Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV JADE:
A interrupção vem como um golpe rápido.
Respiro fundo, mas não recuo.
– Ótimo – respondo, mantendo o tom estável. – Então o senhor sabe que ele permite uma versatilidade muito maior. Podemos explorar vestidos com cortes modernos, calças e shorts de alfaiataria, croppeds, coletes... peças que funcionam tanto sozinhas quanto em sobreposição, com meia-calça ou casacos leves.
Sinto meu próprio entusiasmo escapar, mesmo tentando contê-lo.
– Ele transita entre estilos. Pode ir do clássico ao streetwear com facilidade. Já é popular entre jovens, mas está crescendo em outras faixas etárias também.
Alan cruza os braços, pensativo.
– Acha que pode funcionar? – ele pergunta, agora voltado para Gustavo.
Gustavo não responde de imediato. Ele me observa. Analisa. Como se estivesse tentando entender até onde eu vou.
– Eu não sei – ele diz, por fim, mas o tom não é de recusa. É de cálculo.
Dou um passo à frente.
– Confie em mim. – As palavras saem antes que eu as filtre. – Você quer alcançar o público jovem. Mas isso... – faço um gesto sutil ao redor – ainda está muito seguro. O chambray amplia isso. Ele conecta. Não limita.
O silêncio retorna.
Mais denso.
– O melhor dos dois mundos – ele diz, mantendo os olhos fixos nos meus.
E, dessa vez, eu sustento.
– Sim.
Desvio o olhar primeiro, não por hesitação, mas porque minha atenção é puxada para outro ponto da sala. Uma peça inacabada.
Uma camisa. Sem punhos. Sem gola. Sem botões.
Um esboço.
– Posso? – pergunto, olhando para Alan.
Ele hesita por um segundo.
Depois assente.
Pego a peça e me sento em uma das mesas. O tecido é bom, a estrutura promissora, mas a modelagem ainda está solta, genérica. Grande demais para mim, e, de certa forma, isso ajuda.
Começo a ajustar.
Os movimentos saem naturais, quase automáticos. Reduzo as medidas, refino as linhas, dou intenção onde antes havia apenas forma. Costuro os punhos, estruturo a gola, procuro por botões até encontrar os de pérola, delicados, mas firmes o suficiente para não parecerem frágeis.
O tempo passa sem que eu perceba.
Ou talvez eu apenas escolha não perceber.
Quando termino, o silêncio na sala já não é o mesmo de antes.
Agora é atenção.
Levanto, pego o ferro a vapor em um canto e passo a peça com cuidado, eliminando cada marca, cada dobra desnecessária. Penduro a camisa no cabideiro e me afasto um passo.
Só então olho para eles.
Para a reação.
E, pela forma como Gustavo me observa – mais uma vez, daquela maneira intensa, avaliativa, quase... perigosa – eu sei:
Não foi só uma demonstração. Foi uma resposta.
E talvez, um movimento dentro de um jogo que eu ainda estou começando a entender.
– Voilà – digo, virando-me com a peça em mãos, oferecendo não apenas a camisa, mas tudo o que ela representa naquele momento.
Alan a observa primeiro, com um olhar técnico, quase clínico.
– É uma peça simples, polida, com certo requinte, devo admitir – ele diz, aproximando-se um pouco mais. – Funciona bem sob casacos mais pesados e, sozinha, não compromete no final da estação.
Gustavo não comenta de imediato.
Ele apenas me observa.
Como se a peça fosse secundária.
– Monte um look com essa camisa – ele diz, apontando para o trocador. – Quero ver sua ideia na prática.
Não é um pedido.
É um teste.
– Tudo bem – respondo, já me movendo.
Dentro do trocador, respiro fundo por um segundo. Não é nervosismo. Não exatamente. É a consciência de que cada escolha agora carrega mais peso do que deveria.
Escolho uma calça jeans reta, de lavagem bleached, com aquele efeito marmorizado que quebra a rigidez do inverno sem perder a estrutura. Um cinto fino de metal prateado, com uma fivela que remete a um clip de papel – moderno, discreto, quase irônico. Nos pés, uma bota off-white de cano curto e bico fino, elegante sem esforço. Finalizo com um blazer de cashmere creme, que traz equilíbrio e sofisticação.
Quando saio, sinto o impacto antes mesmo de ouvir qualquer palavra.
Os dois estão olhando.
Há aprovação.
– E então? – pergunto, mesmo já percebendo a resposta nos rostos deles.
– É um look de inverno – Gustavo diz, por fim – e funciona perfeitamente.
Não é um elogio exagerado. Mas vindo dele, é mais do que suficiente.
– Sim – concordo, já me movendo novamente. – Mas a ideia é justamente a adaptabilidade.
Retiro o blazer com calma, como se cada gesto também fizesse parte da demonstração. Troco a bota por uma sandália de salto com tiras finas.
O look muda.
Respira.
– Em dias mais quentes, basta isso – explico. – A base permanece, mas a leitura muda. Fica mais leve, mais jovem, sem perder sofisticação.
O silêncio que segue não é desconfortável.
É avaliativo.
– Bom... acredito que será um sucesso – Alan diz, por fim, quebrando a pausa. – Seu gosto é... impecável.
Sinto o calor subir ao rosto antes que eu consiga controlar.
– Obrigada.
Mas Gustavo ainda não falou.
E quando fala, não é para elogiar.
É para decidir.
– Alan, separe esses looks. Quero que sejam enviados para os editoriais exatamente assim. Inclua a adaptação para dias mais quentes.
Ele faz uma pausa breve.
E então:
– Serão nosso carro-chefe. Produzam um milhão de cada.
O impacto da frase é imediato.
– Meio... milhão? – Alan praticamente engasga. – Temos apenas um mês. Nunca trabalhamos nessa escala... isso não é um pouco.
– O visual criado por Jade não se limita – Gustavo o interrompe, com firmeza. – Ele atravessa faixas etárias, permite combinações, se adapta. É exatamente o que precisamos.
Ele se volta para mim novamente.
– E quero essas peças em chambray. Corte de alfaiataria.
Meu coração dispara.
– Saias e shorts? – Alan ainda tenta acompanhar.
– E vestidos.
Então, diretamente para mim:
– Consegue desenhar um modelo de cada até o final da semana, Jade?
Por um segundo, tudo ao redor parece desaparecer.
– S-sim – respondo, ainda tentando entender se isso está realmente acontecendo.
Não é apenas uma oportunidade. É... algo maior. Muito maior.
– Mais cem mil de cada peça que ela desenvolver – Gustavo acrescenta, como se fosse natural.
Alan passa a mão pelo rosto, visivelmente pressionado.
– A matéria-prima não será suficiente.
– Eu resolvo isso – Gustavo corta. – O que não podemos é perder essa oportunidade. Precisamos democratizar.
A palavra ecoa.
Mas não sei se ele fala apenas da marca.
– Tudo bem – Alan cede, finalmente.
E assim, está decidido.
– Vamos – Gustavo diz, já se virando.
Saio logo atrás dele, ainda processando tudo. Cada passo até o carro parece mais leve, como se eu não estivesse totalmente conectada ao chão.
– Você se saiu muito bem hoje, Jade – ele diz, já dentro do carro. – Confesso que, na entrevista, não imaginei que tivesse um olhar tão apurado.
O elogio vem direto.
Sem rodeios.
– Obrigada, senhor Miller. Seu reconhecimento significa muito para mim.
Ele me observa por um segundo a mais.
– Como recompensa, vou levá-la para jantar.
A frase paira no ar.
Não soa exatamente profissional.
– Eu... agradeço.
– Vai precisar de roupas adequadas – ele continua, como se já tivesse decidido tudo. – Há uma loja da Miranller no caminho. Vamos parar.
Claro que vamos. Porque, com ele, nunca é exatamente uma escolha.
– É muito generoso, senhor Miller – digo, mantendo o tom controlado.
Mas, por dentro, eu sei que isso não é apenas generosidade. É mais um passo. Mais um movimento. E eu continuo avançando, mesmo sem saber exatamente até onde isso vai.







