Pequenos Cavaleiros

Cecília

A manhã seguinte começou de forma surpreendentemente tranquila.

Depois da conversa que tive com o senhor Moretti na cozinha na noite anterior, eu havia acordado determinada a não criar problemas, a cumprir exatamente aquilo que ele esperava de mim e a evitar qualquer situação que pudesse ser interpretada como uma tentativa de ultrapassar os limites do meu trabalho.

Por isso, quando acompanhei Matteo e Merliah até a área dos estábulos para a aula de equitação, minha intenção era apenas observá-los.

Nada mais.

O sol brilhava sobre os campos da propriedade, iluminando os vinhedos que pareciam se estender até o horizonte. O cheiro de terra úmida misturava-se ao aroma da grama recém-cortada, enquanto alguns cavalos pastavam tranquilamente atrás das cercas de madeira.

Foi nesse cenário que conheci o instrutor dos gêmeos.

— Você deve ser a famosa senhorita Cecília — disse uma voz masculina atrás de mim.

Virei-me e encontrei um homem alto, de cabelos castanhos claros e olhos verdes muito vivos. Ele usava botas, calça jeans e uma camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos.

Seu sorriso era fácil.

Daqueles que surgem naturalmente.

— E você deve ser Mattias, o sobrevivente — respondi sorrindo.

— O único sobrevivente das aulas desses dois monstrinhos.

Matteo imediatamente cruzou os braços.

— Nós ouvimos isso.

— Era exatamente essa a intenção.

Merliah gargalhou.

Mattias piscou para ela.

Durante alguns minutos ele me explicou como funcionavam as aulas, quais cavalos eram utilizados pelas crianças e quais percursos costumavam fazer dentro da propriedade.

Era um homem simpático.

Educado.

Bonito também.

Bonito até demais.

Mas, para minha própria surpresa, enquanto o observava conversando, percebi que meu cérebro insistia em fazer comparações completamente desnecessárias.

Porque, por mais atraente que Mattias fosse, meus pensamentos acabavam voltando para Marcello.

Para seus olhos escuros.

Para sua presença imponente.

Para aquela postura séria que parecia dominar qualquer ambiente.

Sacudi mentalmente aquelas ideias.

Aquilo era ridículo.

Completamente ridículo.

Além de ser meu patrão.

— Vamos começar? — perguntou Mattias.

As crianças praticamente correram para seus cavalos.

A aula transcorreu muito melhor do que eu imaginava.

Matteo e Merliah pareciam nascer diferentes quando estavam montados.

Toda aquela energia que normalmente utilizavam para criar confusão era direcionada para os animais.

Eles prestavam atenção.

Seguiam instruções.

Concentravam-se.

E, pela primeira vez desde que eu chegara à fazenda, vi os dois verdadeiramente disciplinados.

— Eles são ótimos cavaleiros — comentei.

— São excelentes — confirmou Mattias. — Principalmente para a idade deles.

O orgulho estampado nos rostos dos gêmeos quase me fez rir.

Depois de quase duas horas de aula, os cavalos diminuíram o ritmo enquanto as crianças conduziam os animais de volta para perto dos estábulos.

Foi então que Merliah fez uma pergunta inesperada.

— Senhorita Cecília, você sabe andar a cavalo?

Balancei a cabeça.

— Não. Nunca andei.

— Nunca?

— Nunca.

Matteo arregalou os olhos.

— Nem uma vez?

— Nunca vi um de perto.

Os dois ficaram me encarando como se eu tivesse acabado de revelar que nunca tinha visto uma árvore.

— Isso é muito triste — declarou Merliah.

— Concordo — disse o irmão.

— Não é triste.

— É sim. — Retrucou Matteo.

— É muito triste. – Confirmou Merliah.

Mattias começou a rir.

— Acho que fui derrotada.

— Você precisa montar — decretou Matteo.

— Não. Não preciso.

— Precisa, com toda certeza precisa.

— Não preciso.

— Vamos, venha.

Suspirei.

— Eu tenho certeza de que não preciso.

Os três trocaram olhares.

E aquele foi meu primeiro erro.

Porque reconheci imediatamente aquele tipo de olhar.

Era exatamente o mesmo que Matteo e Merliah faziam antes de aprontar alguma coisa.

— Suba no cavalo — insistiu Merliah.

— Nem pensar.

— Eu seguro você — ofereceu Mattias.

— Definitivamente não.

— Vai ser divertido.

— Também disseram isso sobre o sapo.

Mattias soltou uma gargalhada.

As crianças continuaram insistindo.

Durante vários minutos.

Eu recusava.

Eles insistiam.

Eu recusava novamente.

Até que comecei a perceber que a curiosidade estava vencendo o medo.

Porque eu realmente nunca tinha chegado perto de um cavalo antes.

Nunca.

Minha infância inteira tinha sido limitada aos muros do orfanato.

Aquilo era um mundo completamente novo.

— Só uma volta — disse Merliah.

— Bem pequena — completou Matteo.

— Prometo que não deixo você cair — garantiu Mattias.

Foi a pior combinação possível.

Porque acabei cedendo.

Minutos depois estava montada em um dos cavalos mais dóceis dos estábulos.

Meu coração parecia querer fugir do peito.

— Eu vou morrer.

— Não vai não — respondeu Mattias.

— Você não pode garantir isso.

— Posso.

— Não pode.

— Posso sim. Estou aqui para te segurar.

As crianças estavam quase dobradas de tanto rir.

Quando o cavalo começou a caminhar lentamente, senti minhas mãos suarem.

Mattias manteve uma das mãos próxima à sela enquanto me orientava.

— Relaxe.

— Fácil falar.

— Você está indo muito bem.

— Estou apavorada.

— É normal.

Aos poucos comecei a me acostumar.

O movimento deixou de parecer tão assustador.

E, pela primeira vez, consegui apreciar a sensação.

Foi nesse momento que ouvi uma voz fria atravessar o pátio.

— O que está acontecendo aqui?

Meu coração quase parou.

Porque eu conhecia aquela voz.

Muito bem.

Virei o rosto.

Marcello estava parado próximo à entrada dos estábulos.

A expressão dele era tão fechada que até os cavalos pareciam desconfortáveis.

Seu olhar passou por Mattias.

Depois por mim.

Depois voltou para Mattias.

E imediatamente percebi que aquilo não terminaria bem.

— Marcello — cumprimentou o instrutor.

— A aula não era para os gêmeos?

O tom de voz dele fez o ambiente inteiro esfriar.

Mattias pareceu surpreso.

— Já estávamos terminando. As crianças insistiram para que Cecília conhecesse o cavalo.

— E isso faz parte da aula delas?

O silêncio que se seguiu foi constrangedor.

Senti minhas bochechas queimarem.

Antes que qualquer um respondesse, desci do cavalo o mais rápido que consegui.

— A culpa foi minha Sr Moretti.

Marcello me lançou um olhar severo.

Não precisou dizer nada.

A reprovação estava toda ali.

Engoli em seco e me afastei imediatamente.

Fui me posicionar ao lado dos gêmeos.

Porém, para minha surpresa, eles resolveram entrar na discussão.

— A senhorita Cecília nunca tinha visto um cavalo de perto Pai!— protestou Matteo.

— Isso não é motivo para bronca — acrescentou Merliah.

Marcello desviou o olhar para os filhos.

— Não se metam nisso.

— Mas ela não fez nada errado — insistiu Matteo.

— Nem caiu — completou a irmã.

Vi algo vacilar no rosto dele.

Apenas por um segundo.

Talvez porque estivesse percebendo que os próprios filhos estavam defendendo Cecília.

Ou talvez porque soubesse que eles tinham razão.

Por fim, soltou um suspiro pesado.

— O almoço está pronto.

As crianças abriram a boca para continuar discutindo.

— Agora.

Os dois desistiram.

Mattias claramente tentava esconder um sorriso.

— Conversamos depois — avisou Marcello ao instrutor.

— Claro.

E então ele se afastou.

Os gêmeos seguiram para a casa principal.

Eu fui atrás deles.

Em silêncio.

Com uma sensação desagradável apertando meu peito.

Porque, por mais que tentasse ignorar, aquela não tinha sido a primeira vez que Marcello me fazia sentir como alguém que estava constantemente prestes a ultrapassar um limite invisível.

E, pela primeira vez desde que cheguei à fazenda, comecei a me perguntar se algum dia eu conseguiria entender exatamente onde aquele limite estava.

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