Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV GUSTAVO:
Desde a primeira vez que vi Jade, algo em mim se deslocou de um jeito incômodo e impossível de ignorar. Não foi apenas a beleza – embora ela fosse inegável –, foi a forma como ela parecia impermeável a tudo o que sempre funcionou comigo. A pequena loira me tratava com a mesma cordialidade distante que oferecia a qualquer cliente do café de Danielle. Nunca houve um olhar a mais, um sorriso que não fosse protocolar, nenhum sinal de interesse. Mesmo quando eu provocava, quando brincava só para arrancar alguma reação, ela permanecia firme, educada, contida… quase intocável. E aquilo, mais do que qualquer admiração, me instigava.
Quando comecei a frequentar o café, há três anos, ela ainda tinha traços de menina. E talvez tenha sido exatamente por isso que não me aproximei de imediato. Mas o tempo passou, e Jade se tornou... outra coisa. Ainda assim, continuou me ignorando. E eu não estava acostumado a ser ignorado. Sempre tive tudo – dinheiro, poder, mulheres –, bastava estalar os dedos. Jade foi a única exceção. E foi justamente por isso que eu continuei voltando, dia após dia, como um idiota tentando decifrar algo que não se deixava ler.
Mas nada me marcou tanto quanto o momento em que ela me enfrentou. A forma como me chamou de louco, a indignação crua nos olhos quando sugeri o acordo... aquilo não foi só rejeição. Foi desafio. Até mesmo mulheres de famílias tradicionais aceitariam um casamento comigo sem hesitar, mas Jade... Jade me olhou como se eu tivesse ultrapassado um limite imperdoável. E, de forma completamente irracional, isso só aumentou meu interesse.
Quando pedi para Tom investigar sua vida, esperava encontrar algo comum, previsível. Não encontrei. Descobrir que ela estudava moda já foi uma surpresa – uma garçonete com ambição real –, mas nada se comparou ao momento em que ele me informou que ela estava se candidatando a uma vaga de estágio na minha própria empresa. Naquele instante, soube que aquilo não era coincidência. Ou ela não fazia ideia de quem eu era, ou estava prestes a descobrir.
Eu mesmo aprovei seu currículo. Dei a ordem para que fosse chamada. Sabia exatamente o horário em que estaria na sala de Guilherme. E, mais cedo, quando a vi na loja admirando aquele par de sapatos e a bolsa, com aquele brilho nos olhos, foi involuntário. Pedi que embalassem tudo. Não pensei. Apenas fiz. E, quando a vi usando os sapatos, algo dentro de mim se satisfez de uma forma absurda.
O que eu não esperava era que, além de tudo aquilo, Jade fosse boa. Realmente boa. Segura. Precisa. Confiante no próprio talento. Quando ela disse “então me prove”, por um segundo, um único segundo, minha mente foi para um lugar completamente impróprio. Mas a realidade foi pior. Porque ela não falhou. Não vacilou. Jade foi impecável. E isso só complicava tudo.
– O que acham de irmos naquele club novo essa noite? – Melissa invade minha sala, trazendo consigo aquele entusiasmo irritantemente contagiante. – Algo entre irmãos. Faz tempo que não saímos juntos.
– Estou ocupado, Melissa – respondo, sem nem levantar os olhos.
– Ocupado sendo um chato, isso sim – Guilherme rebate, rindo. – Eu topo.
– Por favor, Gus – ela faz aquela expressão que usa desde criança, a mesma que sempre me fez ceder contra a minha vontade. – Você nunca aparece. Custa passar algumas horas com a gente?
Solto um suspiro lento, já sabendo que perdi.
– Tudo bem. Mas não vou ficar muito.
– Maravilha! – ela b**e palmas, satisfeita. – Ah, convidei uma amiga.
– Ela é bonita? – Guilherme pergunta imediatamente.
– Ela é linda.
– Tem mais de dezoito, espero – retruco, seco. – Não estou com disposição para outra dor de cabeça.
Quando Melissa completou dezoito anos, decidiu levar algumas amigas para beber em um bar. O problema é que uma delas tinha dezessete e um dos garçons acabou descobrindo. Minha irmã foi levada para a delegacia, e por ser o mais velho, pediu para ligarem para mim. Tive uma grande dor de cabeça para resolver a situação sem que nossos pais e a mídia soubessem.
Melissa revira os olhos, mas responde:
– Tem vinte e três. Relaxa.
– Perfeita para mim, então – Guilherme brinca. – Diferente do nosso idoso aqui.
– Tenho trinta e três – respondo, irritado. – Não oitenta.
– Ainda assim… – ele dá de ombros. – Já passou dos trinta.
Ignoro. Até que Melissa solta, casualmente:
– De qualquer forma… Jade não é para o bico de vocês.
Levanto a cabeça imediatamente.
– Jade?
– Minha nova colega de trabalho – ela diz, como se não fosse nada.
– Já estão íntimas assim? – Guilherme provoca.
– Eu chequei a ficha dela – Melissa responde, despreocupada. – Gostei.
– Vai disputar também? – ele ri.
– Eu deveria? – ela sorri de canto. – Relaxem. Gosto de homens. Só achei ela interessante... e a Juliana já estava mostrando as garras. Se Juliana não gosta, eu gosto. Regra básica.
– Só toma cuidado – aviso. – Ela não é qualquer uma. É filha de um dos maiores acionistas e irmã de Logan – lembro-a.
– Também não sou qualquer uma – Melissa retruca, leve. – E o club?
– Está de pé – encerro o assunto.
Eu não iria. Não tinha intenção nenhuma de ir. Mas saber que Jade estaria lá… mudou tudo.
Após concluir o trabalho, vou para casa tomar um banho e me arrumar.
Ao chegar no local indicado por Melissa, vejo que ela está acompanhando Jade ao bar.
Elas conversam e brindam.
– Gostando do que vê? – Meu irmão pergunta ao se aproximar.
– Apenas checando minha irmã e funcionária.
– Tá bom – ele desdenha. – Tem algo me incomodando.
– O quê?
– Mais cedo na minha sala, quando você entrou pedindo que ela demonstrasse suas habilidades, Jade parecia em choque, além de ter sussurrado seu nome. É ela, não é?
– Quem?
– Jade, sua noiva.
– Não sei do que está falando.
– Ah Gustavo. É claro que é ela. Dá para ver todo o seu interesse na garota – ele me estuda. – Mentiu para a nossa mãe, não foi?
Algo chama minha atenção. Um homem se aproxima. Senta-se perto demais. E então... ele a toca.
A mão dele desliza pela coxa de Jade.
Não penso. Não calculo. Meu corpo reage antes da razão.
– Que tal a gente se divertir, gostosa? – o homem diz.
– Não, obrigada – Jade responde, firme.
Ele não recua.
– Que tal se nos divertimos um pouco, gostosa?
Segura o braço dela e Melissa intervém. Mas ele avança de novo.
– Adoro gatas ariscas como vocês, que tal se as duas forem comigo?
E então eu estou lá.
Meu punho encontra o maxilar dele com força suficiente para silenciar qualquer outra palavra.
– Solte-a – digo, baixo, controlado, apontando para a mão dele ainda presa ao pulso de Jade. – Ou eu garanto que você não sai daqui andando.
Ele hesita. Recuar é a única escolha inteligente que faz naquela noite.
– Gustavo? – Jade diz, surpresa.
Ignoro o impacto na voz dela.
– Por que sempre que saio com você isso acontece? – olho para Melissa.
Ela dá de ombros, como se fosse inevitável.
– Obrigada... – Jade diz.
Solto um suspiro, passando a mão pelo cabelo.
– Só... não se atrase amanhã.
Ela sorri. E esse sorriso... não é o mesmo que me dá no café.
– Estarei lá.
Assinto, seco, e me afasto antes que faça algo pior do que socar um idiota.
– O que foi aquilo? – Guilherme pergunta assim que entra no carro.
– Nada.
– Nada? Você praticamente marcou território.
– Estava protegendo a Melissa.
Ele ri.
– Nem você acredita nisso.
Silêncio.
– É ela, não é? – ele insiste. – Minha futura cunhada.
Não respondo de imediato.
– Eu menti para a nossa mãe – admito, por fim.
– Eu sabia – ele solta, satisfeito. – Como isso aconteceu?
– Pressão. Logan se casando. Os acionistas. Eu precisava de uma solução rápida… e ela estava lá.
– E agora?
– Agora… ela não aceitou.
– E você precisa casar mesmo?
Aperto o volante com mais força.
– Preciso manter o controle da empresa.
Explico:
– Os acionistas têm ameaçado passar a gestão da empresa para Logan, exceto se eu me casar. O problema é que em apenas dois anos nosso pai irá fragmentar a empresa, quando eu completar trinta e cinco, você trinta e Melissa vinte e cinco.
– O que facilitaria a vida deles, já que receberemos 20% cada.
– Sim.
– E se isso não acontecer, em dois anos Logan terá a mesma porcentagem.
– Exato.
– Não te incomoda que a palavra deles não vale nada? Por qual motivo dariam a empresa a Logan se sua gestão tem dado tanto retorno?
– Tom está investigando, provavelmente Logan prometeu algo em troca do apoio deles. Precisamos ser furtivos, agir com calma até encontrar algo em concreto para destituí-los. Até lá, preciso agradá-los, fazerem achar que me tem nas mãos.
Guilherme escuta, mais sério agora.
– E você acha que casar resolve?
– Por enquanto, sim.
– Vai procurar outra?
– Não.
Ele me encara.
– Então você realmente pretende...
– Vou me casar com Jade.
– Ela não quer.
Olho para frente, já ligando o carro.
– Vai querer.
Ele franze a testa.
– Como você tem tanta certeza?
Não respondo de imediato. Porque a resposta não é simples. Não é limpa.
Mas é verdadeira.
– Porque, mais cedo ou mais tarde... – digo, enfim, frio – ela vai perceber que precisa de mim tanto quanto eu preciso dela.
E... eu não estou disposto a aceitar um “não”.







