Cecília
Eu continuei parada no enorme hall de entrada mesmo depois que Marcello desapareceu escada acima com os gêmeos. O silêncio que ficou para trás pareceu estranho depois de toda a confusão dos últimos minutos, e por alguns instantes permaneci imóvel, segurando a alça da mala com força enquanto tentava organizar os pensamentos.
Minha chegada à propriedade definitivamente não havia acontecido da maneira que eu imaginara.
Quando saí do orfanato naquela manhã, pensei que encontraria uma entrevista formal, algumas perguntas sobre minha experiência com crianças e talvez um ou dois olhares desconfiados por eu não possuir referências importantes. Em nenhum momento imaginei que seria recebida por uma armadilha infantil, coberta de lama da cabeça aos pés e derrubada sobre o homem mais bonito que já havia visto na vida.
A lembrança fez minhas bochechas esquentarem imediatamente.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento.
O que realmente importava naquele momento era outra coisa.
Minha mala.
Olhei para ela com uma sensação crescente de preocupação.
A lama havia atingido praticamente tudo. Embora a parte externa estivesse fechada, eu não tinha certeza de que a água não havia conseguido entrar. E aquela possibilidade era suficiente para fazer meu estômago se apertar.
Tudo o que eu possuía estava ali dentro.
Todas as minhas roupas.
Todos os meus pertences.
Toda a minha vida.
Eu estava tão distraída pelos próprios pensamentos que quase não percebi a aproximação da senhora elegante que surgiu no corredor lateral.
— Você deve ser Cecília.
Ergui os olhos.
A mulher parecia ter pouco mais de sessenta anos e possuía uma beleza serena que imediatamente transmitia conforto. Os cabelos grisalhos estavam presos em um coque elegante, e seus olhos castanhos carregavam uma gentileza que me lembrou algumas das freiras do orfanato.
Ela sorriu.
Um sorriso sincero.
Daqueles que aquecem o coração de quem recebe.
— Sou Clarice Moretti.
Só então percebi.
— A mãe do senhor Moretti?
— E avó daqueles dois pequenos furacões — respondeu com uma risada divertida.
Aquilo arrancou de mim o primeiro sorriso desde que chegara à propriedade.
— Prazer em conhecê-la.
— O prazer é meu, querida.
Seu olhar percorreu minhas roupas enlameadas e seu sorriso tornou-se ainda mais gentil.
— Venha comigo. Acho que você merece um banho quente depois da recepção que recebeu.
Segui Clarice escada acima.
Enquanto caminhávamos pelos corredores da casa, não consegui evitar observar tudo ao redor. O lugar parecia saído de uma revista. Os pisos de madeira brilhavam sob a luz que entrava pelas enormes janelas, os quadros antigos decoravam as paredes e cada detalhe transmitia elegância sem parecer exagerado.
Era bonito.
Mas também acolhedor.
O que me surpreendeu.
Eu sempre imaginei que pessoas muito ricas vivessem cercadas por ambientes frios e impessoais.
Aquela casa não parecia assim.
Clarice me conduziu até um quarto no segundo andar e abriu a porta.
— Você pode ficar aqui por enquanto.
Entrei devagar.
O quarto era maior do que o dormitório inteiro que eu dividira com outras meninas durante anos no orfanato.
Uma cama ampla ocupava o centro do ambiente, coberta por uma colcha clara e delicadamente bordada. Havia uma penteadeira branca próxima à janela, uma poltrona confortável em um dos cantos e um guarda-roupa enorme que provavelmente comportava mais roupas do que eu possuíra durante toda a minha vida.
— O banheiro fica ali — explicou Clarice, apontando para uma porta lateral. — Já pedi para prepararem toalhas limpas e tudo o que você precisar.
— Muito obrigada.
Ela assentiu.
— Fique à vontade.
Quando a porta se fechou atrás dela, finalmente permiti que a preocupação que vinha tentando ignorar assumisse o controle.
Ajoelhei-me diante da mala.
Por favor.
Por favor.
Abri o zíper lentamente.
Meu coração afundou.
A água havia entrado.
Talvez não completamente, mas o suficiente.
Uma após a outra, retirei minhas roupas.
Blusas.
Vestidos.
Saias.
Tudo úmido.
Tudo manchado.
Tudo inutilizado por enquanto.
Por alguns segundos fiquei apenas olhando para aquelas poucas peças espalhadas sobre a cama.
Era ridículo.
E ainda assim senti vontade de chorar.
Porque aquilo não era apenas roupa.
Era tudo o que eu tinha.
Toda a minha vida cabia dentro daquela mala.
E agora até aquilo parecia estar sendo arrancado de mim.
Respirei fundo algumas vezes antes de abrir a pequena bolsinha que mantinha sempre dentro da bolsa transversal.
Um alívio imediato percorreu meu corpo.
Os documentos estavam secos.
O dinheiro também.
Não era muito.
Mas era suficiente para que eu não me sentisse completamente perdida.
A porta abriu-se suavemente.
Levantei os olhos.
Clarice entrou no quarto e bastou um único olhar para compreender o que havia acontecido.
— Ah, querida...
Sua voz saiu carregada de compaixão.
Senti minhas bochechas queimarem de vergonha.
— Eu sinto muito. Eu devia ter tomado mais cuidado.
— Com a armadilha deles? — perguntou ela. — A culpa não foi sua.
Sorri sem graça.
Clarice aproximou-se da cama e observou as roupas molhadas.
— Vá tomar seu banho.
— Mas...
— Eu vou resolver isso.
— Não quero incomodar.
— Você não está incomodando.
Havia tanta firmeza e carinho em sua voz que me vi incapaz de argumentar.
— Obrigada.
— Vá.
Obedeci.
O banho quente foi uma das melhores coisas que já senti.
A água parecia levar embora não apenas a lama, mas também parte da ansiedade que eu carregava desde que deixara Livorno.
Quando finalmente saí do banheiro, encontrei sobre a cama um vestido florido em tons suaves de azul.
Vesti-o com cuidado.
Serviu perfeitamente.
Como se tivesse sido feito para mim.
Depois me sentei diante da penteadeira.
A janela aberta permitia que uma brisa agradável entrasse no quarto, carregando o perfume das flores do jardim.
Lá fora, o cenário parecia uma pintura.
Rosas, lavandas e caminhos de pedra se espalhavam até onde minha visão alcançava.
Por alguns instantes apenas observei.
Era bonito demais.
Quase irreal.
A porta abriu-se novamente.
Clarice entrou sorrindo.
— Eu sabia.
Virei-me.
— Sabia o quê?
— Que o vestido ficaria perfeito em você.
Sorri.
— Obrigada.
— Suas roupas já estão sendo lavadas.
Meu peito apertou de gratidão.
— Não sei como agradecer.
— Não precisa agradecer por tudo, querida.
Seu olhar demorou-se em meu rosto.
Talvez mais do que o normal.
Talvez porque estivesse enxergando algo que eu mesma não percebia.
— Você está triste.
A observação foi tão direta que não consegui negar.
Baixei os olhos.
— Foi um dia difícil.
Clarice aproximou-se da penteadeira.
— Posso?
Olhei para a escova que ela segurava.
Então assenti.
— Claro.
Ela posicionou-se atrás de mim e começou a pentear meus cabelos com movimentos lentos e cuidadosos.
Por um instante, precisei fechar os olhos.
Eu não me lembrava da última vez que alguém havia feito aquilo.
Talvez minha mãe.
Antes da doença.
Antes do hospital.
Antes de tudo acabar.
— O ataque de hoje não foi pessoal — disse Clarice suavemente.
Abri os olhos.
Ela continuava penteando meus cabelos.
— Eu imaginei.
— Matteo e Merliah fazem isso com todas as babás.
— Isso não me deixa muito mais tranquila.
A risada dela preencheu o quarto.
— Eu sei.
Seu sorriso desapareceu lentamente.
— Mas eles não são crianças ruins.
Observei seu reflexo no espelho.
— São apenas muito criativos?
— Extremamente.
Sorri.
— Eles perderam a mãe no dia em que nasceram.
Meu sorriso desapareceu.
Clarice continuou falando enquanto desembaraçava uma mecha dos meus cabelos.
— Larissa era uma mulher maravilhosa. Amava aqueles bebês antes mesmo de conhecê-los.
Sua voz carregava saudade.
— E então eles cresceram sem ela.
Meu coração apertou.
Porque eu entendia.
Talvez mais do que ela imaginasse.
— Crianças sentem a ausência de formas diferentes — continuou. — Algumas choram. Algumas se fecham. Algumas transformam a dor em travessuras.
Permaneci em silêncio.
— E o senhor Moretti?
A pergunta escapou antes que eu pudesse impedir.
Clarice suspirou.
— Meu filho ama aquelas crianças mais do que qualquer coisa neste mundo.
Lembrei-me imediatamente do homem de olhar severo e expressão fechada.
Era difícil imaginar.
— Mas ele não sabe demonstrar.
— Por quê?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Porque algumas perdas endurecem o coração das pessoas.
Observei meu reflexo.
Depois o dela.
E pela primeira vez desde que chegara àquela propriedade, tive a sensação de que talvez existisse muito mais por trás daquela família do que aparentava existir à primeira vista.
E, pela primeira vez desde que saí do orfanato, percebi que eu não era a única pessoa tentando encontrar um lugar ao qual pertencer.