Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV JADE:
Mais um dia comum.
Ou pelo menos é isso que tento dizer a mim mesma enquanto limpo a mesa do quarto cliente da manhã e caminho até o balcão para buscar mais dois cafés. A rotina é previsível o suficiente para me dar uma falsa sensação de controle, e, nos últimos anos, aprendi a me agarrar a qualquer coisa que se pareça com isso.
O cheiro de café fresco invade o ambiente, misturado ao aroma adocicado de pães recém-saídos do forno. O tilintar de xícaras, o murmúrio de conversas baixas e o som distante da máquina de expresso formam uma espécie de trilha sonora constante. Aqui dentro, por algumas horas, o mundo parece... normal.
Seguro a bandeja com firmeza, equilibrando as xícaras enquanto caminho entre as mesas.
Quinto cliente.
Eu já o reconheço antes mesmo de chegar perto.
Ele está sentado na mesa de sempre, no mesmo horário de sempre, como se fizesse parte da mobília do lugar. Bem-vestido, postura impecável, olhar atento. O tipo de homem que chama atenção sem precisar fazer esforço algum.
Miller.
É o único nome que conheço.
Alto, ombros largos, barba bem aparada, cabelo em um tom entre loiro escuro e castanho claro. Há algo nele que impõe respeito – não só pela aparência, mas pela forma como ocupa o espaço ao redor. Como se estivesse acostumado a ser ouvido.
Hoje, no entanto, ele não está sozinho.
A mulher à sua frente chama ainda mais atenção do que ele, de uma forma diferente. Elegância pura. Cada movimento calculado, cada detalhe pensado. O tipo de presença que não pede atenção – exige.
Os dois se parecem.
Não muito à primeira vista, mas o suficiente para que eu entenda. A linha do maxilar, a forma do nariz... e aqueles olhos. Os dela, no entanto, têm um leve traço puxado, quase imperceptível, mas que a torna ainda mais marcante.
Mãe e filho.
Não preciso de apresentações para saber.
Aproximo-me da mesa e deposito as xícaras com cuidado, anotando os pedidos enquanto finjo não prestar atenção. Mas é impossível não ouvir.
– Você precisa se casar, querido – a mulher diz, com a calma de quem já teve aquela conversa muitas vezes. – Já tem trinta e três anos e está à frente dos negócios da família. Os acionistas mais antigos estão começando a questionar sua posição como CEO.
Ele solta um pequeno sorriso de canto, daqueles que parecem mais provocação do que humor.
– Mamãe, eu não preciso de um casamento para validar meu trabalho. Os números da empresa falam por si.
Há confiança na voz dele. Não arrogância – ou talvez um pouco. Mas, acima de tudo, certeza.
– Não seja ingênuo, Gustavo – ela responde, levando a xícara aos lábios. – Você sabe muito bem que não é assim que o mundo funciona. Principalmente o nosso mundo.
Gustavo.
Então esse é o nome dele.
Guardo a informação sem querer, como faço com tudo que pode ser útil em algum momento.
– Eles podem convocar uma assembleia – ela continua. – E colocar o vice-presidente no seu lugar.
Ele suspira, apoiando-se na cadeira com aparente tranquilidade.
– Não podem. Ainda temos a maior parte das ações.
– Por enquanto – ela rebate, sem hesitar. – Logan está prestes a se casar. E você sabe o que isso significa.
Há uma pausa.
Curta.
Pesada.
– Eles estão se movimentando há mais tempo do que você imagina – ela acrescenta, agora mais baixa. – Thomas já começou a investigar.
Eu me afasto nesse momento, levando o pedido para a cozinha, mas a conversa continua ecoando na minha cabeça. Não pelos detalhes – esses não me dizem respeito – mas pela tensão.
Não é uma conversa qualquer.
É o tipo de discussão que define destinos.
Quando retorno com os pratos, encontro os dois em silêncio. O ar entre eles parece diferente, mais denso, como se algo tivesse sido decidido ali.
Coloco os pratos à mesa e me preparo para sair quando a voz dele me prende no lugar.
– Você não precisa se preocupar, mamãe – ele diz, casual demais. – Eu já tenho uma namorada.
Eu paro.
Não por querer. Mas porque meu corpo reage antes da minha mente.
– Como assim, Gustavo? – a mulher pergunta, claramente surpresa. – Quem é a moça?
Sinto o olhar dele antes mesmo de vê-lo.
Sua mão envolve meu pulso. Quente. Firme. Inesperada.
– Essa é minha namorada – ele diz, puxando-me levemente para mais perto. – Diga olá à mamãe, Jade.
O mundo desacelera.
Por um segundo, não entendo.
No outro, entendo demais.
Meu primeiro instinto é puxar o braço de volta, mas o aperto dele se intensifica de forma sutil. Não chega a machucar – mas é suficiente para impedir que eu me afaste.
Olho para ele e encontro seus olhos. Agora, não estão azuis claros como vi antes. Estão mais escuros. Mais intensos. E, naquele momento... imploram.
“Por favor.”
Ele não diz em voz alta, mas eu vejo. Leio perfeitamente no movimento silencioso de seus lábios.
Meu coração acelera.
– Até parece, Gustavo – a mulher diz, soltando uma leve risada. – Largue a moça e deixe-a trabalhar.
Eu quase respiro aliviada.
Quase.
– Eu sinto muito, querida – ela acrescenta, voltando-se para mim com um sorriso elegante. – Meu filho às vezes exagera.
Mas ele não solta.
Não recua.
– Estou falando sério, mamãe – insiste.
O silêncio que se segue é diferente.
Mais afiado.
Mais perigoso.
E então o olhar dela muda.
Ela me analisa de verdade agora.
Da cabeça aos pés.
Como se estivesse tentando me encaixar em um lugar onde eu claramente não pertenço.
– Querida – ela diz, com uma suavidade que não engana – você pode confirmar o que meu filho está dizendo?
Meu estômago se contrai.
Eu deveria negar.
É o lógico.
O correto.
O seguro.
Mas então a pressão dos dedos dele em meu pulso se torna diferente. O olhar. O pedido mudo. E, por algum motivo que não entendo completamente... eu cedo.
– É... – minha voz falha no começo, e eu limpo a garganta – sim. Ele me pediu em namoro.
As palavras soam estranhas na minha boca.
Irreais.
– Mas... – continuo, tentando recuperar algum controle – somos de mundos muito diferentes. Eu entendo se a senhora não concordar.
A mulher ergue levemente uma sobrancelha.
– Não concordar?
Ela se levanta com elegância, pegando sua bolsa.
– Meu filho é um homem adulto. Se ele quiser se casar com você, ele vai se casar.
Casar.
A palavra ecoa alto demais.
– A única coisa que exijo – ela continua – é um acordo pré-nupcial. Não queremos problemas no futuro.
Ela se vira para ele.
– Não é mesmo, Gustavo?
– Claro, mamãe.
Simples assim.
Como se estivessem falando sobre o clima.
Meu pulso é finalmente liberado quando ela se afasta, mas a sensação do toque dele permanece.
– Nos vemos às sete – ela diz. – E, por favor, Jade... venha com ele.
Sete da noite.
Minha mente tenta acompanhar.
– Obrigada, senhora...
Droga.
– Miranda – ela corrige, com um olhar afiado. – Me surpreende que não saiba o nome da sua futura sogra.
Futura sogra.
Sinto o chão desaparecer por um segundo.
– Eu... me esqueci – respondo, baixo.
Ela me observa por mais um instante, como se estivesse avaliando cada detalhe.
– Espero que lembre – diz, por fim.
E vai embora. Assim, simples. Como se não tivesse acabado de virar minha vida de cabeça para baixo.
O silêncio que fica é ensurdecedor.
Olho para ele.
E a raiva vem rápido.
– O senhor está louco? – minha voz sai mais baixa do que deveria, mas carregada. – Como pôde fazer isso?
Ele passa a mão pelos cabelos, soltando um suspiro.
Pela primeira vez... parece menos inabalável.
– Eu não tive escolha.
– Sempre há escolha.
– Nem sempre.
Nos encaramos por um momento.
– O senhor deveria ter usado o nome de alguém do seu mundo – continuo. – Tenho certeza de que teria uma fila de mulheres dispostas a aceitar.
Ele inclina levemente a cabeça, me observando de um jeito que me deixa desconfortável.
– Então por que não você?
A pergunta vem leve, mas o peso é enorme.
– Porque não funciona assim – respondo, firme.
– Funciona, sim.
– Não no meu mundo. De onde venho, homens como o senhor usam garotas como eu.
Ele se inclina um pouco mais para frente.
– E no seu mundo... o que falta?
Respiro fundo.
Não vou entrar nisso.
– Minha vida não é da sua conta.
– Pode ser.
– Minha vida é complicada demais, o senhor nunca entenderia.
Há algo no tom dele agora.
Algo mais sério.
– Eu posso te ajudar.
– Não preciso.
– Precisa sim.
O silêncio se estende entre nós.
E então ele diz:
– Podemos fazer um contrato.
Meu corpo enrijece.
– Eu te pago.
Agora vem a parte que eu já esperava.
– É temporário. Um ano, talvez menos. Você não precisaria... – ele faz uma pausa breve – cumprir obrigações.
Eu rio sem humor algum.
– Eu não estou à venda – e dessa vez, não hesito ao me afastar. – Tenha um bom dia, senhor Miller.
Saio antes que ele diga mais alguma coisa, mas ainda posso ouvir:
– Jade, espera – não paro, não olho para trás. Só continuo andando até me trancar no banheiro feminino, apoiando as mãos na pia e encarando meu reflexo.
Meu coração ainda está acelerado.
Minha respiração, irregular.
– Você só pode estar ficando maluca – murmuro para mim mesma.
– Jade?







