Capítulo 12:

POV JADE:

Acordo cedo e sigo o ritual que já se tornou automático: preparo-me para o turno no café, separo as roupas com cuidado e coloco tudo na mochila. Duas versões de mim mesma carregadas nas costas, como se bastasse trocar o tecido para também trocar o lugar que ocupo no mundo. Ainda assim, hoje há algo diferente pulsando por baixo da rotina. Uma expectativa contida, quase ansiosa, difícil de ignorar. Não é só mais um dia. É a fábrica. É ver de perto onde tudo começa, onde as ideias deixam de ser conceito e se tornam matéria, textura, realidade.

Meio-dia e meia, depois do almoço, começo a me arrumar com mais atenção do que o habitual. Parto os cabelos ao meio e prendo a parte da frente para trás, deixando-os semipresos, num equilíbrio entre o prático e o intencional. Visto a saia de linho que transformei na noite anterior – ainda sinto um certo orgulho silencioso ao perceber como o caimento ficou exatamente como imaginei – e combino com uma camisa social branca. O blazer xadrez da Miranller vem por cima, agora ajustado ao meu corpo, finalmente fazendo jus à peça que sempre foi, e não à versão folgada que encontrei no brechó. Marco a cintura com um cinto de couro preto, simples, mas preciso. Nos pés, o scarpin branco. O mesmo. A lembrança daquele dia volta sem que eu peça – o presente inesperado, o gesto estranho, a sensação de estar sendo puxada para algo maior do que eu compreendia naquele momento.

– Jade? – a voz de Dani me traz de volta. – O senhor Miller está te esperando na porta do café.

Meu coração reage antes da minha cabeça.

– Obrigada, Dani. Estou indo.

– Boa sorte, querida – ela diz, me envolvendo em um abraço rápido, mas cheio de algo que não precisa ser dito.

Retribuo, e saio.

O carro dele está parado logo à frente, impossível de ignorar. Como ele.

– Entre – Gustavo diz assim que me vê.

Sem rodeios. Sem cumprimento.

Como sempre.

Obedeço.

O trajeto é silencioso na maior parte do tempo. Ele dirige com a mesma postura firme que demonstra em tudo: mãos seguras no volante, olhar atento, como se tivesse sempre um destino muito claro em mente. Eu, ao lado, observo pela janela, mas não vejo realmente a cidade passando. Estou mais consciente da presença dele do que de qualquer outra coisa.

– Tudo bem se eu deixar minha mochila aqui? – pergunto quando ele estaciona.

– Sim.

A resposta vem curta, suficiente.

Saímos do carro e, assim que atravessamos os portões da fábrica, sinto algo mudar dentro de mim. O espaço é amplo, vivo, pulsante. Não é apenas um lugar de produção, é um organismo inteiro funcionando em perfeita coordenação.

Gustavo me conduz pelos setores com naturalidade, como alguém que não apenas conhece, mas domina cada etapa. O setor de produção de algodão, depois a confecção, máquinas em ritmo constante, costureiras concentradas, tecelões transformando fios em estrutura. Há uma beleza ali que não está nas vitrines, mas no processo. No trabalho invisível.

Seguimos para a curadoria, onde cada peça passa por análise minuciosa. Defeitos não são tolerados – retornam ao início, são desfeitos, refeitos. Nada segue adiante sem merecer. Nada passa sem provar seu valor.

Observo em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquilo.

– Estou impressionada com a eficiência da fábrica, senhor Miller – digo, finalmente. – Todo o algodão utilizado é produzido pela própria marca?

– Sim. Os demais tecidos vêm de fornecedores.

– Faz sentido... principalmente considerando que muitos tecidos naturais são importados.

Ele me olha de lado, rapidamente.

– Exato. Mas não trabalhamos com qualquer fornecedor. Escolhemos parceiros que respeitam práticas sustentáveis, que não utilizam exploração ilegal ou crueldade animal. Não é apenas sobre produto. É sobre posicionamento.

Assinto, processando não só a informação, mas a forma como ele fala. Existe convicção ali. E isso... não combina totalmente com a imagem fria que ele costuma projetar.

– Bem-vindos, senhor Miller e senhorita... – um homem de meia-idade se aproxima, interrompendo o momento.

– Jade Baumer – digo, estendendo a mão antes que Gustavo responda por mim.

Ele aceita o gesto com um sorriso cordial.

– Prazer. Alan. Sou responsável pela operação da fábrica. – Ele volta-se para Gustavo. – Gostaria de ver as peças da coleção de inverno?

– Por favor, Alan.

Alan nos guia até uma sala que ainda não havíamos visitado, um espaço mais silencioso, quase reverente, onde os primeiros protótipos da coleção de inverno estão expostos. Assim que entro, sinto como se estivesse atravessando uma fronteira invisível: ali não há apenas roupas, há decisões. Intenção. Tentativas ainda não finalizadas de algo que precisa convencer.

As peças ocupam o ambiente em uma harmonia calculada, um equilíbrio entre a leveza residual do verão e o peso necessário do inverno. Tênis, botas de cano curto e médio, bolsas estruturadas, calças, saias, vestidos e casacos organizados em uma paleta que remete diretamente à natureza: marrons terrosos, alaranjados profundos que fogem do brilho vibrante do verão, e diferentes tons de cinza que trazem sobriedade sem apagar a coleção.

– O senhor pediu que os designers trouxessem um pouco de cor, algo que mantivesse leveza mesmo no inverno – Alan explica, caminhando entre as peças. – Optamos por tons de laranja, verde e vermelho com mais profundidade. Também trabalhamos com cinza e off-white, como base. E, considerando o novo foco em um público mais jovem, incluímos peças em jeans.

Ele aponta para um canto específico.

Gustavo observa tudo com atenção, mas sem demonstrar entusiasmo imediato.

– Impressionante – ele diz, comedidamente.

Eu continuo olhando. Analisando.

E algo não fecha.

– E para o final da estação? – pergunto, antes de pensar demais.

O silêncio que segue é imediato.

– Como assim? – Alan devolve, e agora ambos estão olhando para mim.

– As peças são ótimas – começo, com cuidado, escolhendo cada palavra. – Jeans, cashmere, lã... são tecidos ideais para o inverno. Mas o final da estação nunca é igual ao início ou ao auge.

Eles continuam em silêncio.

Me escutando.

– O que quero dizer é que as temperaturas começam a oscilar – continuo. – Alguns dias ainda são frios, mas outros não tanto. É uma transição.

– É inverno – Alan reforça, como se isso encerrasse a discussão.

– É inverno – concordo. – Mas estamos no Brasil. As estações aqui não seguem o mesmo padrão do hemisfério norte.

Gustavo inclina levemente a cabeça.

– Prossiga.

O brilho no olhar dele não é aprovação.

É desafio.

– Podemos pensar em peças que acompanhem essa transição – digo, sentindo minha própria segurança crescer à medida que falo. – Algo mais leve, mas ainda alinhado com a proposta da coleção.

– O que sugere? – ele pergunta, direto.

– O jeans já é uma escolha segura – continuo. – Mas poderíamos trabalhar com uma variação mais leve. Algo que permita mais fluidez, mais refinamento nos cortes... como o chambray. É um tecido feito de algodão que imita o jeans e...

– Eu sei o que é chambray, senhorita Baumer – ele corta, seco.

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