A Carta

Cecília

A viagem de volta foi silenciosa, embalada pelo som constante dos pneus no asfalto e pelo cansaço visível que o dia cheio havia deixado em todos nós. Quando o Sr. Josué finalmente estacionou o carro em frente à casa principal da fazenda, a noite já havia caído por completo, cobrindo os campos com um manto escuro e fresco.

Olhei para o banco de trás e vi os gêmeos completamente entregues ao sono.

Matteo estava com a cabeça encostada no ombro de Merliah, e ela, por sua vez, abraçava o próprio casaco como se fosse um bicho de pelúcia.

Com a ajuda silenciosa e eficiente de Josué, conseguimos tirá-los do carro sem que acordassem de verdade.

Peguei os casacos e as mochilas, além da minha bolsa onde a carta da Sra. Leonor queimava como brasa, e guiei os passos trôpegos e semi adormecidos dos dois escada acima.

Colocá-los para dormir foi uma tarefa rápida e afetuosa.

No quarto deles, troquei as roupas de sair por pijamas confortáveis, quase sem que eles abrissem os olhos.

Matteo apenas resmungou algo sobre o bolo da Rosa antes de capotar de lado, puxando o edredom até o queixo. Merliah abriu os olhos por um breve segundo quando a deitei, segurando a minha mão com os dedos pequenos.

— Boa noite, Cecília... — ela sussurrou, a voz arrastada.

— Boa noite, meu anjo. Durma bem — respondi, dando-lhe um beijo na testa e ajeitando os lençóis.

Fiquei ali por um minuto, observando o quarto na penumbra, garantindo que os dois estavam confortáveis. Senti aquele mesmo calor no peito da noite anterior, apesar de toda a exaustão, cuidar deles estava se tornando a parte mais natural da minha vida.

Ajeitei o cabelo em um coque frouxo, peguei minha bolsa e saí do quarto, encostando a porta com cuidado.

Caminhei pelo corredor do segundo andar, o silêncio da casa imensa sendo quebrado apenas pelo som sutil do vento nas árvores do lado de fora.

Abri o zíper da bolsa e retirei o envelope de papel texturizado. Meus dedos tocaram o selo. O mistério que cercava aquela família e as perguntas excêntricas da Sra. Leonor ainda ecoavam na minha mente, mas eu precisava cumprir a minha palavra.

Desci as escadas devagar.

Uma luz suave escapava por baixo da porta da biblioteca. Eu sabia que ele estaria lá.

Marcello raramente se desligava do trabalho, especialmente nos domingos de visita, dias em que ele parecia se fechar ainda mais em seu próprio mundo de responsabilidades e memórias.

Aproximei-me e bati de leve na madeira escura.

— Entre — a voz grave e comedida de Marcello ecoou de dentro do cômodo.

Empurrei a porta.

A biblioteca estava iluminada apenas pela luminária de mesa de luz amarelada, que criava sombras longas pelas estantes de livros.

Marcello estava sentado atrás da imensa escrivaninha de mogno, com os óculos de leitura pousados na ponta do nariz e os olhos fixos em alguns relatórios. Ele ergueu o olhar quando entrei, e imediatamente retirou os óculos, recostando-se na cadeira de couro.

— Cecília. Já voltaram? Como foram as coisas por lá? — ele perguntou, examinando meu rosto em busca de qualquer sinal de problemas.

— Sim, Sr. Moretti. Chegamos há pouco. As crianças já estão de banho tomado e dormindo, estavam exaustas — respondi, dando alguns passos para dentro da sala e parando diante da mesa. — O dia correu bem. Eles almoçaram direito, comeram apenas um pedaço pequeno de bolo antes, como o senhor recomendou, e se divertiram bastante no jardim.

Marcello assentiu, visivelmente aliviado com o relatório tranquilo. Uma expressão de sutil gratidão cruzou suas feições severas.

— Excelente. Obrigado, Cecília. Eu sabia que podia contar com a sua firmeza.

— De nada, senhor — continuei, hesitando por uma fração de segundo antes de levar a mão à frente do corpo. — Mas... antes de eu subir para o meu quarto, a Sra. Leonor me pediu para lhe entregar isto.

Estendi o braço, segurando o envelope texturizado.

O olhar de Marcello desceu para a minha mão e, no mesmo instante em que reconheceu o papel e a caligrafia na frente do envelope, sua postura mudou drasticamente. O alívio de segundos atrás desapareceu, substituído por uma rigidez quase palpável. Seus olhos se estreitaram e os cantinhos de sua boca se contraíram em uma linha dura.

Ele esticou a mão e pegou o envelope dos meus dedos. O contato foi breve, mas pude sentir a tensão que emanava dele. Marcello olhou para o papel lacrado por longos e silenciosos segundos, como se estivesse decidindo se deveria abri-lo ou jogá-lo diretamente na lareira.

— Ela disse algo ao lhe entregar isso? — ele perguntou, a voz subindo um tom mais frio, os olhos fixos na carta, sem olhar para mim.

Pensei rapidamente. Lembrei-me do choque da Sra. Leonor ao me ver, de suas lágrimas, e da pergunta estranha e insistente sobre o hospital onde eu tinha nascido e o passado da minha mãe.

No entanto, algo dentro de mim intuiu que misturar aquelas perguntas excêntricas da idosa com a tensão que Marcello já demonstrava só serviria para causar um problema desnecessário.

Eu ainda não entendia o que estava acontecendo, e preferi manter o profissionalismo.

— Ela apenas disse que era muito importante e pediu para que eu entregasse diretamente nas suas mãos, senhor — respondi, mantendo a voz o mais neutra e calma possível.

Marcello finalmente ergueu os olhos para mim. Seu olhar era impenetrável, uma máscara perfeita que escondia qualquer turbulência interna, mas o vinco entre suas sobrancelhas estava mais profundo do que nunca.

— Muito bem. Obrigado, Cecília. Pode ir descansar. Você teve um longo dia.

— Boa noite, Sr. Moretti. Com licença — pedi, dando um passo para trás.

— Boa noite Cecília.

Virei-me e caminhei em direção à saída. Antes de fechar a porta da biblioteca atrás de mim, olhei de relance por cima do ombro. Marcello já havia pego um abridor de cartas de metal sobre a mesa. Ele deslizava a lâmina pelo topo do envelope com uma precisão cirúrgica, os olhos fixos no papel, completamente alheio ao resto do mundo.

Fechei a porta em silêncio, sentindo o mistério daquela família pairar sobre os meus ombros enquanto subia os degraus em direção ao meu quarto.

Eu não sabia o que estava escrito ali, mas sabia que, de alguma forma, o passado daquela casa estava batendo à porta com cada vez mais força.

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