Mundo de ficçãoIniciar sessãoO eixo de ferro da carruagem rangeu com um guincho metálico que parecia serrar os meus ossos. Cada vez que a roda de madeira reforçada batia num buraco ou numa pedra escondida debaixo da neve espessa, o impacto subia violentamente pela base da minha coluna, chicoteando minha nuca. A caixa de ferro não tinha amortecedores, não tinha conforto nenhum. Era literalmente uma jaula sobre rodas, desenhada para transportar feras capturadas, prisioneiros de guerra ou, no meu caso, um sacrifício humano a caminho do abatedouro.
O cheiro lá dentro era de revirar o estômago. A palha úmida que forrava o piso de madeira podre fedia a urina velha, suor azedo e a um pânico podre que não era meu. Outras pessoas estiveram ali antes. Pessoas que, como eu, foram atiradas nessa escuridão fria e despachadas para o inferno. Senti a bile queimar o fundo da garganta, um líquido ácido e quente que me fez engasgar. Apertei a mandíbula com tanta força que os dentes de trás doeram, forçando o enjoo a descer. Se eu vomitasse agora, teria que passar o resto da viagem deitada na minha própria sujeira, congelando nela.
A única coisa que me separava de uma morte rápida por hipotermia era a capa militar escura que o mercenário do Sul havia jogado em mim na praça. O tecido grosso de lã e forro de carneiro pinicava a pele do meu pescoço. Tinha um cheiro forte, uma mistura enjoativa de cavalo molhado, fumaça de cachimbo e suor de homem velho. Mas era a minha armadura. Eu me encolhi ainda mais dentro dela, abraçando meus joelhos contra o peito e abaixando a cabeça para preservar qualquer fiapo de calor que meu corpo miserável ainda conseguisse produzir.
Lá fora, o vento não soprava; ele entrava pelas grades grossas da jaula feito uma lâmina invisível. Eu não sentia mais a ponta dos dedos dos pés dentro das minhas botas gastas, cuja sola fina há muito tempo tinha desistido de me proteger de alguma coisa.
O também frio não era novidade para mim, claro. Em Oakhaven, o inverno durava meses e levava os mais fracos embora. Mas aquele frio na estrada para o Norte... ele era diferente. Ele tinha dentes. Ele parecia vivo, caçando qualquer fonte de calor para devorar.
Fechei os olhos e, no escuro balançante da carroça, a dor nas minhas pernas me levou direto para a memória do inverno em que meu pai morreu. A nossa casa não passava de um aglomerado de tábuas empenadas que deixavam a neve entrar pelas frestas. Ele passou três semanas deitado num colchão de palha fedorento, quase igual ao que eu pisava agora. A tosse dele soava como cascalho sendo esmagado dentro do peito, dia e noite. Quando ele finalmente parou de respirar, a morte não foi pacífica. O frio simplesmente invadiu o cômodo de vez, congelando o pouco de vida e calor que restavam naquelas paredes rachadas. Minha mãe seguiu o mesmo caminho logo depois, com os pulmões cheios de líquido, exausta demais para continuar lutando contra a miséria crônica.
Eu fiquei para trás. Eu sobrevivi à pior das fomes. Limpei chão de taverna manchado de vômito de bêbado em troca de cascas de pão amanhecido. Roubei lenha úmida do armazém da prefeitura correndo o risco de ter as mãos decepadas. Enfiei papeis velhos por dentro da blusa rala para cortar o vento enquanto trabalhava. Eu lutei de forma suja, desesperada e patética para continuar respirando... e para quê? Para terminar amontoada numa jaula enferrujada, batendo os dentes, sendo enviada como um pedaço de carne barata para manter a cidade segura.
A imagem de Cora soltando a minha mão na praça central da vila voltou à minha mente como um soco. Minha melhor amiga. A garota com quem eu tinha dividido o último nabo no outono, recuando como se eu tivesse sido infectada por uma praga. Ninguém me defendeu. Ninguém levantou a voz. Trezentas mulheres prenderam a respiração em pânico absoluto, e quando o prefeito leu o meu nome na droga daquele papel amassado — "Maeve" —, Oakhaven inteira suspirou de alívio. O bilhete premiado da morte era meu. A vida medíocre deles estava garantida por mais um ano às custas do meu sangue.
A cada quilômetro que a carruagem avançava pelas estradas tortuosas, a temperatura despencava de forma brutal. Minhas unhas estavam arroxeadas, cravadas nas palmas das mãos escondidas no fundo dos bolsos da capa.
O Rei Alpha do Norte. O Carrasco de Obsidiana.
Eu cresci ouvindo as lendas na beira da fogueira. As mães usavam o nome dele para calar as crianças que choravam ou desobedeciam. "Fica quieto, ou o Monstro do Norte vem te buscar no escuro e pinta a neve com as suas tripas." Não era um conto de fadas folclórico; era uma ameaça viva.
As fofocas dos mercadores diziam que ele nem humano era mais. Que as matilhas lá de cima eram compostas por bestas que usavam a pele de homens apenas quando convinha, mas que a verdadeira forma deles era feita de sombras, garras, presas e violência pura. O Tratado de Sangue exigia uma garota viva todo maldito inverno. E as más línguas garantiam que o Rei se alimentava do terror das humanas, brincando com a presa até quebrar seus ossos em meio à neve.
Catorze.
O número ecoava na minha cabeça, ritmado com o barulho das rodas no cascalho congelado. Catorze mulheres de Oakhaven tinham feito essa mesma viagem desgraçada antes de mim. Catorze nomes apagados dos registros da paróquia. Nenhuma delas jamais mandou uma carta. Nenhuma delas jamais foi vista colhendo frutas ou caminhando por um mercado de novo. O Norte não devolvia corpos para a família enterrar; o Norte apenas os engolia.
O que é que aquele monstro ia achar quando me arrancasse dessa caixa imunda? Eu não era uma princesa empinada para ele corromper. Eu não tinha a pele macia de quem toma banho quente e passa óleos perfumados, nem as curvas fartas de quem tem o privilégio de comer três refeições gordurosas por dia. Eu era um metro e setenta de nervos, ossos marcados, desnutrição e puro pânico. Cabelos cacheados embolados e boca seca. Será que o Alpha ficaria decepcionado com a oferenda miserável desse ano? Será que ele simplesmente arrancaria a minha cabeça na porta do castelo, só por desgosto?
O pânico subiu, apertando minha traqueia. Um soluço agudo, feio e incontrolável escapou da minha garganta, rasgando o silêncio da jaula. Enterrei o rosto nas pernas. Eu estava apavorada até o último fio de cabelo. Eu queria ser um bicho bem pequeno, queria encolher até sumir no meio daquela palha fedorenta e nunca mais ser encontrada.
Não sei quanto tempo durou a viagem depois do meu colapso. O frio excessivo tem um jeito bizarro de entorpecer o cérebro, misturando os minutos e as horas num nevoeiro branco. A neblina que entrava pelas grades começou a ficar mais úmida e densa, cobrindo o chão da carruagem com uma fina camada de geada. Puxei o capuz do casaco militar o máximo que consegui para a frente do rosto e, tremendo de forma espasmódica, me arrastei de joelhos até a beirada da jaula de ferro para espiar lá fora.
O mundo tinha mudado drasticamente.
As árvores baixas, retorcidas e raquíticas do vale de Oakhaven tinham sumido. No lugar delas, dezenas de pinheiros negros, gigantescos e assustadores se erguiam como lanças enfiadas na terra, furando a neblina. A neve aqui não era a lama suja e marrom da minha aldeia, pisoteada por mulas e porcos; era um branco perolado, absoluto, intocado e perigosamente fundo.
E então, erguendo os olhos para o horizonte rasgado à frente, eu as vi.
As Montanhas Negras.
O impacto visual tirou o restinho de fôlego que eu ainda tinha. A base delas parecia engolir a luz cinzenta do sol. Eram picos rochosos imensos, escuros feito carvão, pontiagudos, que rasgavam o céu como se fossem as garras de um deus adormecido rompendo a terra. Não havia sinal de estradas normais, apenas um caminho tortuoso esculpido à força na rocha em direção ao nada. O ar lá fora tinha uma cor diferente, uma textura azulada e congelada que machucava os olhos.
A Fortaleza de Obsidiana, o castelo do Rei, ficava enfiada no meio daquela brutalidade toda. Era exatamente para lá que os cavalos ofegantes dos mercenários estavam me arrastando. Um reduto de gelo e pedra, isolado do resto da humanidade. Eu estava entrando no território onde as feras ditavam as leis. Um lugar onde o calor não passava de um mito antigo, e onde o gelo se certificava de preservar o sangue fresco por séculos.
O cavalo da frente relinchou de repente, um som agudo de estresse. O chicote estalou no ar frio, seguido de um palavrão cabeludo gritado pelo mercenário da cicatriz.
A carruagem começou a frear bruscamente. As pesadas rodas de ferro guincharam contra o gelo liso da estrada, deslizando perigosamente para o lado antes de finalmente encontrarem atrito nas pedras. O solavanco brutal me arremessou para a frente. Bati o ombro esquerdo nas barras geladas da frente da jaula, sentindo a dor irradiar pelo osso até a ponta dos dedos dormentes.
Paramos.
O silêncio que esmagou a montanha logo em seguida foi a pior coisa de todas. Não havia o canto de um maldito pássaro corvo. Não havia o farfalhar normal do vento nas folhas. Apenas um silêncio absoluto, estático e mortal. O tipo de silêncio que pesa nos tímpanos, aquele que sempre antecede o primeiro golpe de um massacre.
Ouvi o barulho áspero de couro rígido rangendo. Os mercenários desceram das selas. O som das botas pesadas deles afundando na neve começou a dar a volta na carruagem, caminhando bem devagar em direção à traseira, onde ficava a porta da minha jaula. Pelo som dos passos arrastados e hesitantes deles, eu percebi uma coisa bizarra: eles também estavam com medo. Aqueles homens rudes, acostumados a matar por moedas, armados até os dentes com cota de malha e espadas curtas, queriam entregar a carga e fugir dali correndo.
Do nada, o chão debaixo das rodas da carroça tremeu.
Um barulho profundo, grave e contínuo tomou conta do ar. O som de correntes colossais e rochas maciças raspando umas nas outras. Eram os portões da fortaleza se abrindo. O ruído fez meu estômago dar um salto mortal. Era um som gigantesco, intimidador, que ecoou pelas paredes do desfiladeiro.
O ar ao redor da jaula pareceu mudar de densidade, pesando dez toneladas sobre os meus ombros. Um cheiro totalmente novo invadiu as minhas narinas, varrendo o fedor da palha molhada com violência. Cheirava a pinho esmagado na neve, a ozônio de tempestade que queima as narinas e a algo muito primitivo. Sombrio. Completamente selvagem. O cheiro de um predador no topo da cadeia alimentar.
Meu coração martelou contra as minhas costelas num ritmo tão frenético que achei que fosse ter uma parada cardíaca ali mesmo. Todos os instintos biológicos de presa do meu cérebro gritaram na minha orelha em uníssono: Corra. Finja de morta. Se encolha. Não faça barulho.
A chave de ferro maciço rangeu na fechadura da minha porta. O barulho foi seco, alto, anunciando o fim da linha. O som de um caixão sendo aberto para quem ainda estava vivo.
Levanta a cabeça, Maeve.
A porta foi destrancada e puxada para fora com um guincho que irritou os meus ouvidos. A claridade branca e ofuscante da neve invadiu a caixa escura, cegando-me por um segundo. O ar gélido lá de fora bateu no meu rosto como um tapa agressivo de mão aberta, secando instantaneamente as lágrimas que ainda umedeciam minhas bochechas congeladas.
Puxei a gola da capa militar mais firme ao redor do pescoço, escondendo o tremor vergonhoso dos meus ombros. Soltei o tecido apenas o suficiente para apoiar as palmas das mãos na madeira cheia de farpas do chão e me empurrei para cima com toda a força que restava. Minhas pernas formigaram de dor, falhando no primeiro segundo, mas travei meus joelhos. Fiquei de pé.
Não havia nenhum glamour heroico na minha postura. Eu era só uma garota pobre, com os lábios rachados sangrando no canto, os olhos vermelhos e inchados de chorar escondida e o estômago roncando de fome. O monstro que me aguardava do outro lado daquela grade podia ter um exército, fúria e um rastro de noivas destroçadas na sua conta. Ele podia ser a personificação literal de todo o terror que o mundo conhecia...
Eu só queria viver.






