O Peso do Envelope

Cecília

Quando entramos na cozinha imensa, o cheiro doce de cacau ainda pairava no ar.

Matteo estava com os cotovelos apoiados na mesa de granito claro, olhando fixamente para a funcionária Rosa com os olhos pidões mais dramáticos que conseguia fazer.

— Só mais um pedacinho, Rosa, por favor! — ele implorava, apontando para o prato onde restavam apenas algumas migalhas do bolo de chocolate. — Um pedaço bem pequenininho, do tamanho do meu dedo!

— Nada de mais bolo por agora, mocinho — intervim, adentrando o recinto com os passos firmes.

Matteo sobressaltou-se na cadeira, virando-se para mim com um bico imenso, pronto para abrir o berreiro e testar os meus limites, como sempre fazia quando contrariado.

— Ah, Cecília! Mas o bolo da Rosa é o melhor do mundo e eu ainda estou com fome! — ele tentou retrucar, cruzando os braços e inflando as bochechas.

Antes que eu precisasse usar meu tom de voz de babá imbatível, Merliah, que limpava o canto da boca com um guardanapo de papel, olhou para o irmão e balançou a cabeça com superioridade.

— Não adianta chorar, Matteo. Você ouviu a Cecília lá na sala, foi o combinado. Se comer mais bolo agora, não vai aguentar o almoço e o papai vai ficar sabendo — ela o relembrou, com uma sensatez que quase me fez sorrir.

Matteo soltou um suspiro bufado, derrotado pela lógica da própria irmã gêmea.

Ele se escorregou pela cadeira, fingindo uma exaustão extrema. Merliah ignorou o drama do irmão e voltou seus olhinhos brilhantes para mim.

— Cecília, já que a gente não pode comer mais, podemos ir brincar lá fora no jardim?

— Por mim, tudo bem, meu amor. Mas pergunte aos seus avós primeiro, está bem? — respondi, apontando discretamente para os avós que haviam acabado de entrar na cozinha logo atrás de mim.

Os dois se viraram imediatamente para o Sr. Gallardini e a Sra. Leonor. Diante do pedido em coro dos netos, o semblante do casal se iluminou.

— Claro que podem, meus lindos — o Sr. Gallardini assentiu, com um sorriso caloroso. — Corram lá, mas fiquem perto do gramado principal.

Com a autorização concedida, os gêmeos saíram em disparada pela porta de vidro que dava para os fundos da mansão.

Dei um sorriso de canto, olhei para os donos da casa e fiz uma leve reverência com a cabeça.

— Com licença, senhores. Vou atrás deles para não os perder de vista — pedi, já dando os primeiros passos.

Para a minha surpresa, a Sra. Leonor deu um passo à frente.

— Eu vou com você, Cecília. O dia está bonito, faz bem pegar um pouco de ar fresco.

Caminhamos juntas até o imenso jardim dos Gallardini.

O espaço era um verdadeiro labirinto de roseiras bem cuidadas e árvores ornamentais.

À distância, Matteo e Merliah já haviam encontrado uma bola de plástico e começavam a correr um atrás do outro pelo gramado perfeito.

Aproximei-me de um conjunto de móveis de ferro fundido pintados de branco, posicionado estrategicamente de frente para o campo de visão das crianças. Sentei-me em uma das cadeiras, e a Sra. Leonor acomodou-se logo ao meu lado.

Por alguns minutos, o único som ali era o das risadas distantes dos gêmeos. Mas eu sentia o olhar de Leonor sobre mim, ainda me estudando, embora de forma mais mansa. Logo, ela começou a puxar assunto, a voz carregada de uma curiosidade genuína.

— Eles parecem gostar muito de você, Cecília... — ela observou, os olhos fixos na neta que corria atrás do irmão. — Como eles estão no dia a dia? Como tem sido a adaptação deles com você na fazenda?

— Agora a convivência está muito melhor, Sra. Leonor — respondi com honestidade, ajeitando a minha bolsa no colo. — Mas não vou mentir para a senhora, no começo foi um verdadeiro teste de resistência. Fora as travessuras... O Matteo já tentou me pregar alguns sustos e a Merliah me testava o tempo todo.

Leonor soltou um suspiro triste, desviando o olhar para as próprias mãos unidas sobre o colo.

— Eu imagino... — ela sussurrou. — Sinto tanta falta deles no meu dia a dia. Gostaria muito de poder conviver mais com os meus netos, de tê-los aqui nos finais de semana, de participar da rotina... mas a nossa relação com o Marcello, nunca foi boa quando nossa filha era viva, Desde que a Larissa se foi, parece que um muro invisível se ergueu entre nós.

Olhei para a silhueta fragilizada daquela avó e senti uma pontada de empatia.

Pensando na conversa dura que tive com Marcello mais cedo na biblioteca, tudo fazia sentido.

— Eu compreendo, senhora — disse, medindo as palavras para não trair a confiança de ninguém.

— O Sr. Marcello é um homem muito reservado e protetor. O luto mexe com as pessoas de maneiras complexas.

Leonor assentiu, mas logo mudou a direção da conversa, voltando aqueles olhos azuis intensos e perspicazes para mim.

— E você, Cecília? Como era a sua relação com os seus pais antes de ir para o orfanato? De qual instituição você veio, exatamente?

A estranheza daquelas perguntas me fez piscar duas vezes.

Era um questionamento muito pessoal para uma babá que ela tinha acabado de conhecer. Senti um leve desconforto, mas mantive a simpatia e a educação, afinal, ela era a avó das crianças.

— Ah, como eu mencionei antes, eu morei com minha mãe até meus 5 anos, Sra. Leonor. Mamãe era carinhosa, me colocava para dormir todas as noites, cantava e contava histórias para mim – Revelei sorrindo.

– Logo após meus 5 anos ela veio a falecer. Pouco tempo depois papai estava casado com uma outra mulher, ela não queria filhos, então fui deixada no Orfanato Santa Maria degli Angeli, depois disso nunca mais vi ou soube do meu pai.

– Oh querida! Sinto muito por ser tão invasiva e por ter trazido a sua memória lembranças tão difíceis. – disse, segurando minha mão entre as suas.

A conversa continuou flutuando entre amenidades e histórias sobre as manias dos gêmeos até que Rosa veio nos avisar que o almoço estava servido.

O restante do dia seguiu sem novos sobressaltos.

O almoço foi farto e, aos poucos, o clima de tensão da manhã foi se dissipando, dando lugar a uma tarde agradável onde os gêmeos encheram a casa com a energia que faltava àquele lugar.

No final da tarde, o som de uma buzina discreta anunciou que a nossa bolha havia estourado. O Sr. Josué havia chegado com o carro da fazenda para nos buscar.

Matteo e Merliah se despediram dos avós com abraços apertados e promessas de que voltariam no próximo mês.

Enquanto o Sr. Gallardini ajudava as crianças a entrarem no banco de trás do veículo, a Sra. Leonor se aproximou de mim no cascalho do jardim.

Ela estendeu a mão e, discretamente, colocou entre os meus dedos um envelope de papel texturizado.

— Cecília, por favor... entregue isto nas mãos do Marcello assim que chegarem — ela pediu, os olhos brilhando com uma urgência silenciosa. — É muito importante.

Olhei para o envelope, sentindo o peso do papel e do segredo que ele parecia carregar.

— Pode deixar, Sra. Leonor. Eu entregarei a ele — garanti, guardando a carta com cuidado dentro da minha bolsa.

Sorri e me virei, dando os primeiros passos em direção à porta aberta do carro. Eu já estava quase tocando a maçaneta quando a voz da Sra. Leonor ecoou novamente pelo jardim, fazendo-me parar.

— Cecília! — ela chamou, um pouco mais alto. — Só mais uma pergunta, querida.

Virei-me de volta para ela, ajeitando a alça da bolsa no ombro.

— Pois não, Sra. Leonor? — respondi, aproximando-me um pouco mais.

A mulher deu um passo na minha direção.

Havia uma hesitação em seus lábios, como se ela estivesse pesando as palavras antes de deixá-las sair. Ela limpou a garganta e soltou a pergunta que me pegou totalmente desprevenida.

— Você saberia me informar... em qual hospital você nasceu?

Fiquei estática por um segundo, piscando as pálpebras, tentando processar o que aquilo tinha a ver com qualquer coisa. Estranhei muito aquela pergunta.

Quem questionava o hospital de nascimento de uma babá recém-contratada?

Mas, apesar da bizarrice da situação, olhei para o rosto da Sra. Leonor. Ela podia parecer uma senhora rica muito excêntrica, daquelas que têm manias estranhas e curiosidades aleatórias, mas havia algo nela que me transmitia uma confiança genuína. Eu havia gostado dela logo de cara, desde o momento em que a vi abraçar os netos. Havia uma aura de doçura inocente sob toda aquela dor.

Por isso, decidi responder com total simpatia, sem levantar barreiras.

— Bom... eu nasci no Ospedale Sant'Angelo — respondi, vendo os olhos dela se arregalarem de leve ao ouvir o nome. Dei um sorriso meio sem jeito e continuei: — Pode até parecer um pouco estranho, sabe? Pensando na minha situação e no histórico financeiro da minha família... mas há uma explicação. A minha mãe era enfermeira contratada naquele hospital antes de engravidar de mim.

A Sra. Leonor continuava em silêncio, quase sem respirar, absorvendo cada palavra minha.

— Depois que eu nasci — continuei, sentindo uma leve onda de melancolia —, ela infelizmente descobriu um câncer agressivo. Por causa disso, teve que sair do hospital e se dedicar inteiramente a cuidar da saúde e de mim, até onde aguentou. Mas eu nasci lá dentro, sim. As freiras do orfanato me confirmaram isso pelos papéis que ela deixou.

— Entendo... — ela disse, a voz quase sumindo. Ela forçou um aceno de cabeça e me deu um olhar profundo. — Obrigada por me responder, Cecília. Tenham uma excelente viagem de volta. E, por favor... não se esqueça de entregar a carta ao Marcello.

— Não esquecerei, senhora. Fique bem — respondi.

Ela se virou um pouco para o banco de trás do carro, onde os netos já nos espiavam pela janela de vidro.

— Eu amo vocês, meus amores! Se comportem! — ela exclamou, acenando.

— Também te amo, vovó! Tchau, vovô! — Matteo e Merliah gritaram em coro, agitando as mãozinhas de volta.

Despedi-me deles com um aceno e entrei no banco da frente do carro. Conforme o Sr. Josué dava a partida e a mansão dos Gallardini ia se tornando apenas uma silhueta distante pelo retrovisor, olhei para trás e vi os gêmeos já pegando no sono, exaustos do dia cheio. Suspirei, tocando a lateral da minha bolsa onde a carta repousava. O dia das visitas havia terminado, mas eu tinha a nítida sensação de que as consequências dele estavam apenas começando.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP