Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV JADE:
No outro dia, no café, depois de almoçar, corro para o banheiro feminino com a sensação incômoda de que estou atravessando uma linha invisível. É como se, ao me arrumar ali, diante daquele espelho, eu estivesse deixando para trás uma versão de mim que aprendeu a sobreviver no improviso e vestindo outra que ainda não sei sustentar completamente.
Passei a noite inteira customizando peças, costurando não apenas tecido, mas uma tentativa de identidade, de pertencimento, de prova silenciosa de que eu mereço estar onde estou prestes a entrar; não quero parecer desleixada, não posso parecer deslocada, e mais do que isso, preciso que enxerguem algo além da garota comum – preciso que vejam minha mente, minha criatividade, meu esforço condensado em cada detalhe que adaptei com as próprias mãos.
A empresa fica do outro lado da cidade, e o trajeto parece mais longo do que nunca, como se o tempo decidisse testar minha ansiedade, esticando cada minuto até o limite. Quando finalmente chego, o prédio se ergue diante de mim com uma imponência quase opressora, lembrando, sem precisar dizer, que aquele espaço não foi feito para hesitação. Pego meu crachá na recepção, atravesso a catraca e sigo direto para a sala dele, tentando ignorar o leve tremor nos dedos.
– Boa tarde, senhor Miller – digo assim que ele autoriza minha entrada, controlando o tom para que soe firme, profissional, distante.
Ele não responde à altura do cumprimento, não perde tempo com formalidades que, para mim, ainda funcionam como âncora.
– Ficará com a mesa em frente à minha sala, organizará minha agenda e me acompanhará em sessões de fotos, visitas à fábrica e quando for solicitado por mim. Somente dará sua opinião se eu a pedir. Se tiver alguma dúvida, basta apertar o botão vermelho do telefone que poderá se comunicar direto comigo. Entendido?
As palavras vêm rápidas, precisas, como ordens já estabelecidas muito antes de eu pisar ali. Não há espaço para adaptação, para erro, para humanidade, apenas execução.
– Sim, senhor.
– Ótimo. Agora vamos, Juliana está esperando por nós.
O nome me atinge como um aviso.
– Juliana?
– Sim, ela será a responsável pela sessão de fotos de hoje.
– Quem é a convidada?
– Lília Pontes.
Por um segundo, esqueço de respirar.
– A atriz?
– Sim.
Minha primeira tarefa envolve Lília Pontes. Não posso acreditar na minha sorte. O universo, ao que parece, não sabe trabalhar com meio-termo, ou me sufoca, ou me lança direto no centro de tudo.
Mas a realidade se ajusta rápido quando Juliana entra na sala.
– Bom, parece que passarei a tarde de babá.
A felicidade que ainda restava em mim se retrai, quase como um instinto de autopreservação.
– Não me atrapalhe – ela completa, sem sequer disfarçar o desprezo.
– Não irei.
E não irei mesmo. Não por ela. Por mim.
– Surgiu algo urgente e precisarei resolver. Estejam na garagem às quatro – Gustavo informa, já se afastando da situação, como se o caos iminente fosse apenas mais uma variável controlável.
Aproveito o tempo antes de sair para me refugiar no banheiro novamente, preciso de alguns minutos para reorganizar a mente, para lembrar que isso não é apenas um dia, é uma oportunidade. Ao molhar as mãos e levá-las à nuca, tentando aliviar a tensão, encontro o olhar de Melissa pelo reflexo.
– E mais uma vez, amei sua roupa. Você tem muito estilo, Jade, e essa boina deu o toque final.
Há algo reconfortante na forma como ela fala, leve, natural, sem segundas intenções aparentes.
– Como está sendo o primeiro dia?
– Incrível! Irei acompanhar a sessão de Lília Pontes. Dá para acreditar?
– Imagino que esteja feliz, mas Lília é extremamente difícil. Não se deixe levar pelo que ela disser.
E ali está o contraponto. Sempre há.
– Anotado. Você já trabalhou com ela?
– Sim. Foi um inferno.
A sinceridade me arranca um pequeno sorriso nervoso.
– Você tem alguma dica?
– Nunca use a palavra “radar”.
A explicação vem quase absurda, mas carrega o peso de quem já enfrentou o problema: os funcionários começaram a chamá-la assim porque toda vez que estavam desabafando sobre o quanto ela é chata e mal-educada, a mulher aparecia. Ela acabou descobrindo. Gustavo teve que contornar toda a situação. Precisou demitir o fotógrafo, pois ele quem proferiu a palavra quando ela se aproximou. Desde então, a palavra está proibida.
Guardo cada detalhe.
Cada informação pode ser a diferença entre me manter ali ou cair.
– Bom, tenho um arquivo com algumas anotações que fiz, de coisas que ela sempre reprovava ou aprovava. Vou te encaminhar – ela retira o celular do bolso e pede que eu digite meu e-mail, logo recebo o arquivo.
– Obrigada Mel, como sempre, me salvando.
– Imagina Jade. Boa sorte com aquela cobra – ela sorri e entra em uma das cabines.
Com o arquivo que Melissa me envia, mergulho em uma pesquisa rápida, absorvendo padrões, preferências, rejeições. Quando termino, tenho um mapa, não completo, mas suficiente.
Na garagem, a equipe se organiza, e seguimos para um parque no bairro mais nobre da cidade. O contraste entre o cenário natural e a estrutura montada para a sessão cria uma atmosfera quase artificial, como se estivéssemos encenando perfeição em um espaço que não foi feito para isso.
O carro de luxo para ao nosso lado, e Gustavo desce primeiro, contornando o veículo para abrir a porta para Lília. O gesto é calculado, elegante, estratégico.
– Eu disse que detesto fotografar em locais abertos.
O tom dela corta o ambiente.
O caos começa antes mesmo de termos chance de evitá-lo.
E ele só cresce.
– Desculpe por isso, senhorita Lília. Mas garanto que a luz do entardecer irá realçar ainda mais sua beleza, além de não causar danos à sua pele delicada.
– E quem é você? – ela rebate quase no mesmo instante, abaixando levemente os óculos para me analisar como se eu fosse um detalhe irrelevante que, ainda assim, a incomoda.
– A estagiária – Gustavo responde antes que eu possa abrir a boca. – Garanto que ela ficará calada daqui para frente.
O olhar que ele me lança não é apenas um aviso. É um limite. Um território bem demarcado.
– É melhor que ela esteja certa. Onde está a estilista que me vestirá hoje?
– Boa tarde, Lília, é um grande prazer...
– Senhorita Lília – corrige, cortando Juliana sem esforço.
– É claro, mil perdões. O camarim é por aqui – Juliana tenta recuperar o controle, indicando as araras já organizadas.
Lília sequer responde. Apenas começa a passar pelas peças, uma a uma, com um desprezo quase artístico.
– Demodê... ultrapassado... chamativo... monótono...
Cada palavra é uma sentença.
Quando chega aos acessórios, o desdém aumenta.
– Ray-Ban Caravan? É sério? Esperam mesmo que eu use essas coisas?
Juliana engole seco.
– Sinto muito, senhorita Lília. Irei arrumar tudo. – Ela se vira para mim com urgência. – Vá buscar as outras roupas enquanto fazemos a maquiagem.
– Claro – respondo, mantendo o tom firme, mesmo sentindo a tensão crescer dentro de mim. – Vou selecionar as melhores opções.
Caminho até a van com a sensação incômoda de que estou entrando em um campo minado.
E estou.
Basta um olhar mais atento para perceber: quem montou aquele guarda-roupa não fez a menor pesquisa. As peças praticamente gritam tudo o que Lília detesta. É quase um convite ao desastre.
Escolho alternativas com cuidado, me mantendo em um território neutro, nada que encante, mas, principalmente, nada que provoque rejeição imediata.
Quando retorno, o problema já mudou de forma.
A maquiagem.
Linda. Bem executada.
E completamente errada.
Vinho.
Exatamente o que ela odeia.
– O que você fez comigo? – o grito vem alto, cortante. – Isso é de péssimo gosto!
– Podemos remover e refazer – Juliana tenta, já com o lenço nas mãos.
– Fique longe de mim! – Lília recua como se estivesse sendo atacada. – Você não tem bom gosto. Nenhuma habilidade. Estou farta.
O volume da voz atrai atenção.
E, claro, Gustavo.
– Está tudo bem?
– Estou indo embora, Gustavo.
A frase cai como uma bomba.
– Como assim? Estamos prestes a começar. Precisamos entregar essa campanha até o fim da semana.
– Você não está me vendo? Eu não vou me submeter a isso. Sua funcionária é incompetente. Deveria demiti-la.
Há um silêncio breve.
Pesado.
– Calma – ele diz, firme. – Juliana, busque água e nós resolveremos a situação. Tudo bem?
– Desde que ela não chegue perto de mim – Lília aponta, sem disfarçar o desprezo.
– Vá, Juliana.
E então sobra espaço. Um espaço perigoso.
Eu sei que não fui chamada. Sei que não devo.
E mesmo assim... não consigo ficar calada.
– Sei que minha opinião não foi solicitada, senhor Miller – digo, antes que a coragem se dissolva. – Mas tenho estudado o estilo da senhorita Lília há algum tempo.
Minto com convicção, surpreendendo a mim.
– Acredito que posso encontrar algo que respeite o estilo despojado e elegante que a senhora possui.
Gustavo me observa.
Longo demais.
Como se estivesse medindo consequências.
– Muito bem – ele diz, por fim. – Jade cuidará de você.
E sai.
Sem me dar outra chance de recuar.
– Sinto muito pelo ocorrido.
Ela não responde, apenas me observa, como se estivesse decidindo se eu mereço sequer tentar.
Começo pela maquiagem. Limpo o rosto dela com cuidado, quase com respeito. Dou novas orientações: tons rosados, delineado branco – leve, moderno – blush coral, sobrancelhas mais suaves. Um ar acessível. Humano.
Depois, o look.
Escolho um macacão off-white com decote em V, elegante sem ser rígido, e combino com o scarpin roxo berinjela da nova coleção.
Quando ela sai do provador, vejo que acertei o caminho.
Mas ainda não está completo.
Cinto de pérolas.
Estola creme.
Cabelo com leve volume, preso parcialmente, com ondas naturais.
Argolas douradas.
Bolsa envelope.
Equilíbrio.
Quando a levo ao espelho, o silêncio dela dura um segundo a mais do que o esperado.
E então...
– Perfeito.
O alívio não vem imediato, só depois da próxima frase:
– Finalmente alguém que entende de moda.
Respiro.
– Fico feliz que tenha gostado. Mas não é mérito só meu...
– É sim – ela interrompe. – Você liderou.
Gustavo retorna.
– Está deslumbrante.
– Você tem uma joia nas mãos, Gustavo. Não a perca.
Eu sinto o olhar dele.
Mais intenso.
– Vamos aproveitar isso – ele diz.
A sessão acontece: fluida, eficiente, controlada.
Quando termina, o veredito final vem sem esforço:
– Estou perfeita.
Ela analisa as fotos e dessa vez, ninguém discorda.
– Guilherme irá levá-la para casa – Gustavo diz e só então o noto de pé em um canto.
– Obrigada por hoje Jade – ela pisca para mim e caminha na direção do vice-presidente.







