Mundo ficciónIniciar sesiónMarcello
Assim que voltei dos estábulos, tentei me convencer de que minha irritação era perfeitamente justificável. Tentei mesmo. Entrei no escritório, fechei a porta e me obriguei a voltar para os relatórios que aguardavam sobre minha mesa. Havia contratos para analisar, números para conferir, uma nova safra para aprovar e uma lista interminável de responsabilidades que deveriam ocupar meus pensamentos. Mas nenhuma delas conseguia permanecer na minha cabeça por mais de alguns segundos. Porque toda vez que eu voltava minha atenção para os documentos, a imagem que surgia era exatamente a mesma. Cecília montada naquele cavalo. Mattias segurando a sela. Os dois sorrindo. E os meus filhos observando tudo como se aquela fosse a cena mais normal do mundo. Aquilo me irritava mais do que deveria. Ou talvez me irritasse exatamente o quanto deveria. Porque eu conhecia Mattias há praticamente a vida inteira. Crescemos juntos. Brigamos juntos. Aprontamos juntos. Meu pai costumava dizer que éramos mais irmãos do que amigos. E justamente por conhecê-lo tão bem, eu sabia perfeitamente como ele era com mulheres. Mattias nunca ficava. Nunca se envolvia. Nunca construía nada. Entrava e saía de relacionamentos com a mesma facilidade com que trocava de camisa. E Cecília... Fechei os olhos por um instante. Cecília era jovem demais. Ingênua demais. Boa demais. Levantei da cadeira e apertei o botão do interfone. — Peça para Mattias vir ao meu escritório. Menos de quinze minutos depois ouvi uma batida na porta. — Entre. A porta se abriu. Mattias entrou sorrindo. Como sempre. — Mandou me chamar? Ele sentou-se na cadeira diante da minha mesa sem sequer esperar um convite. — Espero que não seja para reclamar da aula, porque as crianças foram exemplares hoje. Cruzei os braços. — Não é sobre as crianças. O sorriso dele aumentou. — Então é sobre a babá. Revirei os olhos. — Não comece. — Eu nem comecei. — Pois então não comece. Mattias apoiou os cotovelos nos joelhos. — Estou ouvindo. Respirei fundo. — Não quero que aquilo se repita. — Aquilo o quê? — Você sabe exatamente do que estou falando. — Não sei não. — Cecília no cavalo. — Ah. Aquele maldito sorriso continuava ali. — Ela nunca tinha montado. — E isso é problema dela. — Ela estava se divertindo. — A aula era dos meus filhos. Mattias ficou me observando durante alguns segundos. Depois recostou-se na cadeira. — Certo. É só isso? — Não. — Eu sabia. Apontei o dedo na direção dele. — Cecília é funcionária da fazenda. — Eu sei. — E quero que continue sendo apenas isso. — Certo. — Não quero que você mexa com ela. Dessa vez ele piscou algumas vezes. — Como é? — Você ouviu. — Está falando sério? — Muito sério. Por alguns segundos ele apenas me encarou. Depois começou a rir. Não uma risada discreta. Uma gargalhada. Daquelas irritantes. — Você está com ciúmes da babá. — O quê? — Você está com ciúmes. — Não seja ridículo. — Estou começando a achar isso extremamente divertido. Levantei-me da cadeira. — Mattias. — Está com ciúmes. — Não estou. — Está sim. — Não estou. — Está. Vamos lá, assume de uma vez. Passei a mão pelos cabelos. Aquilo estava me dando nos nervos. — O problema não é esse. — Então qual é? — Você. — Eu? — Sim, você. Mattias arqueou uma sobrancelha. — Estou curioso. — Você vive correndo atrás de mulheres pela região inteira. — Isso foi ofensivo. — E depois desaparece. — Isso foi mais ofensivo ainda. — Não quero que faça o mesmo com Cecília. Pela primeira vez ele pareceu compreender que eu estava falando sério. O sorriso desapareceu um pouco. — Marcello... — As crianças estão começando a gostar dela. — Eu percebi. — E não quero que você a seduza, brinque com ela e depois a faça ir embora com o coração partido. Mattias permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Então balançou a cabeça lentamente. — Você realmente acredita que eu faria isso? — Eu conheço você. — Me conhece a vida inteira. Crescemos juntos. — Exatamente. — Então deveria saber que não sou um monstro. Suspirei. Talvez eu estivesse exagerando. Mas não conseguia evitar. Porque, pela primeira vez desde a chegada de Cecília, meus filhos pareciam felizes. E aquilo me assustava. Porque felicidade significava apego. E apego significava perda. Mais cedo ou mais tarde. Sempre. — Você está pensando em demiti-la, não está? A pergunta me pegou desprevenido. — O quê? — Eu te conheço. Praguejei mentalmente. — Não estou. — Está sim. — Não estou. — Posso ver as engrenagens da sua cabeça girando. Está quase saindo fumaça pelos ouvidos. Desviei o olhar para a janela. Aquilo já era resposta suficiente. Mattias soltou uma risada desacreditada. — Você perdeu completamente a cabeça. — Não perdi. — As crianças finalmente gostam de alguém. — E ela vai embora. — Como sabe? — Porque ela tem vinte e um anos. Virei-me para encará-lo. — Ela é jovem. Tem uma vida inteira pela frente. Não vai passar o resto da existência cuidando dos meus filhos difíceis numa fazenda. Mais cedo ou mais tarde vai embora. E quando isso acontecer... Nem precisei terminar a frase. Mattias entendeu. — Então esse é o problema. — Não existe problema. — Existe sim. Ele apontou para mim. — E não são as crianças. Cruzei os braços. — Continue. — Quem está tentando não se apegar à Cecília é você. Soltei uma gargalhada sem humor. — Isso é ridículo. — É? — Claro que é. — Porque para mim Matteo e Merliah já estão completamente adaptados a ela. — Não. — Estão. — Não. Não estão. — Faz quatro dias que não tentam expulsá-la. Aquilo me fez ficar em silêncio. — E você continua agindo como se ela fosse embora amanhã. — Porque ela pode ir. — Ou pode ficar. — Não vai. — Como sabe? A conversa estava começando a tomar um rumo que eu não gostava. Muito menos quando Mattias resolveu piorar tudo. — Talvez você seja o único que não percebeu o que está acontecendo. — E o que estaria acontecendo? — Você está resistindo à presença dela. — Eu não estou resistindo a nada. — Está sim. — Ela é apenas uma funcionária. — E você continua repetindo isso como se precisasse convencer a si mesmo. Fechei a expressão imediatamente. — Basta. Mattias ignorou. — Você tem trinta e três anos. Ela tem vinte e um. Isso não é crime. — Pelo amor de Deus. — E Larissa morreu há quase seis anos. Meu corpo inteiro ficou rígido. O escritório mergulhou em silêncio. — Não fale dela. — Alguém precisa falar. — Não. Não ouse a falar dela — Sim. Alguém precisa te trazer de volta para a realidade meu amigo. — Mattias. — Larissa te amava. Apertei os punhos. — Pare. — E ela jamais gostaria de te ver vivendo desse jeito. Minha mandíbula travou. — Acabou. — Você está preso ao passado meu irmão. — Já chega Mattias. — Ela gostaria que você fosse feliz. Foi a última frase. A última. — Saia da minha sala. Mattias me encarou por alguns segundos. Depois suspirou. Levantou-se. Caminhou até a porta. Mas antes de sair, voltou-se para mim uma última vez. — Sabe qual é a ironia? Não respondi. — Você está tão preocupado que Cecília vá embora por causa das crianças. Meu olhar encontrou o dele. — Mas, se continuar tratando aquela garota da forma que vem tratando, quem vai fazê-la ir embora é você. A porta se fechou logo depois. E pela primeira vez desde o início da conversa, fiquei sozinho. Completamente sozinho. O problema era que, pela primeira vez também, eu não tinha certeza de que Mattias estava errado.






