Mundo de ficçãoIniciar sessãoJade Alencar Baumer vive contando os dias para ser livre. Desde a morte da mãe – em um acidente marcado por gritos, chuva e um homem que nunca deveria ter sobrevivido – Jade aprendeu a sobreviver em silêncio. Dividindo a casa com o padrasto abusivo, ela construiu uma rotina baseada em controle: trabalhar, estudar, evitar, resistir. Sempre com um único objetivo em mente – terminar a faculdade e desaparecer daquela cidade para nunca mais olhar para trás. Mas planos frágeis têm o péssimo hábito de desmoronar. Quando um encontro inesperado a coloca no caminho de Gustavo Miller – herdeiro de um império da moda, poderoso, arrogante e perigosamente persuasivo – Jade se vê diante de uma proposta tão absurda quanto tentadora: um casamento de mentira, cercado por luxo, contratos e promessas de proteção. Segurança em troca de uma farsa. Liberdade em troca de si mesma. Entre o medo que a prende e a oportunidade que pode salvá-la, Jade precisará decidir até onde está disposta a ir para escapar… e o que está disposta a perder no processo. Porque, às vezes, a única saída é vestir uma mentira. E torcer para que ela não se torne a sua verdade.
Ler maisPOV JADE:
Hoje completam seis anos da morte da minha mãe.
O número ecoa na minha cabeça como algo pesado... impossível de ignorar. Seis anos. Tempo suficiente para que muita gente siga em frente. Tempo suficiente para que o mundo esqueça.
Mas não eu.
Nunca eu.
O cemitério está silencioso demais para uma terça-feira. Ou talvez seja só a forma como o frio parece engolir os sons ao redor. O céu está encoberto, cinza, e o vento de início de maio corta meu rosto como um aviso: o inverno está chegando.
Eu aperto o cachecol ao redor do pescoço, mais por hábito do que por necessidade, e caminho entre as lápides até encontrá-la. Sempre encontro. Como se alguma parte de mim soubesse exatamente onde ela está, mesmo de olhos fechados.
Paro diante da pedra simples, já um pouco desgastada pelo tempo. Passo os dedos sobre o nome dela, limpando uma poeira invisível, como se isso pudesse fazer alguma diferença.
Engulo seco.
Ainda dói.
Ajoelho devagar, apoiando o buquê de rosas brancas sobre a lápide. As preferidas dela. Sempre foram.
– Oi, mãe...
Minha voz sai mais baixa do que eu esperava. Quase um sussurro. Como se falar alto aqui fosse errado. Como se alguém pudesse ouvir.
Respiro fundo, tentando organizar os pensamentos que nunca parecem se organizar de verdade quando estou aqui.
– Sinto muito...
As palavras escapam antes que eu consiga segurá-las.
– Sinto muito pelo que aconteceu. Eu... – paro, pressionando os lábios. – Eu sei que não foi assim que a senhora queria que as coisas terminassem.
O vento sopra mais forte, bagunçando meus cabelos. Fecho os olhos por um segundo. Ainda consigo lembrar da voz dela. Do jeito que me chamava. Do jeito que sorria.
– Eu não consegui sair de lá ainda – confesso, mais baixo. – Eu sei que prometi... sei que a senhora queria que eu fosse embora, que eu tivesse uma vida melhor... mas...
Minha garganta aperta.
– Eu estou tentando.
Minhas mãos se fecham no tecido do meu casaco.
– Eu juro que estou tentando.
Abro os olhos novamente, encarando o nome gravado na pedra.
– Nunca o deixei encostar em mim.
Dessa vez, minha voz é firme. Quase desafiadora.
– Nem uma vez.
O vento leva minhas palavras, mas eu continuo.
– Eu estudo, mãe. Faço faculdade de moda. Estou quase terminando... só mais seis meses. Eu também vendo algumas peças... não é muito, mas ajuda.
Uma pausa.
– Eu vou conseguir sair de lá.
Digo isso como se fosse uma promessa. Como se repetir muitas vezes pudesse transformar em verdade.
– E quando eu sair... – respiro fundo – eu vou embora dessa cidade. Para bem longe. Para um lugar onde ele nunca me encontre.
O silêncio pesa.
– Talvez eu não volte mais aqui...
A confissão dói mais do que eu esperava.
– Mas eu prometo que não vou te esquecer. Nunca. Eu vou... – minha voz falha por um instante – eu vou até a praia todos os anos. Uma praia bonita. E vou jogar uma rosa branca no mar.
Engulo em seco.
– Eu sei que esse era o seu sonho.
O vento sopra novamente, mais suave agora, como um carinho que não existe.
Me levanto devagar, ajeitando o cachecol.
– Eu te amo.
Minhas mãos tremem levemente.
– Promete que não esquece de mim?
Fecho os olhos por um segundo.
– Porque eu nunca vou esquecer de você.
O dia passa e a noite cai rápido demais.
Quando volto para casa, o mundo já parece diferente – mais escuro, mais pesado. Sempre é assim.
São onze horas quando me deito.
Meu quarto é pequeno, apertado, mas é o único lugar onde consigo respirar. Ou pelo menos fingir que consigo.
A porta está trancada.
Sempre está.
A cômoda está empurrada contra ela.
Sempre está.
Eu conto mentalmente a distância entre a cama e a janela, entre a janela e a porta. Rotas de fuga que nunca usei, mas que preciso saber.
Sempre conto.
Fecho os olhos, mas não durmo.
Eu nunca durmo de verdade.
Então eu ouço.
O barulho da chave girando na fechadura da porta da frente.
Meu corpo inteiro enrijece antes mesmo do som terminar.
Passos. Pesados. Arrastados. Lentos.
O cheiro vem antes dele – álcool, suor, algo podre que parece impregnado na pele.
Sérgio.
Minha respiração fica rasa.
Os passos se aproximam.
Cada som ecoa dentro do meu peito como uma contagem regressiva.
Até que param.
Bem diante da minha porta.
Um segundo de silêncio.
Dois.
Então...
– Abre essa porta, vadia!
O grito explode no corredor, fazendo meu corpo inteiro se contrair.
Eu não respondo de imediato.
Aprendi que silêncio, às vezes, é melhor.
– Onde está meu dinheiro?
Minha garganta está seca.
– Está em cima da mesa... na cozinha – respondo, controlando a voz.
Silêncio.
Por um momento, penso que ele vai embora.
Mas eu sei melhor.
– Você sabe o que eu quero, Jade.
Meu estômago revira.
– Você está bêbado – digo, mais firme do que me sinto. – Só pega o dinheiro e me deixa em paz.
O primeiro soco na porta vem forte.
Depois outro.
E outro.
A madeira treme sob o impacto.
Eu fecho os olhos com força, contando mentalmente.
Um.
Dois.
Três.
Os chutes vêm logo depois, violentos, desordenados. A cômoda range, mas segura.
Sempre segura.
Eu não me movo. Não faço som. Nem respiro direito. Porque eu sei, se ele perceber medo, ele insiste. Se ele cansar, ele vai embora.
É sempre assim.
Sempre.
Lembro-me perfeitamente, uma semana depois da morte da minha mãe.
É impossível não lembrar.
O cheiro de álcool.
A voz arrastada.
– Essa casa é minha.
Eu parada no meio da sala, sem saber para onde ir.
– Você vai começar a pagar por ficar aqui.
O jeito que ele disse aquilo.
Calmo demais.
Errado demais.
O toque no meu rosto.
Gelado.
Nojento.
– Todos os dias... e todas as noites.
O mundo girou.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
Eu corri.
Corri sem olhar para trás. Sem saber para onde ir. Só precisava sair. Só precisava respirar.
– Se contar pra alguém, eu te mato!
A voz dele ecoava atrás de mim.
Mas eu não parei.
Eu só parei quando esbarrei em alguém.
Uma mulher. Olhos atentos. Expressão firme.
– Ei, calma! O que aconteceu?
Danielle.
Dani.
Eu não contei tudo naquele dia.
Mas contei o suficiente.
E ela ficou.
Ela não virou as costas.
Não disse que era problema meu.
Ela me ouviu.
E isso... já foi mais do que qualquer outra pessoa fez.
O barulho para de repente, me arrancando das memórias.
Como sempre.
Silêncio.
Fico imóvel por mais alguns minutos.
Cinco.
Dez.
Só então permito que meu corpo relaxe um pouco.
Mas não completamente.
Nunca completamente.
Me encolho na cama, puxando o cobertor até o queixo.
O sono vem devagar.
Pesado.
E mesmo quando vem... não é descanso.
O despertador toca às seis da manhã. Eu já estou acordada.
Levanto antes dele. Sempre antes dele.
Escovo os dentes rápido. Lavo o rosto. Troco de roupa. Pego minha mochila. Abro a porta com cuidado, empurrando a cômoda devagar, evitando qualquer ruído. Espio o corredor.
Silêncio.
A sala.
Ele está jogado no sofá, dormindo. Há uma garrafa caída no chão. Desvio, andando na ponta dos pés. Cada passo calculado. Cada movimento pensado. Até a porta. Até a liberdade, mesmo que temporária.
O ar da manhã b**e no meu rosto assim que saio.
Respiro fundo.
E então começo a andar. Passo por quarteirões conhecidos. Uma rota decorada, segura.
A padaria onde sempre tomo café já está aberta quando chego. O cheiro de café fresco me envolve assim que entro. Me sento no mesmo lugar de sempre. Peço o mesmo de sempre. E quando o mundo finalmente parece um pouco menos sufocante... Eu puxo meu caderno e começo a desenhar.
Vestidos.
Tecidos.
Cortes.
Um outro mundo. Uma outra vida. A vida que eu ainda vou ter.
Desenho até dar a hora de ir para meu trabalho no café.
POV JADE:Os três pontinhos aparecem quase imediatamente.Ele está digitando.Param. Voltam. Param outra vez.Por algum motivo, sorrio ao imaginar Gustavo Miller apagando mensagens, tão ansioso quanto eu. O homem que sempre parece saber exatamente o que dizer também pode ficar sem palavras.Finalmente, a resposta chega.Noivo: Achei que você gostasse de desafios.Rio baixinho.Eu: Depende do desafio.Dessa vez ele demora um pouco mais.Noivo: Então vou reformular.Meu coração dispara antes mesmo de ler o restante.Noivo: Você está feliz?Permaneço imóvel.Ainda é tudo estranho, novo. Mesmo depois de uma semana inteira trocando mensagens, essa é, de longe, a pergunta mais simples e, ao mesmo tempo, a mais difícil.Olho novamente para a cidade iluminada diante de mim. Penso em tudo o que aconteceu desde que desembarquei. Nas lojas, tecidos, nas conversas com Melissa, nos lugares que jamais imaginei conhecer. Na liberdade de caminhar pelas ruas sem olhar constantemente para trás. E, prin
POV JADE:Faz uma semana que estamos no Japão.Se alguém tivesse me perguntado, há um mês como eu imaginava uma viagem internacional, provavelmente responderia que seria repleta de fotografias, pontos turísticos e compras. Mas a realidade acabou sendo muito diferente. Desde que desembarcamos em Tóquio, Melissa e eu praticamente atravessamos a cidade inteira.Visitamos grandes magazines, pequenas lojas escondidas em vielas estreitas, bairros especializados em moda de rua, ateliês familiares que existem há gerações, fábricas de tecidos e feiras onde cada banquinha parecia guardar uma nova possibilidade para a próxima coleção da Miranller.No começo, tudo parecia grande demais para mim. Agora, curiosamente, começo a reconhecer algumas ruas. Já sei qual estação de metrô leva até Harajuku, qual cafeteria faz o melhor matcha que experimentei até hoje e até consigo cumprimentar alguns vendedores em japonês antes que Melissa precise assumir a conversa.Sorrio sozinha.Talvez eu realmente este
POV GUSTAVO:Já é quase madrugada e eu continuo trabalhando.O prédio comercial onde funciona a empresa está praticamente vazio agora, só restam os seguranças.Há uma pilha de contratos sobre a mesa, mas sou incapaz de me concentrar.Sem pensar muito, abro novamente um das fotografias que Melissa enviou, aquela em que Jade está usando o conjunto inspirado em quimono.Olho por alguns segundos, então amplio a imagem, focando em seu rosto.Sorrio.Nesse momento, a porta se abre e me surpreendo ao ver Gilbert Miller entrando no escritório. Ele olha para mim, depois para o celular em minhas mãos e volta a olhar para mim.Então meu pai diz apenas:– Sua mãe tinha esse mesmo sorriso quando olhava uma fotografia minha.Eu travo. E como uma criança pega roubando a sobremesa antes do jantar, tento esconder o celular.Meu pai apenas ri.– Você finalmente encontrou alguém.– É complicado.Respondo automaticamente, sabendo que é impossível esconder algo de Gilbert Miller, tanto quanto é difícil es
POV JADE:Olho novamente para o restaurante.De repente, algumas coisas fazem sentido. A reverência ao entrar. O jeito natural como Melissa conversa em japonês. A facilidade com que escolheu aquele lugar.– Então vocês sempre vieram para cá?Ela assente.– Não todos os anos, mas algumas vezes. Principalmente quando éramos crianças. O vovô dizia que era importante lembrar de onde viemos, mesmo tendo nascido do outro lado do mundo.Ela sorri ao recordar.– Mamãe fazia questão de trazer a gente para visitar os parentes, participar dos festivais, conhecer templos... Aprendemos que tradição não serve para prender ninguém ao passado. Serve para lembrar quem você é quando o mundo tenta te convencer do contrário.As palavras se enraizam em minha mente. Talvez porque eu tenha passado tantos anos tentando esquecer quem eu era apenas para sobreviver.Ela continua:– Gustavo odiava algumas dessas viagens.Rio, surpresa.– Sério?– Principalmente quando começou a estagiar na empresa.Ela dá de omb





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