. Durante cinco anos. Eu conhecia a dona daquele número. Ela era aluna da mãe dele e também trabalhava como monitora dele. Naquele instante, senti um vazio enorme no peito. Fiquei sentada por muito tempo, até minhas pernas ficarem dormentes, antes de fechar o computador em silêncio. Depois, eu cancelei o nosso agendamento no cartório para oficializar o casamento. Aquela ligação nunca tinha sido para mim. E eu já não queria atender.

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Capítulo 1

Capítulo 1

Quando o sistema confirmou o cancelamento, Flávio tinha acabado de sair do banheiro. Ele me viu sentada no sofá, imóvel, e olhou para o relógio antes de franzir a testa.

— Hoje você tem alguma coisa para falar comigo? Está quase dando nove horas. Eu vou descansar.

Fiquei atônita por alguns segundos e depois balancei a cabeça:

— Não, nada.

Ele assentiu:

— Então tá. Boa noite.

Ele não percebeu nenhuma mudança no meu humor. Simplesmente se virou, com aquela praticidade fria de sempre, e voltou para o quarto.

Fiquei alguns instantes distraída. Quando já estava prestes a me levantar, a tela escura do computador se acendeu de repente e, sincronizada com o celular de Flávio, apareceu uma chamada de Kayra Anjos.

Mas aquele mesmo Flávio que, depois das nove, não atendia ligações, não falava ao telefone e não respondia mensagens, atendeu na primeira chamada. Nem deu tempo de o celular tocar uma segunda vez, como se tivesse medo de deixar a pessoa do outro lado esperando.

Deixei escapar um riso de puro deboche. Ele sabia ser atencioso, sim. Pena que toda aquela atenção nunca tinha sido para mim, a esposa dele.

Voltei para o quarto. Flávio já estava de olhos fechados, com cara de quem dormia profundamente. Só que, dessa vez, enxerguei coisas que nunca tinha reparado antes.

Por exemplo, o celular virado para baixo e aquele fone de ouvido preto e discreto, encaixado na orelha direita.

Apaguei a luz e, no escuro, respondi à mensagem do meu chefe sobre a transferência de setor que ele tinha me mandado na semana anterior.

Na época, eu não tinha aceitado porque não queria me casar e já ir morar em outro país, longe de Flávio.

Mas agora, tudo tinha acabado.

Meu chefe respondeu rápido:

[Você já pensou direitinho? O posto na embaixada da França exige, no mínimo, cinco anos lá. Se tiver certeza, providencie o visto. Daqui a três dias você embarca.]

Respondi apenas:

[Sim.]

Ao meu lado, a respiração de Flávio continuava estável e tranquila. Imaginei que Kayra também estivesse tranguila naquela mesma hora.

Quando me deitei, senti como se houvesse uma parede erguida entre nós dois. Fiquei distraída, encarando o teto por alguns instantes. Depois, fechei os olhos e deixei o sono me levar.

Na manhã seguinte, quando acordei, Flávio estava no closet.

Estendi a mão e toquei o celular dele. O aparelho estava quente.

Depois de reunir toda a documentação necessária para dar entrada no visto, olhei rapidamente para ele e saí.

Quando nos cruzamos na porta, ele me chamou, surpreso:

— Você não vai dar nó na minha gravata?

Curvei os lábios num sorriso leve.

— Não. Trate de aprender. — Fiz uma pequena pausa. — Ou então peça para a sua monitora ajudar.

Flávio largou o que estava fazendo e se aproximou, olhando para mim com o cenho franzido:

— Você está falando da Kayra?

Só de ouvir o nome dela, a expressão dura dele amoleceu na hora. Até o olhar dele pareceu sorrir:

— Ela sabe dar nó em gravata, sim. É muito cuidadosa, uma menina atenta. Mas o que isso tem a ver com você arrumar a minha gravata?

Fiquei em silêncio por dois segundos. Eu nem sabia por onde começar e, no fim, decidi não explicar nada:

— Não tem nada a ver. Eu só não quero mais fazer isso.

Flávio apertou os lábios, claramente incomodado:

— Faz como você quiser. Ah, e hoje, no almoço, não precisa levar marmita para mim. A Kayra acabou de mandar mensagem dizendo que vai trazer a comida.

A minha mão, que estava na maçaneta, parou no meio do movimento.

— Tá bom.

Por causa do trabalho, Flávio tinha um problema sério no estômago. Por isso, antes, por mais corrida que fosse a minha rotina, eu sempre arrumava tempo para cozinhar para ele pessoalmente.

Agora, com essa "ajuda" da Kayra, eu finalmente ia ter um pouco de paz.

Com esse pensamento, deixei de lado qualquer vontade de poupar o ego dele. Assim que terminei de falar, virei-me e fechei a porta atrás de mim.

Fui até a embaixada para tratar do visto de trabalho para os próximos cinco anos. Depois, passei no meu trabalho para pegar a documentação oficial da transferência.

Guardei tudo na bolsa e, na saída, fiquei olhando as flores de cerejeira que começavam a desabrochar diante da Faculdade de Relações Internacionais.

Pela primeira vez em muito tempo, senti uma leveza enorme, uma sensação verdadeira de alívio.

De repente, lembrei de uma coisa. Abri o aplicativo de agendamento do casamento e apaguei de uma vez a foto do documento de Flávio que estava cadastrada no nosso pedido.

Eu sabia que nunca mais precisaria daquela foto.

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