Capítulo 9:

POV JADE:

Pela primeira vez desde que Gustavo começou a frequentar o café da Dani, eu me permito, de fato, olhá-lo – não como mais um rosto entre tantos que atravessam as portas de vidro, não como o cliente insistente que retorna sempre no mesmo horário, com a mesma postura segura e um certo ar de quem está acostumado a ser atendido sem questionamentos, mas como homem, como presença, como alguém que, de alguma forma, atravessou uma linha invisível que eu mesma havia traçado entre mim e o resto do mundo; e isso me incomoda mais do que deveria, porque reconhecer o óbvio, que ele é bonito, alto, dono de uma postura que impõe silêncio sem esforço, nunca foi o problema, o problema é permitir que isso tenha algum peso, algum significado, quando durante tanto tempo eu fiz questão de torná-lo apenas mais um, deliberadamente comum, previsível, seguro na sua irrelevância dentro da minha rotina cuidadosamente controlada.

Mas hoje... hoje foi diferente, e eu odeio admitir isso até para mim mesma.

Ver Gustavo me defender daquela forma, sem hesitação, sem medir consequências, com uma violência contida que não parecia gratuita, mas direcionada, quase... pessoal, despertou algo que não deveria estar ali, algo que eu não tenho espaço para sentir, algo mais cru, mais instintivo, uma reação que vem de um lugar profundo demais para ser racionalizado – a sensação de ser protegida.

E essa palavra, por si só, já carrega um peso absurdo quando penso na vida que tenho levado, nos anos em que aprendi, da pior forma possível, que depender de alguém é um risco, que confiar é abrir uma porta que nem sempre pode ser fechada depois, que proteção costuma vir acompanhada de cobranças, de dívidas silenciosas que se acumulam até se tornarem insuportáveis.

Então não, não pode ser isso.

Não é isso.

É apenas uma resposta do meu corpo, uma reação condicionada pela falta, pela constante necessidade de estar alerta, de me defender sozinha, de antecipar perigos antes mesmo que eles se tornem reais. É isso que é. Só isso. Precisa ser.

Afinal de contas, ele é meu chefe.

Um chefe que te pediu em casamento e te ofereceu proteção.

A voz na minha cabeça surge com um tom quase irônico, como se estivesse se divertindo às minhas custas, desmontando cada argumento antes mesmo que eu consiga sustentá-lo, e eu fecho os olhos por um segundo, irritada comigo mesma por sequer permitir que esse pensamento ganhe forma.

Sim, ele pediu.

Sim, ele ofereceu.

Mas foi um acordo. Um contrato. Algo frio, calculado, sem espaço para sentimentos, sem espaço para ilusões.

Um casamento puramente comercial.

Repito isso internamente como um mantra, como se as palavras, fossem capazes de manter tudo no lugar, de impedir que minha mente comece a preencher lacunas com possibilidades perigosas demais para serem consideradas. Porque é isso que me assusta – não a proposta em si, mas o que ela representa, o que ela poderia significar se eu deixasse.

Porque, por mais que eu tente ignorar, a pergunta continua ali, insistente, incômoda, impossível de silenciar completamente: e se ele puder mesmo me proteger?

E se Gustavo Miller for, de fato, a saída mais rápida e, talvez a única, do inferno em que eu vivo?

O pensamento vem acompanhado de outro, ainda mais cruel.

E depois?

Porque contratos acabam. Acordos têm prazo. E quando tudo isso terminar, quando o papel perder a validade, quando o nome dele deixar de ser meu escudo, o que sobra?

Eu.

Sempre eu.

Ainda presa às mesmas circunstâncias, ainda carregando as mesmas cicatrizes, ainda precisando fugir, desaparecer, recomeçar em algum lugar onde ninguém saiba quem eu sou, onde ninguém possa me encontrar. E o problema, provavelmente serei um rosto conhecido pela mídia.

Nada realmente muda.

Ou muda?

– Parece que meu irmão gosta de você.

A voz de Melissa me puxa de volta, cortando o fluxo caótico dos meus pensamentos, e eu levo um segundo a mais do que deveria para processar suas palavras, como se estivesse voltando de muito longe.

– Irmãos? Você e Gustavo? – o choque escapa antes que eu consiga conter, porque, claro, faz sentido agora, faz sentido demais, mas ainda assim, eu não vi, não percebi, não conectei.

Quantas coisas mais eu deixei passar?

– Sim. Sei que ele é mais rabugento e eu mais bonita – ela diz com um sorriso leve, quase brincalhão, como se aquilo fosse óbvio, como se não carregasse o peso que eu sinto agora –, mas viemos do mesmo lugar.

Eu solto um pequeno sopro de ar, ainda tentando reorganizar as peças dentro da minha cabeça.

– Eu não imaginava.

Não se trata apenas do sobrenome que ela não usa, mas de tudo o que isso implica – poder, influência, conexões... e o quanto eu estou, de repente, inserida em um mundo que nunca foi feito para alguém como eu.

– Tudo bem. Não costumo usar meu sobrenome na empresa.

Claro que não.

Porque pessoas como ela podem escolher.

Podem decidir quando querem ser apenas “Melissa” e quando querem ser “Miller”.

Eu nunca tive esse tipo de escolha.

– Mel... – hesito por um instante, sentindo o cansaço finalmente pesar sobre meus ombros, não físico, mas mental, emocional, como se o dia tivesse sido longo demais, intenso demais – a noite estava ótima, mas depois do que houve, prefiro ir para casa.

Ela me observa por um breve momento, como se avaliasse algo além das palavras, como se percebesse mais do que eu gostaria de mostrar, mas, para minha sorte, não insiste.

– Tudo bem, não se preocupe. Nos vemos amanhã?

A simplicidade da pergunta contrasta com o turbilhão dentro de mim, e eu me apego a isso, à normalidade momentânea, ao fato de que, pelo menos ali, tudo ainda parece controlável.

– Com certeza.

Nos despedimos, e enquanto me afasto, sinto que cada passo me leva não apenas para longe dali, mas de volta para a realidade que me espera, para o lugar onde eu sei exatamente quais são as regras, mesmo que elas sejam cruéis, mesmo que sejam sufocantes.

Decido ir para casa enquanto ainda é cedo.

Enquanto ainda sei que não corro o risco de encontrá-lo.

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