Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV JADE:
A voz da Dani me alcança ainda no banheiro, enquanto eu continuo parada diante do espelho, tentando entender como, em poucos minutos, minha realidade foi arrastada para algo que não faz o menor sentido. Minha imagem refletida parece a de outra pessoa – alguém que acabou de ser envolvida em uma mentira grande demais para sustentar, alguém que disse “sim” sem pensar, sem planejar, sem medir as consequências. Demoro um segundo a responder, como se precisasse voltar ao meu próprio corpo antes de encará-la.
– Você ouviu, Dani?
Minha voz sai mais baixa do que o normal, mas não chega a falhar. Ela entra, fecha a porta atrás de si e cruza os braços, encostando-se nela com uma expressão que mistura surpresa e análise, como se estivesse reorganizando tudo o que acabou de presenciar.
– Toda a loja ouviu, querida.
Fecho os olhos por um instante, sentindo o peso daquilo. Claro que ouviram. Aqui, qualquer coisa fora do comum se espalha rápido, e aquilo definitivamente não foi comum. Passo a mão pelo rosto, tentando afastar a sensação de exposição.
– Dá para acreditar nisso?
Dessa vez não é só incredulidade – é um pedido silencioso para que alguém confirme que aquilo foi absurdo, impulsivo, completamente fora da realidade.
Dani demora um pouco mais para responder, e esse pequeno atraso já me incomoda. Quando volto a encará-la, percebo que ela não está apenas surpresa. Está pensando. Avaliando. Calculando possibilidades.
– Na verdade, não – ela diz por fim, descruzando os braços e se aproximando alguns passos. – Mas Jade... seja razoável.
Franzo a testa imediatamente, sentindo uma resistência subir dentro de mim.
– Razoável?
– Essa pode ser a sua chance de sair daquela casa – ela continua, agora sem rodeios. – De fugir do Sérgio.
O nome dele muda tudo. Sempre muda. Sinto meu corpo reagir, como se apenas ouvi-lo fosse suficiente para trazer de volta tudo aquilo que eu passo todos os dias.
– Me vendendo para um ricaço? – pergunto, ainda tentando entender como ela chegou a essa conclusão.
Dani não recua, não suaviza o tom, não tenta transformar a ideia em algo mais leve.
– Você ouviu o que ele disse. Não é um casamento de verdade, Jade. É um acordo. Você não precisa dividir nada com ele além de um nome. Em troca, você ganha segurança, dinheiro... e uma saída.
A palavra “saída” fica suspensa entre nós por alguns segundos, carregada demais para ser ignorada. Porque eu sei exatamente o que ela significa. Sei o quanto eu preciso disso. E, por um momento, contra a minha própria vontade, eu me permito imaginar como seria não voltar para aquela casa, não precisar trancar a porta, não precisar calcular cada movimento para evitar um confronto. A ideia é tentadora demais – e é justamente por isso que me assusta.
– Eu não posso, Dani – respondo, balançando a cabeça lentamente, como se precisasse reforçar aquilo para mim mesma. – Você sabe que não posso. Sérgio não deixaria isso passar.
Ela se aproxima ainda mais, agora com um olhar mais intenso, quase insistente.
– Se você estiver ao lado de um homem como aquele, se torna intocável.
Solto um pequeno suspiro, sem humor algum, desviando o olhar por um instante antes de encará-la novamente.
– Você realmente acredita nisso? – pergunto, mais cansada do que irritada. – Você não conhece o Sérgio.
– E você não conhece o tipo de poder que aquele homem tem.
O silêncio que se instala não é confortável. É pesado, cheio de possibilidades que nenhuma de nós consegue ignorar completamente. Porque, no fundo, existe uma chance de que ela esteja certa. E isso torna tudo ainda mais complicado.
– Dani... isso não é uma opção – digo por fim, encerrando a conversa antes que eu mesma comece a ceder. – É melhor eu voltar ao trabalho.
Dou um passo em direção à porta, e dessa vez ela não me impede. Mas o olhar dela me acompanha, cheio de algo que eu não quero nomear.
Eu ainda estou tentando recuperar o ritmo normal do dia quando ouço a voz dele novamente. Não alta, não insistente – mas suficiente para me alcançar onde quer que eu esteja.
– Jade.
Paro por um segundo antes de me virar, já sabendo que essa conversa não terminou.
– Senhor Miller, por favor... – começo, tentando manter a distância que deveria existir entre nós – eu não tenho interesse em fazer parte de suas mentiras.
Ele está mais próximo agora, mas não invade meu espaço. Ainda assim, há algo diferente na postura dele, algo menos controlado, menos seguro do que antes.
– Não é uma mentira no sentido que você está pensando – ele responde, com uma calma que parece construída. – É um acordo. Temporário. Um ano, no máximo.
Balanço a cabeça antes mesmo que ele termine.
– Não.
– Você nem considerou.
– Considerei o suficiente.
Minha resposta vem mais firme dessa vez, porque eu preciso que venha. Preciso acreditar nela.
– De jeito nenhum.
Ele passa a mão pelos cabelos, soltando o ar de forma controlada, como se estivesse tentando não perder a paciência.
– Eu estou te pedindo.
Há uma mudança no tom dele, sutil, mas perceptível. E isso me desestabiliza por um segundo, porque não soa como alguém acostumado a dar ordens – soa como alguém que realmente precisa de uma resposta diferente.
Mas eu não posso me dar ao luxo de me envolver nisso.
– Eu agradeço, senhor Miller – digo, erguendo o queixo e sustentando o olhar dele – mas é um não definitivo.
Ele me encara por alguns segundos, como se estivesse recalculando tudo, e então tira um papel do bolso, estendendo-o na minha direção. Eu hesito, mas acabo pegando, mais por reflexo do que por decisão.
– Esse é o endereço da casa da minha mãe. E meu número – ele diz. – Vá ao jantar hoje.
Abro a boca para recusar imediatamente, mas ele me interrompe antes.
– Só... não me dê outra resposta agora. Pense.
A pausa que ele deixa depois disso é breve, mas carregada.
– Eu preciso ir.
E então ele simplesmente vai embora, sem insistir, sem olhar para trás, como se já tivesse dito tudo o que precisava.
Fico parada por alguns segundos, olhando para o papel na minha mão, sentindo o peso daquela escolha que eu já decidi não fazer – mas que, ainda assim, insiste em não desaparecer completamente.
Não posso ir.
Tenho prova.
A última do semestre.
E, ao contrário dele, eu não tenho margem para erro. Minha bolsa não é um detalhe – é a única razão pela qual eu ainda estou na faculdade. Perder isso não é uma opção.
Guardo o papel no bolso, mais por não saber o que fazer com ele do que por qualquer outra coisa, e volto ao trabalho, tentando me convencer de que aquilo não tem nada a ver comigo.
A prova termina mais cedo do que eu esperava, mas não sinto alívio imediato. Minha mente esteve distante durante boa parte do tempo, dividida entre desenhos, prazos e uma proposta absurda que eu já deveria ter esquecido. Saio da faculdade com passos mais rápidos do que o normal, como se quisesse antecipar algo que sei que não posso evitar.
Quando chego em casa, a sensação vem antes mesmo de abrir a porta.
Algo está errado.
Sempre está, mas hoje... é diferente.
Empurro a porta com cuidado e encontro Sérgio no sofá, assistindo televisão. Ele não parece distraído. Parece atento. Esperando. O olhar dele se volta para mim no mesmo instante em que entro, e não há espaço para dúvida – ele está sóbrio o suficiente para ser perigoso.
Não penso.
Corro.
O movimento é automático, ensaiado, repetido tantas vezes que meu corpo não precisa de comando. Chego ao quarto, tranco a porta e arrasto a cômoda com pressa, sentindo o coração bater forte demais dentro do peito. O primeiro impacto contra a porta vem logo em seguida, violento, seguido de outro e mais outro, enquanto ele grita do lado de fora.
Eu me afasto, tentando controlar a respiração, mantendo o silêncio que aprendi a usar como defesa. Ele continua por alguns minutos – socos, chutes, ameaças – até que, como sempre, cansa. O silêncio que vem depois não traz alívio, apenas uma pausa.
Não demoro.
Dessa vez, não.
Começo a arrumar a mochila com movimentos rápidos, escolhendo apenas o essencial, sem me permitir pensar demais. Sei que, se parar, posso não ter coragem de sair. Espero alguns minutos, certificando-me de que não há mais barulho, e então abro a porta com cuidado.
Sérgio está apagado no sofá.
A garrafa no chão.
A respiração pesada.
Passo por ele sem fazer som, cada passo calculado, até alcançar a porta e sair. Não olho para trás.
No metrô, a sensação de distância começa a se instalar, mesmo que ainda seja pequena. Sento e puxo o celular, procurando um lugar onde possa ficar – barato, próximo ao trabalho, algo que eu consiga pagar com o pouco que sobra depois de entregar tudo para ele.
Encontro um motel a poucos metros da cafeteria.
Não é bom.
Mas é possível.
E, agora, isso basta.
O prédio é discreto demais, e o ambiente deixa claro, logo na entrada, que aquele lugar não é frequentado apenas por quem precisa dormir. O olhar do recepcionista, o silêncio estranho, as portas fechadas... tudo denuncia o tipo de uso que aquele espaço tem.
Ainda assim, eu fico.
Porque a alternativa é pior.
O corredor é estreito, e os sons atravessam as paredes com facilidade demais. Eu paro por um instante quando ouço gemidos vindos de um dos quartos, mas logo volto a andar, forçando-me a ignorar. Entro no quarto, tranco a porta e me encosto nela por alguns segundos.
Não é o ideal.
Mas é seguro.
E isso já é mais do que eu tinha.
O despertador toca às seis, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não acordo em estado de alerta. Desligo e me permito ficar mais alguns minutos na cama, aproveitando um tipo de descanso que eu quase não reconheço.
Quando o celular toca novamente, o susto me faz levantar de uma vez.
Dani.
Atendo rapidamente.
– Alô?
– Jade, onde você está? – a voz dela vem carregada de preocupação. – Aquele nojento fez alguma coisa?
Sento na cama, ainda tentando organizar os pensamentos.
– Não, eu estou bem.
– Já são oito horas!
Olho o relógio e o choque me atinge imediatamente.
– Oito?
Levanto em um salto.
– Sim!
Passo a mão pelos cabelos, completamente desperta agora.
– Eu dormi fora de casa – explico rápido. – Estou em um hotel perto da cafeteria. Chego em quinze minutos.
Do outro lado, ela solta um suspiro de alívio.
– Tudo bem... só vem.
Desligo e começo a me arrumar às pressas, reunindo minhas coisas e saindo do quarto com movimentos rápidos. Pago a conta na recepção, ignorando o olhar curioso do atendente, e caminho em direção à cafeteria com passos largos.
O ar da manhã é frio, mas limpo, e por um instante eu paro, respirando fundo.
Não sei o que vai acontecer a partir daqui.







