Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV JADE:
As férias começaram quase sem que eu percebesse, como se fossem apenas uma pausa silenciosa entre uma batalha e outra. Pela primeira vez em meses, eu tinha algum tempo para respirar – ou pelo menos para fingir que tinha. Usei cada minuto disponível para enviar currículos, preencher formulários e participar de processos seletivos que, na maioria das vezes, sequer respondiam. Ainda assim, insisti. Porque, mais do que nunca, eu precisava de uma saída concreta, algo que não dependesse apenas de promessas ou de coragem momentânea.
Era por volta de meio-dia quando finalmente me permiti sentar por alguns minutos para almoçar no café. O movimento estava mais tranquilo, e Dani praticamente me obrigou a fazer uma pausa. Mal toquei na comida quando a tela do meu celular acendeu com uma nova notificação. Um e-mail. Algo comum, mas havia algo naquele instante que me fez abrir imediatamente.
E então eu li.
Cada palavra.
Mais de uma vez.
“Prezada srta. Jade Baumer...”
Senti meu coração acelerar de um jeito que não acontecia há muito tempo, como se algo dentro de mim tivesse sido acordado de repente. Processo seletivo interno. Miranller. Duas da tarde. Meu nome ali, formal, escolhido.
Por alguns segundos, fiquei completamente imóvel, tentando entender se aquilo era real ou apenas mais uma expectativa prestes a se desfazer. Mas não era. Estava ali. Claro. Objetivo.
Eu tinha sido chamada.
Levantei tão rápido que quase derrubei a cadeira.
– Dani, você não vai acreditar...
Minha voz saiu apressada, carregada de algo que eu quase não reconheci em mim mesma: entusiasmo puro.
– Fui selecionada para o processo seletivo da Miranller.
O efeito foi imediato. O rosto dela se iluminou, e antes mesmo que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ela já estava me abraçando.
– Jade, isso é incrível! – ela disse, com um orgulho que me aqueceu por dentro. – Sempre foi o seu sonho.
E era. Sempre foi.
A Miranller não era apenas uma empresa. Era uma referência. Um nome que eu via em revistas, passarelas, editoriais internacionais. Um lugar onde pessoas como eu... não costumavam chegar.
– Quando é?
– Às duas – respondo rapidamente. – Posso continuar trabalhando agora e sair uma e meia, depois eu volto e...
– De forma alguma.
Ela nem me deixa terminar.
– Você vai sair agora.
Franzo a testa, surpresa com a firmeza.
– Dani...
– Agora – ela reforça, já pegando as chaves do bolso. – E vai passar a tarde inteira focada nisso. Vá até o meu apartamento, tome um banho, se arrume, use o que quiser. Quero você impecável.
Fico parada por um segundo, sem saber o que dizer. Porque não é só ajuda, é cuidado. É alguém acreditando em mim de um jeito que eu mesma, às vezes, não consigo.
– Eu nem sei como agradecer...
Ela apenas sorri, colocando as chaves na minha mão.
– Mostrando a eles quem você é.
Dani sempre foi como uma mãe para mim, mesmo que seja apenas quinze anos mais velha. Minha amiga é tão boa, que pagou aulas de direção usando a desculpa de que eu poderia precisar fazer algumas entregas para a loja, o que nunca aconteceu, já que sempre tivemos um motoboy para realizar o serviço.
O apartamento dela me recebe com um silêncio confortável, diferente do tipo de silêncio que existe na minha casa. Aqui, não há tensão escondida nos cantos. Não há medo.
Vou direto para o banho, deixando a água quente cair sobre mim por mais tempo do que o necessário, como se pudesse lavar não só o cansaço, mas também tudo o que eu carrego. Quando saio, começo a me arrumar com uma atenção que raramente tenho tempo de dedicar a mim mesma.
Cada detalhe importa.
Seco o cabelo com cuidado, modelando as pontas para dentro, buscando uma elegância simples, sem exageros. Escolho as roupas com cautela: a saia lápis rosê traz delicadeza, a camisa branca mantém a sobriedade, e o blazer xadrez adiciona estrutura. Não é um look chamativo, mas é coerente. Pensado.
A maquiagem segue o mesmo princípio. Leve, precisa. Nada excessivo. Eu não quero parecer alguém que não sou.
Quando termino, me encaro no espelho por alguns segundos.
Não é sobre parecer rica.
É sobre parecer capaz.
E isso... eu sou.
O tempo corre contra mim, mas consigo chegar ao local com alguns minutos de antecedência. O prédio da Miranller é imponente sem precisar exagerar, elegante, limpo, seguro de si. Tudo ali transmite poder.
Enquanto caminho pela calçada, meus olhos são capturados por uma vitrine ao lado. Um par de scarpins brancos, delicados, sofisticados, acompanhados de uma bolsa perfeitamente combinada. É o tipo de peça que não precisa gritar para ser notada.
– Quer dar uma olhada? Estão em promoção.
A voz da vendedora me traz de volta.
– Eu... não posso – respondo, sincera.
– Deixariam seu visual ainda mais elegante.
Sorrio de leve, mas nego com a cabeça.
– Sinto muito.
E sigo até a recepção da empresa.
Ou pelo menos tento.
Porque, poucos segundos depois, ela está me chamando novamente.
– Moça, espere!
Ela se aproxima com uma sacola nas mãos.
– Aqui.
Olho confusa.
– Eu não paguei por isso.
– Um homem pagou para a senhora.
Meu estômago aperta imediatamente.
– Eu não posso aceitar.
– Por favor – ela insiste, quase desesperada. – Ele é meu chefe. Disse que, se eu voltasse com isso, seria demitida.
Fico sem reação.
E, antes que eu consiga recusar de novo, a sacola já está na minha mão.
A mulher se retira me deixando em choque no meio da recepção.
– Próximo – uma das secretárias chama, me tirando de transe.
– Boa tarde, estou aqui para uma entrevista de estágio.
– Nome por favor.
Forneço alguns dados a atendente, que faz meu cadastro e em seguida me oferece um crachá de visitante para que eu possa passar pelas catracas.
Antes de alcançar os elevadores, decido procurar por um banheiro para conferir o conteúdo da sacola que me fora dada. Me choco ao ver os scarpins e bolsa brancos dentro de sacos protetores de veludo preto.
Certamente valem uma fortuna.
Calço apenas os sapatos, hesitante, e guardo o resto em um dos armários disponibilizados aos visitantes. Não quero parecer algo que não sou.
Finalmente alcanço os elevadores, ainda sentindo o leve tremor nas mãos que tento disfarçar apertando o celular com mais força do que o necessário. O ambiente ao meu redor é silencioso demais, elegante demais, como se tudo ali fosse calculado para impressionar sem esforço. Aperto o botão do andar indicado e observo as portas se fecharem lentamente, meu reflexo devolvendo um olhar que mistura expectativa e tensão. Quando o elevador começa a subir, sinto como se estivesse deixando algo para trás – não apenas o térreo do prédio, mas uma versão de mim que sempre ficou à margem de lugares como esse.
– Um novo começo – sussurro, quase sem voz, como se falar mais alto pudesse quebrar aquela possibilidade antes mesmo de ela se concretizar.
Ao sair, sou imediatamente direcionada até uma sala de espera. A secretária me informa, com um sorriso profissional e perfeitamente treinado, que serei a próxima e que fui designada ao senhor Guilherme Miller, um dos responsáveis pela gestão da empresa. O nome não me é estranho – já o vi em matérias, entrevistas, sempre associado a números, crescimento, decisões estratégicas. Respiro fundo, ajeitando o blazer, tentando organizar não apenas a aparência, mas também os pensamentos.
Quando finalmente entro na sala, meus olhos são atraídos pela plaquinha de vidro sobre a mesa antes mesmo de qualquer outra coisa. “Guilherme Miller.” É real. Estou aqui.
– Bom dia, senhor Miller, eu sou a Jade. É um prazer conhecê-lo.
Estendo a mão, e ele a aceita com firmeza, sem pressa, analisando-me com um olhar que não chega a ser invasivo, mas certamente é atento.
– O prazer é meu, Jade. Sente-se e me fale um pouco sobre você.
A forma como ele fala é tranquila, segura, como alguém que já fez aquilo centenas de vezes. Sento-me, mantendo a postura, tentando não deixar que o ambiente me intimide mais do que deveria.
– Bom, estou estudando design de moda na Universidade Brasileira de Moda.
Ele ergue levemente as sobrancelhas, reconhecendo o nome.
– Uma das melhores do país. Sua família deve ter muito dinheiro para mantê-la lá.
Sinto o impacto da suposição, mas não desvio.
– Na verdade, senhor Miller, sou bolsista.
Há uma pausa breve, e então algo muda no olhar dele – não é surpresa exatamente, mas um tipo de recalibração.
– Então deve ser muito inteligente.
Permito-me um pequeno sorriso.
– Modéstia à parte, eu estudo bastante e procuro sempre ser a melhor naquilo que faço. Acredito... – faço uma pausa curta, escolhendo as palavras com cuidado – na verdade, sei que possuo um conhecimento sólido do setor, e tenho certeza de que minha criatividade e atenção aos detalhes podem fazer diferença.
Ele me observa por mais um segundo, como se estivesse prestes a responder, mas não tem a chance, porque a porta se abre. E a presença que entra na sala não pede licença, ela simplesmente ocupa o espaço.







