Mundo ficciónIniciar sesiónO trajeto até a mansão dos avós maternos foi feito em um silêncio quase solene. Matteo e Merliah, que costumavam transformar o banco de trás do carro em uma verdadeira pista de testes para seus brinquedos e cantorias, passavam a maior parte do tempo olhando fixamente pela janela, imersos em seus próprios pensamentos infantis.
Eu os observava pelo retrovisor interno, sentindo o peso daquela expectativa silenciosa que Marcello havia me alertado na biblioteca. Quando o imponente portão de ferro fundido se abriu, revelando os jardins perfeitamente desenhados da propriedade dos Gallardini, uma lufada de ar fresco pareceu invadir o veículo. O carro seguiu pela longa alameda de cascalho até parar suavemente diante da fachada imensa e clássica da mansão. E ela já estava lá. Postada exatamente no topo da escadaria de mármore, a Sra. Leonor aguardava. Vestia um conjunto elegante de alfaiataria em tons claros, os cabelos perfeitamente alinhados, mas a postura rígida entregava a mesma ansiedade que eu vinha notando nos gêmeos. Assim que o motorista estacionou e o motor silenciou, virei-me para o banco de trás. — Chegamos, pessoal — anunciei, com a voz mais calorosa que consegui reunir. Nem precisei terminar de falar. Num piscar de olhos, libertei os cintos de segurança de ambos. Matteo e Merliah abriram as portas do carro praticamente ao mesmo tempo e saíram em disparada, as solas dos sapatos estalando contra o cascalho fino do chão. — Vovó! — os dois gritaram em uníssono, as vozes ecoando pelo jardim imenso enquanto corriam de braços abertos em direção à escadaria. Sorri diante da cena, sentindo um alívio temporário ao ver a alegria genuína nos rostos deles. Voltei-me para o interior do carro para recolher o que havia ficado para trás. Peguei as duas mochilas pequenas dos gêmeos, os casacos que Marcello havia insistido para que levassem e, por fim, a minha própria bolsa de ombro. Ajeitei tudo entre os braços, me preparando para descer. Antes que eu pudesse fechar a porta e contornar o veículo, o Sr. Josué, o motorista da família Moretti que nos acompanhava sempre que precisávamos, pigarreou discretamente. Ele havia descido do carro e contornado a traseira, postando-se bem ao meu lado. — Com licença, Cecília — ele disse, com aquele tom sempre respeitoso e focado. Olhei para ele, um pouco confusa com a interrupção. Foi então que vi que ele estendia a mão em minha direção, segurando um aparelho de celular reluzente. Era um modelo de última geração, extremamente fino, com a tela preta e espelhada refletindo a luz da manhã. Parecia o tipo de tecnologia que eu só via em vitrines de shoppings de luxo ou nas mãos do próprio Marcello. — O Sr. Moretti pediu para lhe entregar isto — explicou o Sr. Josué, estendendo o aparelho um pouco mais. — É para o seu uso pessoal e profissional enquanto estiver com as crianças. Recuei um passo, quase assustada, apertando as mochilas contra o peito. — Ah, não, Sr. Josué... Obrigada, mas eu não posso aceitar — gaguejei, sentindo minhas bochechas esquentarem. — E, para ser bem sincera, eu nem saberia como mexer em uma coisa dessas, nunca tivemos acesso no orfanato. E isso aí parece que vai quebrar só de olhar. O motorista soltou uma risada baixa e acolhedora, demonstrando a paciência de quem já esperava por aquela reação da minha parte. — Não se preocupe com isso agora. O aparelho já está totalmente configurado e com o chip da empresa. Veja bem — ele tocou suavemente na lateral do aparelho, fazendo a tela se iluminar com um brilho nítido. Na tela principal, havia apenas alguns ícones grandes e destacados. — O Sr. Moretti deixou tudo simplificado. Este botão vermelho aqui liga direto para a central de segurança da casa, e este outro, com a foto dele, faz a chamada direta para o celular pessoal dele. Se acontecer qualquer emergência com os gêmeos aqui, é só tocar na tela. Olhei para o visor, engolindo em seco. A responsabilidade parecia ter ganhado um peso físico em minhas mãos quando finalmente peguei o aparelho. — Entendi... — sussurrei, ainda um pouco hesitante. — Guarde na bolsa — o Sr. Josué me encorajou com um aceno de cabeça. — No caminho de volta para casa, eu me sento com você e te ensino o passo a passo de como funciona o restante. É mais fácil do que parece, prometo. — Está bem. Muito obrigada, Sr. Josué — agradeci, deslizando o dispositivo moderno para dentro do bolso interno da minha bolsa, fechando o zíper com cuidado para garantir que estaria seguro. Ajeitei as mochilas nos ombros e finalmente dei a volta por trás do carro, direcionando meus passos para a entrada da mansão Gallardini. À distância, a cena era adorável, os gêmeos estavam agarrados à cintura da avó, que se ajoelhou no primeiro degrau para os receber em um abraço apertado, enchendo eles com beijos e palavras de carinho. A Sra. Leonor parecia estar em seu próprio mundo de felicidade, rindo enquanto Matteo falava algo gesticulando com as mãos. No entanto, conforme fui me aproximando, o som dos meus passos no cascalho chamou a atenção da mulher. Ela ergueu os olhos da direção dos netos e os fixou em mim. O que aconteceu em seguida foi como se o tempo tivesse congelado de forma abrupta e violenta. O sorriso caloroso que iluminava o rosto da Sra. Leonor desapareceu instantaneamente, apagado por uma expressão de puro pavor. A cor sumiu de suas bochechas em segundos, deixando-a com uma palidez cadavérica. Seus olhos se arregalaram de uma maneira quase desumana, fixos nos meus traços. Antes que eu pudesse compreender o que estava acontecendo, notei que as mãos dela, que antes acariciavam os ombros de Merliah, começaram a tremer violentamente. Seus lábios se abriram, mas nenhum som saiu de início, apenas uma respiração arfante e descompassada. Ela cambaleou levemente para trás, apoiando-se no corrimão de mármore para não cair. — Vovó? O que foi? — a voz de Merliah subiu, carregada de um pânico repentino ao notar a mudança drástica na avó. — Senhorita Cecília! A vovó está passando mal! — Matteo gritou, olhando para trás em minha direção com os olhos arregalados de medo. O instinto de babá e protetora falou mais alto que qualquer confusão mental. Deixei as mochilas e os casacos caírem no chão sem a menor cerimônia e comecei a correr pela alameda, subindo os primeiros degraus da escadaria em um salto só. — Sra. Leonor! — chamei, aproximando-me e estendendo as mãos para segurar os braços trêmulos da mulher, tentando dar estabilidade ao seu corpo que parecia prestes a desabar. — A senhora está me ouvindo? Está sentindo alguma dor? Precisa de um copo de água ou de algum remédio? A mulher não parecia registrar nenhuma das minhas perguntas médicas ou o desespero dos próprios netos que puxavam a barra de sua saia. Seus olhos continuavam cravados no meu rosto, examinando cada linha, cada detalhe, com uma intensidade que beirava a loucura. Suas mãos trêmulas subiram devagar, tocando meus braços com as pontas dos dedos frios, como se quisesse ter certeza de que eu era real, de que eu era feita de carne e osso. — L-Larissa?... — a voz dela saiu em um fio de sussurro estrangulado, uma mistura de dor profunda, descrença e uma esperança assustadora. — Minha filha... É você? Você voltou para mim? Larissa... A menção daquele nome agiu como um balde de água gelada sobre a minha cabeça. Senti um arrepio incômodo subir pela minha espinha. Olhei para os gêmeos, que agora nos encaravam em um silêncio chocado e confuso. Recuei um passo instintivamente, desfazendo o contato físico, embora mantendo os braços semiabertos caso ela perdesse o equilíbrio. — Não... Não, Sra. Leonor — respondi com suavidade, tentando manter a voz o mais calma e firme possível para não piorar o estado de choque dela, embora meu próprio coração estivesse martelando contra o peito. — Acho que a senhora está um pouco confusa. O meu nome é Cecília. Eu sou a nova babá do Matteo e da Merliah.






