Mundo de ficçãoIniciar sessãoO clique da porta se fechando nas minhas costas soou como a tampa de um caixão sendo pregada.
A escuridão gélida do corredor de obsidiana ficou para trás. O quarto do Rei do Norte não era um covil de gelo e rocha crua como eu imaginava. Era um forno. O choque térmico bateu no meu rosto com a força de um soco físico. O ar lá dentro era denso, sufocante, carregado com um vapor espesso que embaçava o ar e deixava as pedras das paredes úmidas. O ambiente cheirava a lenha queimada, sândalo e àquele mesmo ozônio metálico e selvagem que exalava dos guardas, mas cem vezes mais concentrado. Cheirava a predador puro.
Dei um passo hesitante. Meus pés descalços afundaram em tapetes incrivelmente grossos de pele de animal negro, espalhados pelo chão de pedra polida. O vestido de seda preta — a única coisa ridícula e fina que aquelas feras tinham me deixado vestir — imediatamente começou a grudar na minha pele por causa do vapor quente. A seda gelada contrastando com a fornalha do quarto me fez tremer incontrolavelmente.
Então, ouvi o som.
A água se movendo. Um respingo pesado e lento.
No centro do aposento monumental, iluminado por braseiros de ferro negro que ardiam com chamas altas, havia uma tina circular cavada diretamente no piso, parecendo uma pequena piscina natural. A água fumegava intensamente.
E no meio da fumaça, o monstro começou a emergir.
Meu cérebro gritou para eu fechar os olhos. O pudor, a decência ou apenas o instinto primitivo de não encarar a morte de frente mandavam eu olhar para o chão e me encolher. Mas eu estava presa no chão. Minhas pernas haviam desaprendido a andar. O ar fugiu dos meus pulmões e se recusou a voltar.
Ele se levantou da água fervente de costas para mim. Ele era colossal. Uma montanha de músculos rígidos, tensão e violência latente, completamente nu, sem um único traço de vergonha ou pudor humano.
A água quente escorria pelos ombros absurdamente largos, descendo por uma extensão de pele que contava a história de um matadouro. As costas dele eram retalhadas por cicatrizes profundas, grossas e ferozes. Mas o que me fez prender a respiração até a garganta doer foram as tatuagens. Símbolos ancestrais, runas nórdicas rústicas e agressivas espalhavam-se pela escápula, desciam pela espinha e envolviam os braços fortes. Eram gravadas em um tom tão escuro que pareciam ter sido encravadas com carvão e sangue pisado.
Os cabelos loiros, longos e molhados, escurecidos pelo peso da água, grudavam nos ombros e escorriam pelas costas marcadas.
Ele parou de se mover.
A água parou de espirrar. Os músculos tensos das costas dele travaram.
Ele não precisou se virar para saber que eu estava ali. Ele sentiu a minha pulsação descompassada. Ele cheirou o meu terror no exato milésimo de segundo em que eu cruzei a soleira da porta.
O Rei virou o pescoço, de forma lenta, quebrando o silêncio do quarto com o som da água pingando no tapete. Ele olhou por cima do ombro.
Foi a primeira vez que vi o rosto do meu carrasco. Eu esperava um rei velho, deformado pelo ódio e pelo frio. O que encontrei foi infinitamente pior. Traços aristocráticos e incrivelmente simétricos, um maxilar travado e duro como aço, delineado por uma barba loira por fazer. A beleza dele não era humana; era a beleza aterradora de uma avalanche.
E os olhos. Pelos deuses. Eram poços de ouro derretido. Dourados, brilhantes, incandescentes na meia-luz do quarto. Não havia pingo de compaixão neles. Nenhuma empatia. Havia apenas a frieza sádica, calculista e predatória de um lobo faminto medindo exatamente onde daria a primeira mordida.
Ele girou o corpo inteiro, saindo da tina com um único passo largo e pesado. Cada movimento que ele fazia era silencioso, fluido e mortal. Uma fera letal de dois metros de altura avançando na minha direção.
Eu sempre me orgulhei da minha rebeldia. Eu passei a viagem inteira na jaula jurando que não ia facilitar. Que minha língua afiada seria a minha última defesa. Que eu ia cuspir no rosto do maldito Alpha antes de morrer.
Mas, enquanto ele fechava a distância entre nós, a minha arrogância desintegrou-se como papel no fogo.
Meu corpo era uma carcaça trêmula. Eu queria dar um passo para trás, tentar achar a maçaneta às cegas, mas minhas costas já estavam coladas contra a madeira fria da porta. Eu estava totalmente encurralada.
Ele parou a um palmo de distância.
A altura dele era esmagadora. O calor infernal que irradiava da pele molhada dele varreu o resto do frio que eu sentia. Ele era um fornalha viva. Tive que inclinar o pescoço para trás até a cervical estalar para não perder aqueles olhos dourados de vista. A sombra dos ombros dele me engoliu completamente, apagando qualquer chance de rota de fuga.
O silêncio esticou até o limite do insuportável.
Ele ergueu uma das mãos. Lentamente. Os dedos eram longos, rústicos, calosos. Ele tocou a lateral do meu ombro, bem na borda onde a alça de seda preta encontrava a minha pele arrepiada. O toque foi leve, quase inexistente, mas a eletricidade daquele contato me fez soltar um engasgo miserável.
A coragem dos desesperados finalmente arranhou a minha garganta. Eu precisava falar. Se eu ficasse em silêncio, ele me quebraria ali mesmo.
— Se vai me matar... — A minha voz falhou. Saiu como um sussurro rasgado, indigno, mas eu me recusei a baixar a cabeça. Engoli em seco e forcei as palavras a passarem pelos meus lábios trêmulos. — Faça de uma vez. Eu não vim aqui para pedir clemência.
O Rei do Norte piscou. O movimento foi lento, as íris douradas escurecendo de imediato. O ar do quarto pareceu ficar ainda mais rarefeito.
As mãos brutais que roçavam o meu ombro deslizaram para a base do meu pescoço. O toque de repente virou aço. Ele segurou o meu maxilar, o polegar pressionando exatamente em cima da minha veia jugular, sentindo a batida frenética e alucinada do meu coração pulando contra os dedos dele.
Ele inclinou o corpo musculoso e nu para a frente, diminuindo o espaço que não tínhamos. O cabelo úmido dele roçou na minha bochecha. O cheiro de pinho selvagem e hortelã gelada invadiu as minhas narinas quando ele aproximou a boca do meu ouvido.
Ele soltou um som. Não foi um riso humano. Foi um rosnado baixo, sombrio e gutural que reverberou do fundo do peito dele, vibrando contra o meu próprio esterno.
— Matar você? — A voz dele era o caos absoluto. Rouca, profunda, arranhando como uma lâmina cega no escuro. — Você acha que eu te arrastei para o fim do mundo para simplesmente sujar o meu chão de sangue, passarinho?
Ele apertou os dedos no meu maxilar, forçando meu rosto de volta para o dele. Nossos lábios estavam a milímetros de distância. O calor da respiração dele queimava a minha boca seca.
Puxei o ar, tentando empurrá-lo pelo tórax com as duas mãos fracas. Foi como tentar empurrar uma parede de pedra maciça. Ele nem sequer sentiu. Ele acompanhou a minha tentativa ridícula de fuga prensando o próprio corpo impenetrável e escaldante contra o meu, esmagando a fina camada de seda entre nós.
— Vamos esclarecer duas coisas, a primeira: você é a minha presa. — sussurrou ele, os olhos cravados nos meus, brilhando com uma possessividade que me deu calafrios na espinha. Ele encostou o nariz na curva do meu pescoço, e eu senti os dentes dele roçarem de leve na minha pele, uma promessa violenta e silenciosa. — mas, isso não quer dizer que eu vou simplesmente quebrar o seu pescoço.
Ele ergueu o rosto, me aprisionando com um olhar que me deixou nua de qualquer defesa.
— Segunda, eu vou devorar você. — O polegar dele alisou o meu lábio inferior trêmulo com uma agressividade contida.







