Mundo de ficçãoIniciar sessãoO meu noivo, Flávio Marinho, tinha uma mania estranha: depois das nove da noite, ele simplesmente não atendia nenhuma ligação. Mesmo na época em que eu e ele estávamos no auge da paixão, bastava o relógio bater nove horas e ele desligava a ligação na minha cara sem a menor piedade. Teve uma noite em que cheguei muito tarde em casa. Eu percebi que alguém estava me seguindo, entrei em pânico e liguei para ele. O que eu ouvi foi a voz dele, carregada de impaciência: — Você pode, por favor, respeitar o meu horário de descanso? Tchau. Naquela noite, eu terminei de prestar depoimento na delegacia sozinha, sem sequer ter o direito de culpá-lo por aquilo. Mas, naquele dia, quando eu abri o computador dele, acabei vendo, por acaso, no histórico sincronizado de ligações, um registro de chamada que começava às nove da noite e só terminava às nove da manhã do dia seguinte. Doze horas inteiras. Todas as noites. Durante cinco anos. Eu conhecia a dona daquele número. Ela era aluna da mãe dele e também trabalhava como monitora dele. Naquele instante, senti um vazio enorme no peito. Fiquei sentada por muito tempo, até minhas pernas ficarem dormentes, antes de fechar o computador em silêncio. Depois, eu cancelei o nosso agendamento no cartório para oficializar o casamento. Aquela ligação nunca tinha sido para mim. E eu já não queria atender.
Ler maisQuando eu cheguei ao hospital, o Flávio ainda estava deitado na cama, de olhos fechados. O rosto dele estava muito pálido.Em cinco anos ao lado daquele homem, eu nunca tinha visto um Flávio assim.Mesmo assim, eu só lancei um olhar rápido. Eu só queria que ele não morresse; uma morte dessas, de repente, só traria mais problemas para a minha vida.Eu já estava virando para sair quando o Flávio abriu os olhos, ainda meio atordoados. A voz dele saiu rouca, quase num sussurro áspero:— Rita...Os meus passos pararam. Eu me virei e encarei o olhar dele. Os meus olhos estavam calmos. Os deles, cheios de dor.— Você me odeia tanto assim?Os olhos do Flávio ardiam. Ele lembrou que, todas as vezes em que ele teve uma crise de estômago ou ficou com febre, era eu quem ficava ao lado dele, cuidando.Durante todos aqueles anos, era eu quem cozinhava para ele pessoalmente.Com o tempo, as crises foram ficando cada vez mais raras.Ele se acostumou a acordar e me ver ali, dormindo apoiada na lateral
As estações tinham passado uma depois da outra. Um ano tinha passado.Para mim, o tempo não tinha sido mais do que o sol nascendo e se pondo, a maré subindo e descendo.Quando eu percebi, a minha rotina na França já estava completamente estabilizada, tanto no trabalho quanto na vida.Eu não sabia de absolutamente nada do que estava acontecendo no Brasil.Eu tinha apagado todos os contatos e bloqueado todas as contas de rede social ligadas à família Marinho.Eu não imaginava que um dia fosse ver o Flávio de novo. Pelo menos, dentro de mim, eu não queria vê-lo nunca mais.Mas o destino adorava brincar comigo.Naquele dia, saindo do trabalho, eu estava voltando para casa quando, de longe, vi uma silhueta solitária parada sob a luz amarelada de um poste.Eu parei no meio do caminho. Quando o Flávio me viu, uma mistura de emoções que eu não consegui decifrar passou pelo olhar dele.Eu me preparei para dar meia-volta e sair dali. Ele, porém, avançou de repente e, num segundo, me puxou para u
Quando o Flávio leu a mensagem, ele simplesmente travou.A Rita tinha terminado o noivado. Como isso podia ser verdade?Na noite anterior, eles ainda estavam discutindo o modelo do vestido de noiva.Mesmo assim, a ponta dos dedos dele começou a tremer, tomada por um pânico que ele não sabia nomear. Ele abriu o Instagram, entrou no perfil da Rita e sentiu o coração disparar.O perfil estava quase vazio.Só havia um único post, fixado no topo.[Quero pedir desculpas a todos os amigos e parentes que receberam o convite do meu casamento com o Flávio. Nós terminamos o noivado e o casamento foi cancelado. Desejo tudo de bom a todos.]Nada mais.As pupilas do Flávio tremeram. Ele encarou aquelas linhas curtas por longos cinco minutos, com um olhar tão intenso que parecia querer atravessar a tela e reduzir o celular a pó entre os dedos.Os alunos, lá embaixo, viram a expressão dele e trocaram olhares confusos:— Professor Marinho, o que houve? O senhor está com uma cara de quem levou um choque
Ao mesmo tempo, no alojamento dos professores da Universidade Central de Brasília, onde Flávio estava acompanhando Kayra, ele sentiu uma fisgada no peito, como se o coração tivesse sido atingido de repente.Kayra levantou a cabeça na hora:— Flávio, o que foi? Você está passando mal? O seu rosto está meio pálido.Flávio respirou fundo. Depois de alguns segundos, a dor foi cedendo um pouco. Ele separou o remédio e entregou a Kayra:— Não é nada. — Flávio pensou um pouco, mas não conseguiu chegar a nenhuma conclusão e resolveu não alimentar aquilo. — Deve ter sido a pressa quando eu ouvi que tinha acontecido alguma coisa com você. Agora que passou o susto, fiquei um pouco tonto, só isso.As orelhas de Kayra ficaram vermelhas sem que ela percebesse. Só de lembrar da cena daquela noite, ela ainda tremia:— Obrigada. Se não fosse você hoje, eu talvez...Ela parou no meio da frase, engolindo o resto:— Você não conta nada disso para a sua mãe, está bem? Se ela souber, com certeza não vai con
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