Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarcello
Deslizei o abridor de cartas de metal pela lateral do papel com uma precisão quase cirúrgica, tentando conter o tremor de raiva que já começava a se desenhar nos meus dedos. Leonor não enviava cartas casuais. Puxei as folhas de gramatura pesada de dentro do envelope. Meus olhos correram pelas primeiras linhas e o meu sangue congelou, para logo em seguida ferver nas minhas veias. Não era um desabafo de uma avó com saudades. Era um documento timbrado, assinado pelo principal escritório de advocacia da capital. Um pedido extrajudicial formalizado, requerendo a guarda unilateral de Matteo e Merliah. Eles alegavam que a rotina da fazenda era inadequada, que o isolamento prejudicava o desenvolvimento dos gêmeos e que a ausência de uma figura materna justificava a transferência da custódia para os avós. — Desgraçados... — as palavras saíram como um rosnado da minha garganta. Fui tomado por uma fúria cega, avassaladora. Minhas mãos se fecharam em torno do papel, amassando as bordas do documento com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Aquela gente já tinha me tirado o suficiente. Eles não iam levar os meus filhos. Nunca. Levantei-me da cadeira derrubando os relatórios que estavam sobre a mesa. Saí da biblioteca como um furacão, cruzando o hall de entrada com passos pesados que faziam o assoalho de madeira estalar sob o meu peso. Subi as escadas de dois em dois degraus. Minha mente perturbada só conseguia focar em uma pessoa: Cecília. Ela esteve lá o dia todo. Ela trouxe aquela maldita afronta para dentro da minha casa. Será que ela fazia parte daquilo? Será que eu tinha colocado uma espiã dos Gallardini dentro do meu próprio lar? Parei diante da porta do quarto dela e bati violentamente. Três pancadas surdas que ecoaram pelo corredor silencioso. — Cecília! Abra essa porta! — ordenei, a voz áspera de puro ódio. Houve um barulho apressado lá dentro, seguido pelo som da chave girando na fechadura. A porta se abriu de supetão. Minha respiração travou na garganta. A fúria que me dominava pareceu colidir com um muro invisível de perplexidade. Cecília estava parada ali, com o corpo inteiramente enrolado em uma toalha branca e felpuda que terminava um pouco acima dos seus joelhos. Gotas de água ainda escorriam pelos seus ombros claros, e o cabelo loiro, imenso e úmido, estava jogado para o lado, exalando um perfume doce de sabonete e jasmim. Por uma fração de segundo que pareceu uma eternidade, meus olhos traíram o meu julgamento. Eu nunca a tinha visto daquela forma. Longe das roupas simples de trabalho, o contorno de seus ombros, a clavícula marcada e as curvas escondidas pela toalha preencheram o espaço com uma sensualidade involuntária que me deixou momentaneamente atordoado. Ela piscou os olhos azuis, visivelmente assustada com a minha agressividade, e segurou a borda da toalha contra o peito com mais força. — Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, a voz trêmula, olhando para a minha expressão transtornada. — Desculpe. Sr Moretti. Posso ajudá-lo? A pergunta dela me trouxe de volta à realidade como um estalo. Ergui a mão que segurava a carta amassada, sacudindo o papel quase na altura do rosto dela. — Você sabia disso? — perguntei entre dentes, estreitando os olhos. — Sabia da afronta que estava trazendo para dentro da minha casa, Cecília? Ela olhou para o papel timbrado e depois para mim, a confusão estampada em suas feições. — Do que o senhor está falando? Como eu lhe avisei lá embaixo, a Sra. Leonor apenas me entregou o envelope e pediu que eu repassasse ao senhor. Eu não faço a menor ideia do que está escrito aí! A firmeza na voz dela, misturada com o choque genuíno em seu olhar, começou a quebrar a minha paranoia. Eu estava sendo injusto. Bufei, passando a mão pelos cabelos, e dei meia-volta, pronto para descer e ligar para os meus advogados na mesma hora. Antes que eu pudesse dar o primeiro passo, senti a mão dela, fria e úmida, segurar o meu antebraço com força. — Espera, Sr. Moretti — ela pediu, ignorando o fato de estar de toalha, movida por uma preocupação real. — Me diz o que houve. Por favor. Eu passei o dia com as crianças, eu me importo com o que acontece com eles. Do que se trata essa carta? Olhei para a mão dela no meu braço e depois para o seu rosto. O desespero silencioso que eu carregava há anos precisava ser dividido. Eu estava exausto de lutar sozinho contra os fantasmas do passado. Cedi. Estendi o papel amassado na direção dela. — É um pedido de guarda extrajudicial. Os Gallardini querem tirar o Matteo e a Merliah de mim — soltei, a voz áspera. Cecília pegou o papel rapidamente. Seus olhos correram pelas linhas formais do advogado e, conforme ela absorvia o teor do documento, vi a confusão em seu rosto se transformar em uma fúria idêntica à minha. Suas bochechas ganharam uma cor viva e seus olhos azuis faiscaram de indignação. — Mas que cretinos! — ela exclamou, a voz subindo de tom, amassando o papel ainda mais entre os dedos. — Como eles têm coragem? Eu fui uma tola ingênua! Uma completa idiota por confiar naquela senhora! Eu a encarei, confuso com a reação desmedida dela. — Do que você está falando, Cecília? — Eu deveria ter desconfiado! — ela continuou, andando de um lado para o outro no pequeno espaço do portal da porta, a toalha balançando perigosamente. — Devia ter achado estranho quando aquela velha veio cheia de perguntas sussurradas sobre mim, sobre a minha vida e sobre o meu passado lá no jardim. Nunca, nem em um milhão de anos, eu imaginaria que uma pessoa que me tratou tão bem, com tanta doçura, estaria me usando apenas para enviar um recado sórdido como esse para o senhor! Senti um estalo na minha mente. Minha postura se enrijeceu novamente, mas por um motivo completamente diferente. Dei um passo para dentro do quarto, encurtando a distância entre nós. — Como assim? — perguntei, a voz baixa e cortante. Cecília parou de marchar, olhando para mim com um sobressalto, parecendo perceber que tinha falado demais. — O quê? — ela gaguejou. — Como assim a Leonor fez perguntas sobre o seu passado, Cecília? O que exatamente aconteceu naquela casa hoje? — exigi saber, cada fibra do meu ser entrando em estado de alerta. Os Gallardini não faziam nada sem um propósito oculto. Cecília engoliu em seco, ajeitando a toalha no peito mais uma vez. Ela percebeu que não tinha como voltar atrás e começou a relatar tudo. Contou sobre o momento em que chegou à mansão, sobre como a Sra. Leonor empalideceu, começou a tremer violentamente e quase desmaiou ao fixar os olhos nela. Contou que a idosa a chamou pelo nome de Larissa, em um estado de choque completo que assustou até os gêmeos. Fiquei estático, ouvindo o relato em um silêncio estarrecedor. Meu coração martelava contra as costelas. O interesse súbito dos Gallardini em Cecília começou a desenhar um cenário complexo e perturbador na minha mente. Por que eles estariam investigando a origem da babá dos meus filhos? — Ela ficou me encarando o almoço todo — Cecília continuou, gesticulando com uma das mãos livres. — Depois, no jardim, veio me perguntar de onde eu era, qual era o meu orfanato, quem eram os meus pais... E antes de eu entrar no carro, ainda me parou para perguntar em qual hospital eu tinha nascido! Eu achei que era só uma excentricidade de idosa rica, sabe? — Uma excentricidade... — repeti, a mente trabalhando a mil por hora. — É. Ela me mostrou uma fotografia da Larissa na sala — Cecília acrescentou, olhando para o chão, com a voz um pouco mais mansa. — Disse que nós éramos muito parecidas e que por isso ela tinha passado mal. Eu olhei a foto. Realmente, nós duas temos os mesmos cabelos loiros e os mesmos olhos azuis... mas, tirando isso, eu não identifiquei nenhuma outra semelhança de verdade. Fixei meus olhos no rosto de Cecília. Estudei cada linha de suas feições iluminadas pela luz fraca do quarto. A semelhança de cores com a minha falecida esposa era inegável de longe, um fantasma que também tinha me assustado no primeiro dia. Mas, olhando para Cecília agora, tão de perto, a crueza e a força que emanavam dela eram completamente diferentes da fragilidade que Larissa possuía. Cecília tinha uma beleza viva, moldada pela realidade, não pelo luxo. — É... — minha voz saiu mais profunda do que eu pretendia, o tom ecoando pelo espaço confinado do quarto. — Vocês realmente são muito diferentes. No instante em que as palavras deixaram a minha boca, o ar ao nosso redor pareceu mudar de densidade. O foco na carta e no mistério dos Gallardini evaporou, sendo substituído por uma súbita e avassaladora consciência da nossa situação atual. Eu estava parado no meio do quarto particular da babá dos meus filhos, no meio da noite. E ela estava vestindo absolutamente nada além de uma toalha branca que parecia segurar a muito custo contra o próprio corpo, com a pele ainda quente e perfumada do banho. Cecília pareceu se dar conta disso exatamente no mesmo segundo. Suas bochechas, que antes queimavam de raiva, foram tingidas por um rubor intenso de pura vergonha. Ela deu um passo atrás, os olhos arregalados de timidez, desviando o olhar do meu rosto imediatamente. Senti um calor incômodo subir pelo meu pescoço. O profissionalismo que eu tanto prezava havia sido arranhado pela intimidade daquele momento. Limpei a garganta, recuperando a minha postura rígida com um esforço tremendo. — Certo... — pigarreei, pegando a carta amassada da mão dela de forma abrupta. — Eu preciso... preciso fazer umas coisas. Resolver esse assunto com os advogados imediatamente. Desculpe pelo incômodo, Cecília. Boa noite. Virei-me antes mesmo que ela pudesse responder e saí do quarto a passos rápidos, fechando a porta atrás de mim. Caminhei pelo corredor de volta para a biblioteca com o coração acelerado, mas dessa vez, não era apenas a fúria contra os Gallardini que fazia o meu sangue pulsar; era o enigma silencioso que Cecília representava, e a incômoda lembrança do perfume de jasmim que havia ficado impregnado em mim.






