Mundo de ficçãoIniciar sessãoCecília
O silêncio que se instalou na entrada da mansão era tão denso que eu podia ouvir o cascalho sob os meus sapatos se acomodando. Eu continuava estática, com os braços semiabertos, enquanto a Sra. Leonor me encarava como se estivesse diante de uma assombração. O arrepio que subira pela minha espinha ainda não tinha ido embora. — O que está acontecendo aqui? Leonor? — uma voz firme, mas visivelmente preocupada, quebrou o transe. Vindo de dentro da casa, um senhor de cabelos brancos e postura imponente desceu os últimos degraus do hall interno. O Sr. Gallardini olhou para a esposa, notando seu tremor e a palidez cadavérica, e depois para os netos, que pareciam assustados. Por fim, seus olhos pousaram em mim. Ele começou a desviar o olhar, como se fosse apenas registrar a minha presença ali, mas sua cabeça chicoteou de volta na minha direção em uma fração de segundo. Seus olhos se arregalaram. Vi suas mãos se contraírem ao lado do corpo e ele deu um passo curto para trás, os lábios entreabertos em uma mímica perfeita do choque de sua esposa. — Quem... quem é você? — ele perguntou, a voz falhando por um instante antes de recuperar a crueza. — É a senhorita Cecília, vovô! A nossa nova babá — Matteo respondeu, dando um passo à frente e olhando de nós para os avós, a testa franzida. — Por que vocês estão tão estranhos? Todo mundo ficou com cara de bobo de repente. As palavras do menino pareceram trazer o Sr. Gallardini de volta à realidade, embora ele fizesse um esforço visível para desviar os olhos do meu rosto. Ele respirou fundo, engolindo em seco, e passou o braço pela cintura da esposa, dando-lhe o apoio que ela claramente precisava para não desabar no mármore. — Venha, Leonor. Vamos entrar. Precisa se sentar — ele disse com ternura, ajudando-a a caminhar. Depois, olhou por cima do ombro para nós. — Crianças, entrem. Você também... Cecília, por favor. Apanhei as mochilas e os casacos que eu tinha deixado cair no chão, sentindo minhas mãos tremerem de leve. Um nó de puro nervosismo se apertou no meu estômago enquanto eu os seguia para dentro da imensa sala de estar. O que eu fiz de errado?*, era o único pensamento que martelava na minha cabeça. Será que eu tinha quebrado algum protocolo? Será que minhas roupas não eram adequadas? Minha mente corria a mil por hora, tentando encontrar uma explicação lógica para aquela recepção tão perturbadora. A sala de estar era o ápice do luxo clássico, com sofás de veludo e quadros imensos nas paredes. O Sr. Gallardini acomodou a esposa no estofado macio. Quase que imediatamente, uma funcionária de uniforme impecável entrou no recinto carregando uma bandeja de prata com um copo de água e algumas gotas de calmante. A Sra. Leonor pegou o copo com as mãos ainda instáveis. Bebeu um gole longo, fechando os olhos por alguns segundos. Quando os abriu, a cor parecia estar voltando muito lentamente às suas bochechas. Ela olhou para os netos, que permaneciam de pé perto de mim, como se fôssemos um bloco defensivo. — Meus amores, me desculpem — ela disse, forçando um sorriso que não chegou aos olhos, a voz ainda um pouco trêmula. — A vovó só teve uma tontura boba por causa do calor. Já estou bem melhor, prometo. Ela olhou para a funcionária que esperava pacientemente ao lado do sofá. — Rosa, por favor, leve o Matteo e a Merliah até a cozinha. Eu sei que você preparou aquele bolo de chocolate especial que eles tanto gostam. — Sim, senhora. Vamos, crianças? — Rosa chamou, com um sorriso acolhedor. — Bolo de chocolate! — Matteo exclamou, a animação de uma criança de 7 anos limpando qualquer resquício de preocupação em sua mente. Ele deu dois passos rápidos em direção ao corredor, mas parou de repente, como se tivesse se lembrado de um freio invisível. Ele olhou para trás, para a irmã. Merliah não havia se mexido. Ela olhou para mim, os olhinhos azuis cheios de dúvida, lembrando-se perfeitamente das restrições que o pai havia passado para eles mais cedo, e depois para mim. — Senhorita Cecília... a gente pode comer o bolo agora? — Merliah perguntou, tímida. Olhei para a Sra. Leonor e depois para o Sr. Gallardini, tentando não parecer a babá chata e autoritária, mas a instrução de Marcello para que eles conhecem comida saudável antes da sobremesa ainda ecoava na minha mente. — Podem sim, meu amor — respondi com suavidade, aproximando-me dela e ajeitando uma mecha de seu cabelo. — Desde que seja um pedaço bem pequeno, está bem? Lembrem-se de que daqui a pouco vocês têm o almoço com os avós. Guardem espaço para a comida. — Combinado! — Matteo aceitou rápido, antes que eu mudasse de ideia, e voltou a puxar a irmã pelo braço. — Você vem comer com a gente, Cecília? — Merliah insistiu, desvencilhando-se do irmão por um segundo para olhar para mim com expectativa. Antes que eu pudesse responder que os acompanharia até a cozinha, a Sra. Leonor se endireitou no sofá, colocando o copo de água de lado. — Na verdade, Merliah... — a voz da avó soou um pouco mais firme, embora seus olhos continuassem cravados em mim com uma intensidade quase dolorosa. — Eu preciso conversar um minutinho com a Cecília aqui na sala. Coisa de adultos. Ela já vai se juntar a vocês em seguida, prometo. Merliah olhou para mim em busca de confirmação. Dei um aceno sutil e um sorriso encorajador para a menina. — Vá lá com o seu irmão. Eu já vou. A contragosto, Merliah assentiu e correu para alcançar Matteo e a funcionária, sumindo pelo corredor que levava à parte de trás da casa. O som das risadas deles foi diminuindo gradativamente até que o silêncio pesado e sufocante tomou conta da enorme sala de estar novamente. Fiquei de pé, segurando a alça da minha bolsa com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. O Sr. Gallardini e a Sra. Leonor me encaravam. Havia tantas perguntas flutuando no ar, e eu não fazia a menor ideia de qual seria a primeira a me atingir.






