Mundo de ficçãoIniciar sessão— Se vai me matar, faça de uma vez — sussurrei, erguendo o queixo enquanto as garras dele roçavam o meu pescoço. O Rei Alpha soltou um riso sombrio que fez meu sangue gelar. Ele prendeu meu corpo contra a parede, os olhos dourados brilhando de possessividade. — Matar você, passarinho? Não. Eu vou devorar você. Todo inverno, uma garota humana é mandada para o abatedouro. O preço da paz é o sangue. O destino? O castelo do cruel Rei Alpha do Norte. Meu nome é Maeve, e eu sou o sacrifício deste ano. As lendas diziam que eu não sobreviveria à primeira noite. Que o Monstro do Norte, um gigante letal e coberto de cicatrizes, rasgaria a minha garganta como fez com as catorze noivas antes de mim. Mas esqueceram de me avisar sobre um detalhe: os três filhos dele. Crianças selvagens, traumatizadas e cruéis que aterrorizam o castelo. Para sobreviver nessa toca de lobos, eu não devo lutar contra o Rei. Eu preciso domar os herdeiros dele. Agora, o Alpha frio e implacável está perdendo o controle. A humana frágil que deveria ser apenas uma oferenda descartável está mandando no seu castelo — e no coração dos seus filhos.
Ler maisOakhaven não era uma cidade; era uma ferida aberta na base da montanha que alguém, por preguiça ou incompetência, esquecera de costurar.
A praça central fedia. Era uma mistura densa de serradura podre, lama congelada, suor azedo e o mijo dos porcos que os açougueiros sangravam de madrugada. Mas naquele dia, o cheiro predominante era o do medo. Um medo físico, palpável, que descia da encosta da montanha junto com a neblina e se instalava na base da nossa garganta, tornando a respiração num exercício de engolir vidro moído.
Éramos trezentas. Trezentas mulheres em idade fértil, espremidas umas contra as outras, ombro a ombro, feito gado aguardando a marreta no abatedouro. Ninguém falava. Ninguém sequer chorava. O frio a vinte graus negativos não permite o luxo das lágrimas; elas congelam nos cílios e rasgam a pele.
A minha mão direita estava entrelaçada na de Cora. Os dedos dela, curtos e calejados de esfregar o chão da estalagem do pai, apertavam os meus com tanta força que a circulação do meu pulso já tinha parado há minutos. Cora e eu crescemos juntas. Dividimos pão com gorgulho nos invernos piores e roubamos lenha do armazém da prefeitura quando a minha mãe estava a morrer com a podridão nos pulmões. Cora era a coisa mais próxima de sangue que me restava desde que a terra engoliu os meus pais há dois anos.
— Meus pés não mexem — sussurrou Cora, a voz um fio de fumo branco que se dissipou no ar estático. Os dentes dela batiam como castanholas velhas.
— Mexe os dedos dentro das botas — murmurei de volta, sem desviar os olhos do palanque de madeira erguido no centro da praça. — Um por um. Não deixa o sangue parar, Cora.
Eu estava igualmente dormente. Com um metro e setenta de altura, era difícil esconder-me no meio daquelas raparigas raquíticas e encolhidas. Eu sentia o vento chicotear o meu rosto com uma precisão cirúrgica. Os meus sessenta e cinco quilos pareciam insuficientes para me manter ancorada ao chão; eu era apenas osso, nervos e um pânico surdo a vibrar debaixo de um vestido de algodão que já fora lavado tantas vezes que o tecido estava quase transparente.
O palanque rangeu, gemendo sob o peso de Vossa Excelência, o Prefeito.
Ele era um homem obeso, envolto numa quantidade obscena de peles de raposa e urso. O rosto dele era uma massa de carne vermelha e capilares estourados pelo excesso de vinho e pela falta de caráter. Atrás dele, dois mercenários do exército do Sul guardavam a urna de ferro. Não eram soldados comuns. Eram cães de guerra, homens que vendiam a espada a quem pagasse a conta da taberna. Um deles tinha uma cicatriz brutal que lhe repuxava o lábio superior num esgar constante. O outro mascava tabaco, cuspindo no estrado de madeira com uma indiferença abismal ao facto de que, nos próximos cinco minutos, a vida de uma de nós iria acabar.
A urna de ferro negro repousava sobre uma mesa capenga. Lá dentro, trezentos pedaços de papel. Trezentas sentenças de morte adiadas.
— Povo de Oakhaven! — A voz do Prefeito esganiçou-se, tentando sobrepor-se ao uivo do vento. Ele não parecia solene. Parecia um homem que queria despachar um trabalho burocrático chato para poder voltar para os seus ovos com bacon perto da lareira. — O Tratado do Inverno convoca-nos. A paz tem um preço. A coroa exige o sacrifício, para que a besta do Norte permaneça na sua montanha e o nosso vale prospere!
Prosperar. Que piada de mau gosto. Nós morríamos de tuberculose aos quarenta anos, trabalhávamos dezasseis horas por dia nas serranhias e comíamos nabos cozidos seis dias por semana. Se aquilo era prosperar, eu adoraria saber o que o Prefeito considerava a miséria.
O carrasco do Norte. O Rei Alpha.
Não havia uma criança em Oakhaven que não conhecesse as lendas, que não tivesse tido pesadelos com olhos dourados na escuridão. Diziam que as matilhas do Norte não eram feitas de homens que se transformavam em lobos, mas de demónios que de vez em quando vestiam pele humana. Diziam que o Rei Supremo matava as suas noivas por desporto. Catorze mulheres tinham feito aquela viagem antes de mim. Catorze nomes riscados dos registos paroquiais. Nenhuma carta enviada, nenhum corpo devolvido. Apenas o silêncio triturador da montanha.
O Prefeito pigarreou, tirou a luva direita — um anel de sinete de ouro reluziu obscenamente na luz morta da manhã — e enfiou a mão na urna de ferro.
O som da mão dele a revolver os papéis foi a coisa mais alta do mundo. Um atrito seco. Um farfalhar de sentenças.
Cora apertou a minha mão até os ossos dos meus dedos estalarem. Eu prendi a respiração. O meu coração batia tão depressa, com tanta violência contra as costelas, que eu jurei que o som abafado preenchia a praça.
O Prefeito puxou um pequeno quadrado de papel dobrado.
Ele semicerrou os olhos. O vento bateu na ponta do pergaminho. Ele abriu a boca.
— Maeve.
O som daquela única palavra não entrou pelos meus ouvidos. Bateu-me diretamente no esterno, como um coice de cavalo.
O mundo parou de girar. A gravidade desapareceu.
A minha primeira reação não foi medo; foi uma rejeição absoluta, lógica e biológica. Não. Está errado. Eu tenho roupa para remendar à tarde. Eu tenho meia carcaça de pão no armário. Não sou eu.
Mas a bile quente e ácida subiu-me pela garganta, queimando-me o esófago. Engoli em seco, e o gosto a cobre inundou as minhas papilas gustativas. Eu tinha trincado o interior da bochecha com tanta força que rasguei a carne.
Um som indescritível varreu a praça. Trezentas mulheres soltaram a respiração ao mesmo tempo. Foi um longo e húmido suspiro de alívio. O alívio cobarde, instintivo e nojento de quem percebe que a forca era para o pescoço ao lado.
E então, o espaço à minha volta mudou.
Os dedos de Cora afrouxaram. Senti a mão dela escorregar da minha, húmida de suor frio. Eu virei o rosto, devagar, o pescoço estalando de tensão.
Cora não olhava para mim. Os olhos dela estavam fixos no chão, os ombros encolhidos, e ela deu um passo para trás. E depois outro. E outro.
A rapariga que dividiu o meu cobertor, que me viu chorar no funeral da minha mãe, estava a recuar como se eu fosse um cão sarnento portador da peste negra. O círculo abriu-se. As pessoas foram-se afastando, empurrando-se umas às outras, alargando o buraco no meio da multidão até eu ficar no centro de um palco vazio, isolada na minha própria ilha de condenação.
Ninguém me ia salvar. Ninguém ia protestar. O Tratado exigia uma garota, e eles iam embrulhar-me e despachar-me sem pensar duas vezes.
Não caias.
A voz na minha cabeça não tinha nada de grandioso. Era crua, gutural. Se tu caíres de joelhos, eles vão arrastar-te pela lama. Vais sangrar, vais rasgar a pele. Vais chegar ao matadouro como um farrapo. Levanta a cabeça.
Obriguei a minha perna direita a mover-se. Foi como tentar arrastar o tronco de um pinheiro recém-cortado. A sola da bota derrapou no gelo negro, mas travei a rótula. Dei outro passo. Os meus joelhos queriam ceder, a náusea empurrava-me para baixo, mas eu foquei os olhos nos degraus de madeira do palanque. Não olhei para o Prefeito, não olhei para Cora. Olhei para a jaula.
Estacionada na orla da praça, puxada por dois cavalos de tração imensos, a carruagem era, na verdade, uma caixa de ferro grosso presa a um eixo de rodas reforçadas. As barras enferrujadas cheiravam a sangue antigo e desespero.
Cheguei à base do estrado. Os dois mercenários desceram os degraus e flanquearam-me. O mais velho, o da cicatriz, cheirava a tabaco forte e suor rançoso.
Ele não disse "sinto muito" ou "pobre rapariga". Não havia compaixão num homem daqueles; havia apenas um serviço contratado. Ele agarrou o meu braço acima do cotovelo, os dedos grossos afundando no meu músculo, e empurrou-me em direção à carruagem.
O puxão foi tão brusco que quase perdi o equilíbrio. A humilhação de ser manuseada como um porco a caminho do gancho acendeu uma faísca raivosa no meio do meu pânico estúpido. Puxei o braço, arrancando-o do aperto dele com uma violência inesperada.
O mercenário parou. A mão dele desceu instintivamente para o pomo da espada curta presa ao cinto, os olhos cínicos estreitando-se.
— Não tenta brincadeira nenhuma comigo, garota — avisou ele, a voz ríspida. — Posso não ter ordem para te matar agora, mas posso muito bem quebrar os teus joelhos e te jogar lá dentro do mesmo jeito. O Rei Alpha não vai reclamar se a oferenda chegar toda arrebentada.
Parei em frente à porta aberta da jaula. O vento uivou, atravessando as grades. O chão da carruagem estava forrado com palha podre, molhada da neve que entrava sem cerimónia. Olhei para baixo, para a minha própria roupa. O algodão ralo não parava sequer a brisa de outono, quanto mais a tempestade da encosta norte.
— O Tratado — a minha voz saiu fraca, um sopro arranhado. Tive de engolir seco para a fazer funcionar. — O Tratado pede um sacrifício vivo, não é?
O mercenário da cicatriz franziu a testa, cuspindo um resto de tabaco na neve, a poucos centímetros da minha bota.
— E daí? O que você quer com isso agora?
— Quero dizer que... — apontei para a blusa fina e para os meus lábios que, eu sabia, já deviam estar roxos. — Se eu entrar naquela caixa de ferro vestida desse jeito, o frio lá na montanha vai me matar antes da gente chegar na encruzilhada. Vocês não vão entregar um sacrifício pro Norte. Vão entregar um corpo congelado. E aí sim, vocês vão quebrar o Tratado.
O guarda deu uma risada curta, mas parou para me analisar. Ele olhou para o meu tremor, para o jeito que eu estava tentando não bater os dentes. Ele viu que eu não estava mentindo.
Ele soltou um palavrão baixo, virou-se para o cavalo e puxou um rolo de lã pesada que estava amarrado atrás da sela.
Era uma capa militar grossa, forrada com pele de ovelha. Pesada, suja, mas cheia de calor. Ele jogou em cima de mim sem qualquer cerimónia.
— Veste essa droga e entra logo — resmungou ele. — Minha paciência e minha caridade acabaram por hoje.
Não agradeci. Só me enfiei no tecido, sentindo o calor imediato abraçar meus braços. Subi o degrau, senti a madeira podre ceder, e entrei naquela caixa de metal.
A porta bateu com um estrondo. A chave girou.
A carruagem arrancou, dando um tranco que quase me jogou contra o ferro. A aldeia de Oakhaven foi sumindo na neblina, e eu me encolhi num canto, sentindo o cheiro rançoso da capa.
A primeira lágrima desceu, quente e rápida, congelando na minha pele. Não era choro de heroína. Era medo puro. Eu estava sozinha, indo em direção a um monstro que matava noivas por esporte.
Mas enquanto o frio batia lá fora, eu fechei as mãos em punho dentro dos bolsos daquela capa. Eu estava morrendo de medo, sim. Mas o Rei Alpha que se cuide. Eu não ia facilitar o trabalho dele. Se ele queria me caçar, que viesse. Eu não ia morrer de joelhos.
A paz na Fortaleza de Obsidiana era uma ilusão frágil, fina como uma camada de gelo sobre um lago profundo.Eu estava sentada no chão da pequena sala adjacente aos aposentos das crianças, assistindo o garotinho de cinco anos lamber o fundo da tigela de madeira até não sobrar uma única gota de mingau e mel. Elara, sentada numa cadeira alta de espaldar entalhado, comia a carne macia com uma lentidão desconfiada, como se esperasse que a comida fosse sumir a qualquer segundo. Kael não estava ali; o adolescente pegou a sua parte e sumiu para os pátios de treinamento logo depois do amanhecer.Puxei um pano úmido e limpei a bochecha suja do menor, que soltou um resmungo, mas não tentou morder a minha mão. Era uma vitória astronômica.Foi quando o ar do quarto mudou.Não houve som de porta abrindo ou passos pesados. Mas a pressão atmosférica despencou. O cheiro de lenha queimada foi engolido instantaneamente pelo aroma gélido de pinho selvagem, ozônio e perigo predatório.O menino parou de la
A luz da manhã na Fortaleza de Obsidiana nunca era realmente clara. Era um cinza sujo, filtrado pelas frestas de pedra, que parecia roubar as cores do mundo.Acordei com o corpo dolorido, enrolada nas peles de carneiro fedorentas da minha cela. A minha pele ainda formigava. O fantasma do toque do Rei do Norte — o peso das mãos dele, o hálito de menta selvagem e a respiração pesada contra o meu pescoço — estava impregnado na minha mente como uma tatuagem. Meu baixo ventre deu uma pontada traiçoeira, uma lembrança física da humilhação e do desejo que ele arrancou de mim na noite anterior.Esfreguei o rosto com as mãos calejadas, expulsando a imagem dos olhos dourados dele. Eu estava viva. O sol tinha nascido, e o meu pescoço continuava intacto. Mas a fome crônica, aquela dor aguda que torcia o estômago, bateu na porta com a força de um aríete. E dessa vez, eu não estava pensando só na minha barriga. Tinha três crianças órfãs num quarto em algum lugar daquele castelo gelado que acordaria
Os dedos do Rei do Norte se embrenharam com mais força nos meus cachos recém-soltos. Ele não puxou com a brutalidade do guerreiro no salão; ele fechou a mão, transformando o meu cabelo numa corda macia que o conectava a mim, e me puxou um passo para a frente.O meu corpo colidiu contra as pernas abertas dele.O ar do quarto pareceu desaparecer. Eu estava presa no espaço entre as coxas do monstro, de pé, enquanto ele continuava sentado na borda de pedra da tina fumegante. O calor que emanava do peitoral nu dele ultrapassou a barreira da lã grossa do meu vestido, aquecendo a minha barriga de um jeito que me fez prender a respiração.Ele ergueu o rosto na direção do meu, mas os olhos dourados não buscavam a minha boca. Eles estavam cravados na linha exposta do meu pescoço, onde a pulsação frenética do meu coração batia contra a pele pálida.Ele inspirou fundo, o nariz roçando o meu maxilar. O som da respiração dele foi áspero, como o de um predador farejando o ar antes de dar o bote. O c
O peso do dia finalmente alcançou os menores. Depois do banho quente e das histórias sobre um céu que eles nunca tinham visto, Elara e o lobinho apagaram encostados perto da lareira. Kael, com uma delicadeza que contradizia o tamanho e a pose de guerreiro dele, pegou o menino menor no colo. A garota segurou a barra da camisa do irmão, esfregando os olhos de sono, e os três saíram pelos corredores em direção à ala dos quartos.Eu deveria ter voltado para a minha cela. Deveria ter aproveitado a trégua improvável para me esconder debaixo das peles de carneiro e rezar para que o amanhã demorasse a chegar.Mas o sono estava a quilômetros de distância de mim.A adrenalina da matança no salão principal ainda corria nas minhas veias como um veneno frio. O meu peito estava entupido de uma raiva ácida, de um amargor profundo pela loucura daquele lugar, misturado com uma curiosidade suicida. O Rei do Norte havia destroçado um dos seus para me proteger, e depois espalhou o sangue da vítima no meu
Último capítulo