Apenas Parecidas

Cecília

O silêncio na sala de estar após a saída das crianças era quase palpável.

Eu continuava de pé, no centro do tapete luxuoso, segurando a alça da minha bolsa como se ela fosse o meu único ponto de ancoragem naquele lugar que parecia saído de uma novela.

A Sra. Leonor me olhavacom uma mistura de melancolia e espanto, enquanto o Sr. Gallardini mantinha as mãos nos bolsos da calça, a testa franzida em um vinco profundo.

— Por favor, Cecília... sente-se — a Sra. Leonor pediu, sua voz agora um pouco mais firme, apontando para a poltrona de veludo à sua frente.

Caminhei até o móvel e me sentei na ponta do estofado, mantendo a postura tensa.

Eu não conseguia mais fingir demência ou normalidade diante de todo aquele mistério. O nó no meu estômago estava prestes a virar um buraco de ansiedade.

— Sra. Leonor, Sr. Gallardini... por favor, me desculpem, mas eu não estou entendendo nada — desabafei, olhando de um para o outro, sentindo minhas bochechas arderem. — Eu fiz alguma coisa errada? Se eu desrespeitei alguma regra da casa ou se a minha presença incomoda de alguma forma, eu posso...

— Não, não, minha jovem. Fique tranquila. — o Sr. Gallardini interrompeu prontamente, dando um passo à frente e estendendo a mão em um gesto pacificador.

Seu tom de voz era surpreendentemente brando, bem diferente da crueza de minutos atrás.

— Você não fez absolutamente nada de errado. Peço desculpas pela nossa reação na recepção. O problema não é você. É que fomos pegos de surpresa.

Respirei um pouco mais aliviada, soltando o ar que nem percebia que estava prendendo. Mas a dúvida ainda pairava no ar.

A Sra. Leonor inclinou-se um pouco para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Seus olhos esquadrinhavam o meu rosto, mas agora não havia pânico, apenas uma curiosidade genuína e dolorosa.

— Diga-me uma coisa, Cecília... — ela começou, a voz mansa. — De onde você vem? Como chegou até a fazenda do Marcello e acabou virando a babá dos meus netos?

Ajeitei-me na poltrona, achando o rumo daquela conversa um tanto peculiar, mas respondi com sinceridade. Minha história de vida não era nenhum segredo, embora não fosse algo que eu saísse espalhando por aí.

— Bom... eu fui criada no orfanato da cidade vizinha desde os meus cinco anos de idade — expliquei, mantendo as mãos pousadas sobre o colo. — Fui deixada lá pelo meu pai assim que mamãe faleceu devido a um câncer. Assim que completei a maioridade, precisei sair de lá e arrumar um rumo para a minha vida. Eu estava a caminho do convento quando vi o anúncio no sobre a vaga de babá na fazenda do Sr. Moretti. Resolvi tentar a sorte, mesmo sem ter nenhuma experiência, só a vivência cuidando das crianças menores no orfanato. E, bem... pelo que o Sr. Moretti me contou depois, acho que fui a única que conseguiu resistir aos gêmeos por mais de duas semanas — terminei, deixando escapar um sorriso leve no final, tentando quebrar o gelo da sala.

O Sr. Gallardini olhou para mim com compaixão.

Eu aprendi a reconhecer esse olhar cada vez que alguma irmã novata me perguntava como cheguei ao orfanato.

— Cecília... você por acaso já viu alguma foto da nossa filha? Da Larissa? — ele perguntou, direto ao ponto.

Parei por um segundo para puxar pela memória.

Desde que eu havia entrado na fazenda dos Moretti, eu tinha passeado por quase todos os cômodos. Eu arrumava o quarto dos gêmeos, passava pela sala principal, pela biblioteca, pelos corredores... E, parando para pensar agora, o fato me atingiu como um estalo, estranhamente, eu nunca havia visto uma única foto de Larissa pela casa da fazenda. Nem mesmo uma imagem pequena nos porta-retratos antigos. Marcello parecia ter guardado ou apagado qualquer registro visual da falecida esposa daquele ambiente, talvez para evitar o sofrimento dos filhos ou o dele próprio.

— Não... — respondi, balançando a cabeça devagar. — Para falar a verdade, eu nunca vi nenhuma foto dela.

A Sra. Leonor soltou um suspiro pesado, um som carregado de uma tristeza antiga.

Com as mãos ainda um pouco trêmulas, ela esticou o braço até a mesinha de canto ao seu lado e pegou um porta-retrato de prata trabalhada que estava virado para o sofá. Ela o estendeu na minha direção.

— Essa é nossa filha.

Levantei-me da poltrona e dei dois passos para pegar o objeto de suas mãos. Virei a moldura de prata para o meu campo de visão e, no mesmo instante, o meu coração deu um solavanco no peito. O choque me emudeceu.

A mulher na foto estava sorrindo no meio de um campo florido. À primeira vista, o impacto era avassalador. Nós tínhamos os mesmos cabelos loiros, no mesmo tom dourado aberto, e os mesmos olhos azuis intensos, aqueles olhos que os gêmeos haviam herdado tão claramente. Por um segundo confuso, olhando de relance, parecia que eu estava encarando o meu próprio reflexo em um espelho antigo. Entendi perfeitamente, naquele milésimo de segundo, o porquê de a Sra. Leonor ter quase desmaiado ao me ver na porta de sua casa.

No entanto, conforme os segundos passavam e o meu olhar de examinadora se aprofundava na imagem, o susto inicial foi dando lugar à percepção dos detalhes. A semelhança era real, sim, mas parava exatamente ali, nas cores do cabelo e dos olhos.

Afastei um pouco o porta-retrato para me comparar mentalmente com a mulher da foto. Larissa tinha traços extremamente delicados, um rosto levemente redondo e bochechas suaves. O corpo dela na imagem exibia curvas bem distribuídas, a pele impecável de quem sempre teve uma alimentação balanceada, cuidados estéticos de ponta e uma vida confortável, livre de grandes esforços físicos. Seus cabelos loiros eram sedosos, brilhantes e cortados simetricamente na altura das costas.

Eu, por outro lado, era o completo oposto daquela opulência. Eu era bem magra, quase esguia demais, reflexo dos anos de comida regrada do orfanato. Meus cabelos loiros eram longos, passando bem abaixo da cintura, mas tinham um aspecto levemente ressecado e pontas rebeldes devido à total falta de produtos caros ou cuidados profissionais. E, ao contrário da delicadeza burguesa de Larissa, eu possuía uma força física considerável escondida sob os meus braços finos, moldada por anos carregando baldes, esfregando o chão e fazendo os serviços braçais e pesados que a rotina do orfanato exigia de nós. Nossos formatos de nariz e o desenho das sobrancelhas também tinham nuances que nos tornavam mulheres bem diferentes quando observadas de perto.

Ainda assim, a coincidência de tons era assustadora.

Engoli o seco, sentindo o peso daquela revelação. Olhei para o casal de idosos que me observava em um silêncio expectante, esperando pela minha reação. Forcei o melhor sorriso que consegui moldar nos lábios, tentando trazer um pouco de leveza para aquele ambiente carregado de fantasmas.

— Ela... ela era linda — disse com sinceridade, devolvendo o porta-retrato com cuidado para a Sra. Leonor. — Eu realmente sinto muito pela perda de vocês. Consigo entender o susto agora. A semelhança realmente impressiona de longe.

A Sra. Leonor pegou o retrato de volta, acariciando o vidro com o polegar, os olhos marejados.

— Sim... de longe, você é o retrato vivo dela, Cecília — ela sussurrou. — Mas o seu sorriso e o seu jeito de falar são de fato bem diferentes. Obrigada por entender.

O Sr. Gallardini assentiu, parecendo finalmente relaxar os ombros.

O mistério havia sido desfeito, mas a sensação de que eu acabara de abrir uma porta para o passado daquela família continuava vibrando dentro de mim.

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