Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV JADE:
De volta à empresa, a tensão muda de forma.
Agora é interna.
– Juliana e Jade, na minha sala. Agora.
O tom dele não deixa margem.
Dentro da sala, a porta fechada parece nos isolar do mundo.
– Juliana – ele começa, frio – seu desempenho já vinha abaixo do esperado. Hoje você apenas confirmou o inevitável. Não se engane, não é porque é uma Marinho que irá manter o cargo nesta empresa.
– Eu sinto muito Gustavo, prometo que irei me esforçar mais.
– Por enquanto, será afastada de suas funções. Passe seus compromissos a Jade, por favor.
O choque dela é visível.
– Vou fazer o quê? Você está de brincadeira comigo?
– Férias! Isistir será pior. Passe no RH e acerte tudo. Te vejo em um mês.
Ele diz, simples assim.
Decidido.
Encerrado.
Juliana deixa a sala pisando fundo. Quando ela sai, o silêncio pesa novamente. E eu sinto o peso do erro por ter me intrometido na sessão de hoje.
– Senhor Miller... sinto muito pelo que fiz.
– O que exatamente você fez, Jade?
– Me intrometi.
Ele se inclina levemente.
– Sim. Passou por cima de uma ordem direta.
A pausa é calculada.
– Eu considerei puni-la – sua voz muda e seu tom é rouco, despertando algo diferente em mim, me fazendo morder os lábios involuntariamente
Meu corpo reage antes da razão.
– Mas – ele continua – você entregou resultado.
E então muda. O tom. A energia.
– Você tem visão, liderança e precisão. Hoje, você provou isso.
Meu coração acelera.
– Nunca vi Lília elogiar ninguém além de si. Hoje ela não somente te elogiou, ela reconheceu uma excelente profissional, deixou claro que confia em você. Parabéns.
Eu sorrio.
Não consigo evitar.
– Obrigada.
– Está liberada por hoje. Amanhã te passo a agenda de Juliana.
E só então eu percebo: nada ali foi simples e não foi apenas trabalho.
No caminho de volta para casa, recebo uma notificação no I*******m. Melissa me encaminha o link com as fotos da sessão de hoje, acompanhado de uma mensagem curta, quase orgulhosa demais para alguém que costuma tratar tudo com leveza: parabéns por conseguir “domar a fera”.
Abro as imagens ainda no metrô, ignorando o vai e vem ao meu redor, o barulho, os anúncios, o cheiro metálico e abafado. Me vejo ali – não exatamente eu, mas algo que construí, algo que saiu das minhas mãos, da minha cabeça, do meu instinto – e, pela primeira vez em muito tempo, não há dúvida, nem vergonha, nem aquele medo imediato. Apenas orgulho. Um orgulho silencioso, quase cauteloso, como se eu ainda não tivesse certeza de que tenho o direito de senti-lo.
Mas sei que preciso aproveitar isso. Cada segundo. Cada oportunidade.
Juliana está fora – temporariamente – e esse intervalo não é só uma folga. É uma brecha. Uma chance rara de deixar de ser invisível, de deixar de ser apenas a menina que observa, que executa, que aprende em silêncio. Talvez seja o começo de algo maior. Talvez seja o primeiro passo real para me tornar estilista. Para, quem sabe, um dia, assinar minha própria linha dentro da Miranller. A ideia parece grande demais para caber em mim – mas, ainda assim, ela se instala. E cresce.
Estou prestes a guardar o celular na bolsa quando ele vibra novamente.
Uma mensagem.
Dele.
Meu peito reage antes que eu consiga pensar.
Sr. Miller: Amanhã iremos a uma das fábricas na cidade vizinha, preciso escolher os tecidos da próxima coleção de roupas. Esteja pronta às 13h em ponto, passo na sua casa.
Eu: Esse horário estou na cafeteria.
Sr. Miller: Me espere na porta às 13h.
Leio a mensagem duas vezes.
Depois uma terceira.
É impressionante como ele consegue ser mandão até por mensagem. Não há pergunta. Não há espaço. Como se minha rotina fosse algo ajustável. Como se minha vida pudesse e devesse se reorganizar ao redor da dele.
Solto um suspiro pesado, apoiando a cabeça por um instante no vidro frio da janela. A cidade passa borrada do lado de fora, mas minha mente está fixa em um ponto muito específico.
Ele não pediu.
Ele determinou.
E, de alguma forma, eu sei que vou estar lá.
Guardo o celular quando o aviso da próxima estação ecoa pelo vagão. O movimento automático de sempre: levantar, ajustar a bolsa, sair junto com o fluxo. Mas, por dentro, nada está no automático.
Tudo parece... em movimento.
Chego em casa antes que Sérgio volte. Isso já é um pequeno alívio, um daqueles que não chegam a ser felicidade, mas evitam o desgaste, o cuidado constante, o estado de alerta que nunca vai embora de verdade. Tomo um banho rápido, como algo sem prestar muita atenção no gosto ou na fome, apenas seguindo o necessário, o funcional.
E então, quando percebo que a noite será longa, faço o que sempre fiz para não pensar além do necessário. Crio.
Pego um vestido preto de linho que já não uso. O tecido ainda é bom, a estrutura ainda responde bem ao toque. Transformo-o em uma saia na altura dos joelhos, ajustando cada corte com cuidado, cada dobra com intenção. Não é apenas sobre aparência, é também sobre controle. Sobre transformar algo que já não serve em algo novo, útil, bonito. Algo que funciona.
Depois, passo para o blazer xadrez da Miranller que encontrei em um brechó. A peça é boa, claramente bem feita, mas estava larga demais, comprida demais, quase como se tivesse sido feita para alguém que ocupa mais espaço do que eu me permito ocupar. Ajusto as mangas, diminuo o volume, trago para mais perto do corpo.
Enquanto costuro, percebo que não estou apenas ajustando roupas. Estou tentando ajustar meu lugar. Na empresa. Na vida. No mundo dele.
E é exatamente esse pensamento que me faz parar por um segundo, a agulha suspensa no ar, o tecido ainda preso entre meus dedos.
Aceitar essa proximidade com Gustavo não é só sobre trabalho.
E isso é perigoso demais.







