Vendida ao Monstro do Norte
Vendida ao Monstro do Norte
Por: Leticia S. Ferreira
O CORDEIRO

Oakhaven não era uma cidade; era uma ferida aberta na base da montanha que alguém, por preguiça ou incompetência, esquecera de costurar.

A praça central fedia. Era uma mistura densa de serradura podre, lama congelada, suor azedo e o mijo dos porcos que os açougueiros sangravam de madrugada. Mas naquele dia, o cheiro predominante era o do medo. Um medo físico, palpável, que descia da encosta da montanha junto com a neblina e se instalava na base da nossa garganta, tornando a respiração num exercício de engolir vidro moído.

Éramos trezentas. Trezentas mulheres em idade fértil, espremidas umas contra as outras, ombro a ombro, feito gado aguardando a marreta no abatedouro. Ninguém falava. Ninguém sequer chorava. O frio a vinte graus negativos não permite o luxo das lágrimas; elas congelam nos cílios e rasgam a pele.

A minha mão direita estava entrelaçada na de Cora. Os dedos dela, curtos e calejados de esfregar o chão da estalagem do pai, apertavam os meus com tanta força que a circulação do meu pulso já tinha parado há minutos. Cora e eu crescemos juntas. Dividimos pão com gorgulho nos invernos piores e roubamos lenha do armazém da prefeitura quando a minha mãe estava a morrer com a podridão nos pulmões. Cora era a coisa mais próxima de sangue que me restava desde que a terra engoliu os meus pais há dois anos.

— Meus pés não mexem — sussurrou Cora, a voz um fio de fumo branco que se dissipou no ar estático. Os dentes dela batiam como castanholas velhas.

— Mexe os dedos dentro das botas — murmurei de volta, sem desviar os olhos do palanque de madeira erguido no centro da praça. — Um por um. Não deixa o sangue parar, Cora.

Eu estava igualmente dormente. Com um metro e setenta de altura, era difícil esconder-me no meio daquelas raparigas raquíticas e encolhidas. Eu sentia o vento chicotear o meu rosto com uma precisão cirúrgica. Os meus sessenta e cinco quilos pareciam insuficientes para me manter ancorada ao chão; eu era apenas osso, nervos e um pânico surdo a vibrar debaixo de um vestido de algodão que já fora lavado tantas vezes que o tecido estava quase transparente.

O palanque rangeu, gemendo sob o peso de Vossa Excelência, o Prefeito.

Ele era um homem obeso, envolto numa quantidade obscena de peles de raposa e urso. O rosto dele era uma massa de carne vermelha e capilares estourados pelo excesso de vinho e pela falta de caráter. Atrás dele, dois mercenários do exército do Sul guardavam a urna de ferro. Não eram soldados comuns. Eram cães de guerra, homens que vendiam a espada a quem pagasse a conta da taberna. Um deles tinha uma cicatriz brutal que lhe repuxava o lábio superior num esgar constante. O outro mascava tabaco, cuspindo no estrado de madeira com uma indiferença abismal ao facto de que, nos próximos cinco minutos, a vida de uma de nós iria acabar.

A urna de ferro negro repousava sobre uma mesa capenga. Lá dentro, trezentos pedaços de papel. Trezentas sentenças de morte adiadas.

— Povo de Oakhaven! — A voz do Prefeito esganiçou-se, tentando sobrepor-se ao uivo do vento. Ele não parecia solene. Parecia um homem que queria despachar um trabalho burocrático chato para poder voltar para os seus ovos com bacon perto da lareira. — O Tratado do Inverno convoca-nos. A paz tem um preço. A coroa exige o sacrifício, para que a besta do Norte permaneça na sua montanha e o nosso vale prospere!

Prosperar. Que piada de mau gosto. Nós morríamos de tuberculose aos quarenta anos, trabalhávamos dezasseis horas por dia nas serranhias e comíamos nabos cozidos seis dias por semana. Se aquilo era prosperar, eu adoraria saber o que o Prefeito considerava a miséria.

O carrasco do Norte. O Rei Alpha.

Não havia uma criança em Oakhaven que não conhecesse as lendas, que não tivesse tido pesadelos com olhos dourados na escuridão. Diziam que as matilhas do Norte não eram feitas de homens que se transformavam em lobos, mas de demónios que de vez em quando vestiam pele humana. Diziam que o Rei Supremo matava as suas noivas por desporto. Catorze mulheres tinham feito aquela viagem antes de mim. Catorze nomes riscados dos registos paroquiais. Nenhuma carta enviada, nenhum corpo devolvido. Apenas o silêncio triturador da montanha.

O Prefeito pigarreou, tirou a luva direita — um anel de sinete de ouro reluziu obscenamente na luz morta da manhã — e enfiou a mão na urna de ferro.

O som da mão dele a revolver os papéis foi a coisa mais alta do mundo. Um atrito seco. Um farfalhar de sentenças.

Cora apertou a minha mão até os ossos dos meus dedos estalarem. Eu prendi a respiração. O meu coração batia tão depressa, com tanta violência contra as costelas, que eu jurei que o som abafado preenchia a praça.

O Prefeito puxou um pequeno quadrado de papel dobrado.

Ele semicerrou os olhos. O vento bateu na ponta do pergaminho. Ele abriu a boca.

— Maeve.

O som daquela única palavra não entrou pelos meus ouvidos. Bateu-me diretamente no esterno, como um coice de cavalo.

O mundo parou de girar. A gravidade desapareceu.

A minha primeira reação não foi medo; foi uma rejeição absoluta, lógica e biológica. Não. Está errado. Eu tenho roupa para remendar à tarde. Eu tenho meia carcaça de pão no armário. Não sou eu.

Mas a bile quente e ácida subiu-me pela garganta, queimando-me o esófago. Engoli em seco, e o gosto a cobre inundou as minhas papilas gustativas. Eu tinha trincado o interior da bochecha com tanta força que rasguei a carne.

Um som indescritível varreu a praça. Trezentas mulheres soltaram a respiração ao mesmo tempo. Foi um longo e húmido suspiro de alívio. O alívio cobarde, instintivo e nojento de quem percebe que a forca era para o pescoço ao lado.

E então, o espaço à minha volta mudou.

Os dedos de Cora afrouxaram. Senti a mão dela escorregar da minha, húmida de suor frio. Eu virei o rosto, devagar, o pescoço estalando de tensão.

Cora não olhava para mim. Os olhos dela estavam fixos no chão, os ombros encolhidos, e ela deu um passo para trás. E depois outro. E outro.

A rapariga que dividiu o meu cobertor, que me viu chorar no funeral da minha mãe, estava a recuar como se eu fosse um cão sarnento portador da peste negra. O círculo abriu-se. As pessoas foram-se afastando, empurrando-se umas às outras, alargando o buraco no meio da multidão até eu ficar no centro de um palco vazio, isolada na minha própria ilha de condenação.

Ninguém me ia salvar. Ninguém ia protestar. O Tratado exigia uma garota, e eles iam embrulhar-me e despachar-me sem pensar duas vezes.

Não caias.

A voz na minha cabeça não tinha nada de grandioso. Era crua, gutural. Se tu caíres de joelhos, eles vão arrastar-te pela lama. Vais sangrar, vais rasgar a pele. Vais chegar ao matadouro como um farrapo. Levanta a cabeça.

Obriguei a minha perna direita a mover-se. Foi como tentar arrastar o tronco de um pinheiro recém-cortado. A sola da bota derrapou no gelo negro, mas travei a rótula. Dei outro passo. Os meus joelhos queriam ceder, a náusea empurrava-me para baixo, mas eu foquei os olhos nos degraus de madeira do palanque. Não olhei para o Prefeito, não olhei para Cora. Olhei para a jaula.

Estacionada na orla da praça, puxada por dois cavalos de tração imensos, a carruagem era, na verdade, uma caixa de ferro grosso presa a um eixo de rodas reforçadas. As barras enferrujadas cheiravam a sangue antigo e desespero.

Cheguei à base do estrado. Os dois mercenários desceram os degraus e flanquearam-me. O mais velho, o da cicatriz, cheirava a tabaco forte e suor rançoso.

Ele não disse "sinto muito" ou "pobre rapariga". Não havia compaixão num homem daqueles; havia apenas um serviço contratado. Ele agarrou o meu braço acima do cotovelo, os dedos grossos afundando no meu músculo, e empurrou-me em direção à carruagem.

O puxão foi tão brusco que quase perdi o equilíbrio. A humilhação de ser manuseada como um porco a caminho do gancho acendeu uma faísca raivosa no meio do meu pânico estúpido. Puxei o braço, arrancando-o do aperto dele com uma violência inesperada.

O mercenário parou. A mão dele desceu instintivamente para o pomo da espada curta presa ao cinto, os olhos cínicos estreitando-se.

— Não tenta brincadeira nenhuma comigo, garota — avisou ele, a voz ríspida. — Posso não ter ordem para te matar agora, mas posso muito bem quebrar os teus joelhos e te jogar lá dentro do mesmo jeito. O Rei Alpha não vai reclamar se a oferenda chegar toda arrebentada.

Parei em frente à porta aberta da jaula. O vento uivou, atravessando as grades. O chão da carruagem estava forrado com palha podre, molhada da neve que entrava sem cerimónia. Olhei para baixo, para a minha própria roupa. O algodão ralo não parava sequer a brisa de outono, quanto mais a tempestade da encosta norte.

— O Tratado — a minha voz saiu fraca, um sopro arranhado. Tive de engolir seco para a fazer funcionar. — O Tratado pede um sacrifício vivo, não é?

O mercenário da cicatriz franziu a testa, cuspindo um resto de tabaco na neve, a poucos centímetros da minha bota.

— E daí? O que você quer com isso agora?

— Quero dizer que... — apontei para a blusa fina e para os meus lábios que, eu sabia, já deviam estar roxos. — Se eu entrar naquela caixa de ferro vestida desse jeito, o frio lá na montanha vai me matar antes da gente chegar na encruzilhada. Vocês não vão entregar um sacrifício pro Norte. Vão entregar um corpo congelado. E aí sim, vocês vão quebrar o Tratado.

O guarda deu uma risada curta, mas parou para me analisar. Ele olhou para o meu tremor, para o jeito que eu estava tentando não bater os dentes. Ele viu que eu não estava mentindo.

Ele soltou um palavrão baixo, virou-se para o cavalo e puxou um rolo de lã pesada que estava amarrado atrás da sela.

Era uma capa militar grossa, forrada com pele de ovelha. Pesada, suja, mas cheia de calor. Ele jogou em cima de mim sem qualquer cerimónia.

— Veste essa droga e entra logo — resmungou ele. — Minha paciência e minha caridade acabaram por hoje.

Não agradeci. Só me enfiei no tecido, sentindo o calor imediato abraçar meus braços. Subi o degrau, senti a madeira podre ceder, e entrei naquela caixa de metal.

A porta bateu com um estrondo. A chave girou.

A carruagem arrancou, dando um tranco que quase me jogou contra o ferro. A aldeia de Oakhaven foi sumindo na neblina, e eu me encolhi num canto, sentindo o cheiro rançoso da capa.

A primeira lágrima desceu, quente e rápida, congelando na minha pele. Não era choro de heroína. Era medo puro. Eu estava sozinha, indo em direção a um monstro que matava noivas por esporte.

Mas enquanto o frio batia lá fora, eu fechei as mãos em punho dentro dos bolsos daquela capa. Eu estava morrendo de medo, sim. Mas o Rei Alpha que se cuide. Eu não ia facilitar o trabalho dele. Se ele queria me caçar, que viesse. Eu não ia morrer de joelhos.

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