Mundo ficciónIniciar sesiónCecília
Se existia uma coisa que eu havia aprendido desde que chegara à Fazenda Moretti, era que o silêncio naquela casa quase sempre significava problema. Foi exatamente por isso que estranhei quando o restante da tarde passou sem nenhuma confusão. Nenhuma armadilha. Nenhum sapo. Nenhuma galinha perdida pelos corredores. Nenhuma tentativa de sabotagem elaborada pelos gêmeos. Nada. Absolutamente nada. E aquilo era preocupante. Muito preocupante. Eu estava sentada na sala de estudos acompanhando Matteo e Merliah enquanto desenhavam quando comecei a observar os dois com mais atenção. Merliah coloria um cavalo com uma concentração incomum. Matteo estava desenhando algo que parecia uma batalha entre cavaleiros. Até aí, tudo normal. O problema era que eles estavam quietos. Excessivamente quietos. — Vocês estão planejando alguma coisa? — perguntei. Os dois levantaram os olhos exatamente ao mesmo tempo. — Não. A resposta veio rápida demais. — Isso foi suspeito. — Não foi. — Foi sim. — Não foi. Cruzei os braços. — Matteo. — O quê? — Eu fui criada em um orfanato cheio de crianças. — E daí? — Eu reconheço uma cara de quem está aprontando. Ele pareceu ofendido. — Eu não estou aprontando nada. — Claro. — Estou falando sério. — Eu também. Merliah começou a rir. — Ela não acredita na gente. — Porque vocês não são confiáveis. — Isso é preconceito. — Isso é experiência. Os dois trocaram um olhar cúmplice. E imediatamente fiquei ainda mais desconfiada. O restante da tarde passou entre atividades simples, desenhos e algumas leituras. Pela primeira vez desde que eu chegara à propriedade, os gêmeos pareciam realmente relaxados na minha presença. E aquilo me fez pensar. Porque, quando aceitei aquele emprego, minha única preocupação era sobreviver. Encontrar um lugar para dormir. Ganhar dinheiro suficiente para me sustentar. Construir uma vida. Nada além disso. Eu jamais imaginei que começaria a criar laços. Muito menos com duas crianças que haviam transformado a expulsão de babás em um passatempo. Mas, de alguma forma, aquilo estava acontecendo. E talvez fosse exatamente por isso que o comportamento de Marcello começava a me incomodar mais do que deveria. Balancei a cabeça. Não queria pensar nele. Principalmente depois da cena dos cavalos. Toda vez que eu acreditava estar finalmente entendendo aquele homem, ele fazia alguma coisa que me deixava completamente perdida. Ora parecia preocupado. Ora parecia irritado. Ora me pedia desculpas. Ora me tratava como se eu estivesse constantemente prestes a cometer algum erro imperdoável. Era exaustivo. Quando o relógio se aproximou do final da tarde, levei os gêmeos para o jardim. O céu começava a ganhar tons dourados enquanto o sol se aproximava do horizonte. Merliah corria atrás de borboletas. Matteo tentava convencê-la de que aquilo era uma atividade ridícula. Tudo parecia estranhamente tranquilo. Até que ouvi passos se aproximando. Levantei os olhos. Era Clarice. A mãe de Marcello caminhava em nossa direção carregando uma bandeja com biscoitos e suco. — Achei que vocês poderiam gostar de um lanche. As crianças correram imediatamente até ela. — Vovó! — Trouxe biscoitos? — Eu sempre trago biscoitos. Sorri observando a cena. Clarice tinha uma forma muito especial de lidar com os netos. Não era difícil entender por que eles eram tão apegados a ela. Enquanto Matteo e Merliah disputavam o último biscoito de chocolate, Clarice sentou-se ao meu lado no banco de madeira. — Você parece pensativa. Sorri sem graça. — Estou bem. — Essa resposta geralmente significa o contrário. Ri baixinho. — É apenas cansaço. Ela me observou durante alguns segundos. Como se estivesse avaliando se acreditava ou não. — Meu filho a incomodou novamente? A pergunta me pegou desprevenida. — Não. — Cecília. — Estou falando a verdade. Clarice suspirou. — Marcello sempre teve dificuldade para lidar com sentimentos. Baixei os olhos para minhas mãos. — Ele é meu patrão. — Sim. — E eu sou apenas a babá das crianças. Ela ficou em silêncio. Um silêncio estranho. Longo demais. Quando voltou a falar, sua voz estava carregada de uma gentileza quase maternal. — Você sabe que é muito mais importante para esta casa do que imagina, não sabe? Aquilo me deixou sem reação. Porque eu não sabia. Na verdade, muitas vezes ainda me sentia como uma visitante temporária. Alguém que poderia desaparecer a qualquer momento. Como se tudo aquilo fosse apenas um empréstimo da vida. Uma pausa antes de voltar para a realidade. — Não tenho tanta certeza disso. Clarice sorriu. — Eu tenho. Antes que eu pudesse responder, Matteo surgiu diante de nós. — Vovó! — Sim? — Posso comer mais um? — Quantos já comeu? — Dois. Merliah apareceu logo atrás. — Foram quatro. — Traidora! — reclamou ele. A gargalhada escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedir. E, por alguns segundos, todos nós rimos juntos. Foi um momento simples. Pequeno. Mas estranhamente acolhedor. Talvez acolhedor demais. Porque, enquanto observava aquelas pessoas, percebi algo que me assustou. Eu estava começando a me sentir em casa. E aquilo era perigoso. Muito perigoso. Porque lares podiam ser perdidos. Famílias podiam desaparecer. Pessoas podiam ir embora. Eu sabia disso melhor do que ninguém. Por isso, quando o jantar foi anunciado e as crianças correram para dentro da casa, permaneci alguns segundos parada no jardim. Observando o sol desaparecer atrás dos vinhedos. Tentando ignorar a sensação estranha que apertava meu peito.






