Marcello
Eu estava analisando alguns relatórios quando ouvi batidas suaves na porta do escritório.
Autorizei a entrada sem erguer os olhos dos documentos e continuei revisando os números da próxima exportação. Durante alguns segundos ouvi apenas o som da porta se abrindo e passos cuidadosos atravessando o cômodo.
Foi quando levantei a cabeça.
E imediatamente esqueci o que estava lendo.
A jovem parada diante da minha mesa era Cecília.
Mas também não era.
Por um instante absurdamente breve, meu cérebro se recusou a aceitar a realidade.
O vestido azul-claro.
Os cabelos dourados caindo sobre os ombros.
Os olhos azuis iluminados pela luz da janela.
A delicadeza dos traços.
Tudo aquilo despertou uma memória tão antiga quanto dolorosa.
Meu peito se contraiu.
Porque eu conhecia aquele vestido.
Conhecia cada detalhe dele.
Lembrava do dia em que Larissa o usou pela última vez.
Lembrava do perfume que ela gostava de usar durante o verão.
Lembrava do som da sua risada atravessando os vinhedos.
Lembrava de coisas que passei anos tentando esquecer.
Não era Larissa.
Eu sabia disso.
Mas a semelhança foi suficiente para abrir uma ferida que nunca cicatrizou completamente.
— Onde conseguiu esse vestido?
A pergunta saiu mais dura do que eu pretendia.
Vi a insegurança surgir imediatamente em seus olhos.
Cecília levou uma das mãos à saia florida, como se apenas naquele momento percebesse que havia algo errado.
— Minhas roupas ficaram molhadas de lama. Sua mãe me emprestou algumas peças enquanto as minhas são lavadas.
A resposta era simples.
Perfeitamente razoável.
Mas eu continuava encarando o vestido.
Continuava vendo lembranças onde deveria estar vendo apenas uma garota assustada.
— Eu sinto muito — acrescentou ela, visivelmente desconfortável. — Não sabia que havia algum problema.
Foi então que finalmente percebi suas mãos trêmulas.
A forma como evitava meu olhar.
As lágrimas que começavam a se acumular em seus olhos.
Droga.
Ela estava interpretando tudo errado.
Ou talvez eu tivesse dado motivos para isso.
— Cecília...
Mas já era tarde.
Ela balançou a cabeça rapidamente, como alguém acostumada a pedir desculpas antes mesmo de entender o motivo.
— Eu realmente não queria causar nenhum transtorno.
Antes que eu pudesse corrigir a situação, ela saiu do escritório.
A porta fechou-se atrás dela.
Fiquei imóvel durante alguns segundos.
O silêncio pareceu maior do que deveria.
Passei a mão pelo rosto e expirei lentamente.
A culpa veio quase imediatamente.
Não porque ela estivesse usando o vestido.
Não porque minha mãe o tivesse guardado.
Mas porque a expressão que vi no rosto daquela garota era a mesma de alguém que passou a vida inteira tentando não ocupar espaço demais.
E eu acabara de confirmar todos os seus medos.
Apoiei os cotovelos sobre a mesa e fechei os olhos.
— Mãe.
Não precisei elevar a voz.
Poucos instantes depois, Clarice surgiu na porta carregando aquela serenidade irritante que parecia aumentar sempre que eu estava prestes a perder a paciência.
O sorriso discreto que encontrou em seus lábios me fez desconfiar imediatamente de que ela já sabia exatamente o motivo do chamado.
— Imagino que tenha visto Cecília.
— Vi.
Minha mãe acomodou-se na poltrona diante da mesa.
— E imagino que também tenha reconhecido o vestido.
— O que estava pensando?
Ela sustentou meu olhar sem qualquer sinal de arrependimento.
— Estava pensando que uma jovem não deveria passar o primeiro dia de trabalho usando roupas molhadas.
A resposta me desarmou mais do que eu gostaria.
— Aquele vestido era da Larissa.
— Eu sei.
Sua voz suavizou-se.
— Talvez melhor do que ninguém.
O peso daquela verdade pairou entre nós durante alguns segundos.
Minha mãe havia amado Larissa como uma filha.
Ainda amava.
Todos naquela casa amavam.
— Você mesmo me pediu para me desfazer das roupas dela anos atrás — continuou. — Eu nunca consegui fazer isso. Guardei algumas caixas, esperando encontrar o momento certo para doá-las.
Meu olhar desviou para a janela.
Os vinhedos se espalhavam pelas colinas sob a luz da tarde.
Durante anos eu havia evitado pensar naqueles armários.
Evitar era mais fácil.
Sempre foi.
— Hoje encontrei uma menina que chegou aqui carregando tudo o que possui dentro de uma única mala.
A frase me fez voltar a atenção para ela.
— Quando as roupas ficaram cobertas de lama, vi o desespero no rosto dela. Não porque fossem roupas especiais. Mas porque eram as únicas que ela tinha.
Algo apertou meu peito.
Porque, pela primeira vez, percebi que não sabia absolutamente nada sobre Cecília. Sabia apenas que precisava de emprego e que apareceu na minha porta poucas horas atrás. Nada além disso.
— Quantas roupas ela trouxe?
— Quatro mudas. E isso é aparentemente tudo que ela tem.
O número ecoou na minha mente.
Quatro.
Uma propriedade com centenas de funcionários.
Uma empresa que faturava milhões.
E uma garota chegando com apenas quatro mudas de roupa.
Fechei os olhos por um instante.
— Pode doar tudo para ela.
Minha mãe sorriu.
Não de forma triunfante.
Apenas satisfeita.
— Tem certeza?
— Não.
A resposta arrancou uma risada dela.
— Pelo menos continua honesto.
Observei novamente a porta pela qual Cecília havia saído.
Ainda conseguia lembrar da expressão magoada em seu rosto.
Da forma como seus olhos se encheram de lágrimas.
E da semelhança desconfortável que me atingira como um soco.
Talvez eu realmente me arrependesse de ver aquelas roupas sendo usadas outra vez.
Talvez não.
Mas uma coisa era certa.
Eu precisava encontrá-la.
E precisava começar com um pedido de desculpas.