Mundo ficciónIniciar sesiónCecília
Eu estava sentada na beirada da cama quando ouvi batidas suaves na porta. Desde que saíra do escritório, permanecera ali, observando o jardim pela janela enquanto segurava minha pequena bolsa junto ao peito. Era um hábito antigo. Sempre que me sentia perdida, acabava segurando aquela bolsinha como se ela pudesse me lembrar quem eu era. Talvez porque, de certa forma, ela realmente lembrasse. Ali estavam meus documentos. O pouco dinheiro que ainda possuía. E tudo o que restava da vida que eu havia deixado para trás naquela manhã. — Pode entrar. Imaginei que fosse Clarice. Por isso levei alguns segundos para perceber que a pessoa que atravessou a porta não era ela. Era Marcello. O dono da casa precisou se inclinar ligeiramente ao passar pelo batente. Alto, largo de ombros e dono de uma presença que parecia ocupar mais espaço do que o próprio corpo, ele fechou a porta atrás de si e permaneceu alguns segundos parado, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras. Aquilo, por si só, já foi suficiente para me deixar desconfiada. Homens como ele não pareciam ter dificuldade para falar. Principalmente quando estavam acostumados a dar ordens. Sem pedir permissão, puxou a cadeira da penteadeira e sentou-se de frente para mim. Os joelhos quase tocaram os meus. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, ele pareceu desconfortável. — Eu vim me desculpar. Confesso que essa não era a frase que eu esperava ouvir. — Não precisa. — Precisa, sim. Seu olhar encontrou o meu. — Eu reagi mal. — O vestido era importante para você. Uma sombra atravessou sua expressão. — Era da minha esposa. Assenti. Eu já havia imaginado. — Quando entrei no escritório e vi você usando aquela roupa... por alguns segundos você me lembrou dela. A sinceridade me pegou desprevenida. — Não foi sua culpa. Seu olhar permaneceu firme. — E também não foi justo descontar isso em você. Pela primeira vez desde que chegara à fazenda, vi algo diferente naquele homem. Não era arrogância. Nem frieza. Era culpa. Uma culpa genuína. — Senhorita Cecília, eu gostaria que aceitasse minhas desculpas. Sorri levemente. — Aceitas. O alívio que atravessou seu rosto foi quase imperceptível. Quase. — E eu gostaria que não fosse embora. Aquilo me fez erguer uma sobrancelha. — Tão desesperado assim? Uma risada curta escapou dele. A primeira que eu ouvia. — Você não faz ideia. — Achei que eu era apenas mais uma candidata. — Hoje de manhã eu também achava. Cruzei os braços. — E agora? — Agora você é a única candidata que ainda não fugiu. A resposta me arrancou um sorriso. Marcello apoiou os antebraços sobre os joelhos. — Estou disposto a aumentar sua remuneração em cinquenta por cento. Pisquei. — Cinquenta? — Além de moradia, alimentação e todas as despesas pessoais. Por alguns segundos achei que tinha entendido errado. O valor que havia sido anunciado na vaga já era absurdamente alto. Com aquele aumento, eu ganharia mais dinheiro em um mês do que algumas pessoas da periferia de Livorno conseguiam juntar em meio ano. — Senhor Moretti... — Marcello. — Certo. Marcello. Você não precisa me pagar uma fortuna para eu ficar. — Tem certeza? — Tenho. — Porque minhas experiências anteriores sugerem o contrário. Aquela observação me fez rir. — Quantas babás passaram por aqui? — Trinta e nove. Meu sorriso desapareceu. — Trinta e nove? — Você seria a quadragésima. — Isso não é um número normal. — Eu sei. Ficamos alguns segundos em silêncio. Então resolvi fazer uma pergunta. — Eles são sempre assim? — Piores. — Impressionante. Outra risada escapou dele. Dessa vez mais evidente. — Você ainda quer tentar? Olhei para a janela. Depois para minha bolsa. Depois para aquele homem sentado diante de mim. Eu não tinha casa. Não tinha emprego. Não tinha família. Mas, curiosamente, essa não era a razão pela qual eu pretendia ficar. A verdade era que eu conhecia crianças. Durante anos vivi cercada por elas. Crianças assustadas. Abandonadas. Feridas. E, muitas vezes, a bagunça era apenas uma linguagem diferente para pedir atenção. — Quero. Marcello pareceu sinceramente surpreso. — Depois de tudo isso? — Principalmente por causa disso. Ele franziu a testa. — Não entendi. Respirei fundo. — Eu cresci em um orfanato. Seu olhar suavizou imediatamente. — Lá recebíamos muitas crianças novas. Algumas choravam. Algumas ficavam em silêncio. Algumas brigavam com todo mundo. Parei por um instante. — E algumas faziam exatamente o que seus filhos fazem. Marcello permaneceu em silêncio. — Então qual é o seu plano? — Ganhar a confiança deles. — Boa sorte. — Não seja tão pessimista. — Estou sendo realista. Balancei a cabeça. — Vou ficar com uma condição. — Qual? — Você precisa me deixar tentar do meu jeito. Ele estreitou os olhos. — Seu jeito? — Meus métodos não são exatamente tradicionais. — Isso deveria me preocupar? — Talvez um pouco. Marcello soltou um longo suspiro. — Não faço ideia do que isso significa. — Nem eu. — Excelente. Sorri. — Confie em mim. Ele me observou por alguns segundos antes de finalmente concordar. — Um mês. — Um mês? — Se você sobreviver por um mês, já terá superado todas as outras. Inclinei a cabeça. — Em um mês eles serão meus amigos. A expressão incrédula dele foi tão exagerada que quase gargalhei. — Isso definitivamente não vai acontecer. — Vamos apostar? — Não. — Está com medo de perder? — Estou com medo de você ser maluca. Quando ele saiu do quarto alguns minutos depois, sua expressão deixava claro que acreditava exatamente nisso. --- Ao anoitecer, fui convidada para jantar com a família. Antes de sair do quarto, abri a porta devagar e examinei cuidadosamente o corredor. Nenhum balde. Nenhuma corda. Nenhum sapo. Até aquele momento. Desci as escadas com cautela e imediatamente percebi algo estranho. Pequenas bolinhas de gude estavam espalhadas pelo topo dos degraus. Sorri. Então era assim. Agachei-me e comecei a recolhê-las uma a uma. Quando finalmente cheguei à sala de jantar, carregava um punhado delas nas mãos. Matteo e Merliah estavam sentados à mesa. Os dois me encararam. Depois olharam para as bolinhas. Depois voltaram a me encarar. A decepção estampada em seus rostos era quase comovente. Aproximei-me calmamente. E coloquei todas as bolinhas sobre a mesa. O silêncio foi imediato. — Onde encontrou isso? — perguntou Clarice. — No topo da escada. Marcello fechou os olhos. Os gêmeos perceberam imediatamente que problemas estavam chegando. — Vocês dois fizeram isso? Ninguém respondeu. — Podiam ter provocado um acidente grave. A voz dele ficou firme. — Vão subir para os quartos. Sem jantar. Os dois arregalaram os olhos. Foi nesse momento que resolvi intervir. Foi nesse momento que resolvi intervir. — Acho que não precisa tanto. Todos olharam para mim. — Eu não me machuquei. Marcello continuou sério. — Ainda assim, poderiam ter causado um acidente. — Mas não causaram. Voltei meu olhar para os gêmeos. Os dois me observavam em silêncio, provavelmente tentando entender por que eu não estava exigindo vingança ou castigo. — Além disso, acho que seria uma pena eles perderem o jantar logo no primeiro dia que nos conhecemos. Matteo estreitou os olhos. Claramente desconfiado. — Você não está brava? Precisei conter um sorriso. — Deveria estar? — Todas as outras ficavam. — Talvez eu seja diferente. Merliah cruzou os braços. — Diferente como? Fingi pensar por alguns segundos. — Ainda não sei. Acho que vamos descobrir juntos. Os dois trocaram um olhar rápido. Aquele tipo de olhar que irmãos usam quando estão tendo uma conversa inteira sem precisar dizer uma única palavra. Clarice parecia estar se divertindo. Marcello, por outro lado, tinha a expressão de alguém que não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo. — Então você não quer que a gente fique de castigo? — Matteo perguntou. — Não. — Nem está com raiva? — Não particularmente. Merliah pareceu ainda mais desconfiada. — Por quê? Apoiei uma das mãos sobre a mesa. — Porque eu acabei de chegar e pretendo ficar bastante tempo por aqui. Os dois continuaram me encarando. — E quando a gente convive muito tempo com alguém, acaba se conhecendo melhor. Um silêncio estranho se instalou. Foi a primeira vez que vi os dois sem resposta. — O que isso significa? — Matteo perguntou. Sorri. — Significa que estou ansiosa para sermos amigos. Pela expressão deles, aquela resposta pareceu muito mais assustadora do que qualquer ameaça poderia ter sido. Quando me sentei à mesa, percebi que os dois continuavam me observando discretamente, como se tentassem descobrir onde estava a armadilha. E, pela primeira vez naquela noite, precisei morder a parte interna da bochecha para não rir. Porque talvez eles não fossem os únicos capazes de fazer pegadinhas.






