Capítulo 3

Existem momentos na vida em que tudo parece desacelerar.

Existem pessoas que deveriam permanecer no passado.

Não porque tenham feito algo terrível, mas porque encontrá-las de novo é como arrancar a casquinha de uma ferida que nunca cicatrizou direito.

Amanda Duarte era exatamente esse tipo de pessoa.

No instante em que nossos olhares se encontraram dentro da sala de fisioterapia, algo dentro de mim saiu completamente do eixo. E aquilo me irritava.

Fazia meses que aquela noite tinha acontecido, o que era tempo suficiente para ela ter virado apenas uma lembrança aleatória de uma noite em São Paulo. Tempo suficiente para eu não sentir absolutamente nada.

Mas ali estava eu, sentado naquela maca e com o coração acelerado igual um adolescente. Porque, de repente, eu não estava mais no departamento médico do clube. Não estava sentado numa maca com um tornozelo ferrado. Não estava preocupado com campeonato, contrato ou imprensa.

Eu estava de volta àquela noite. Àquele maldito hotel. Àquela mulher. E à sensação irritante de nunca ter entendido por que ela tinha desaparecido.

Amanda segurava a prancheta contra o peito como se aquilo pudesse protegê-la. De mim. Da conversa. Ou do que quer que estivesse acontecendo dentro daquela cabeça teimosa.

— Pode levantar a perna? — ela perguntou.

A voz estava calma.

Profissional.

Controlada.

Como se não tivesse passado a noite inteira na minha cama meses atrás.

Levantei a perna sem responder.

Amanda observou o movimento do tornozelo e fez uma anotação.

Nem sequer me olhou.

Nem uma vez.

Aquilo começou a me irritar de verdade.

— Então é isso?

Ela continuou escrevendo.

— Isso o quê?

— Você vai fingir que nunca me viu antes?

Amanda soltou um suspiro cansado.

— Estamos trabalhando.

— Não foi o que eu perguntei.

— Você está me encarando de novo — ela disse.

Pisquei.

— Porque você continua evitando responder.

— Porque você continua fazendo perguntas que não são da sua conta.

Aquilo arrancou uma risada sem humor da minha parte.

— Engraçado.

— O quê?

— Você decidir o que é ou não da minha conta depois de sumir da minha vida.

O maxilar dela travou.

Tinha acertado. Ótimo.

Eu estava cansado demais para fingir educação.

Amanda voltou a atenção para meu tornozelo.

— Dói aqui?

Ela pressionou um ponto específico e uma dor aguda atravessou minha perna.

— Porra.

— Então sim.

Ela anotou alguma coisa na prancheta como se estivesse genuinamente concentrada no trabalho. Como se meu coração não estivesse tentando sair pela boca desde o instante em que a vi. Como se ela não fosse a mulher em quem pensei mais vezes do que deveria nos últimos meses.

— Você sempre foi tão irritante? — ela perguntou.

— Você sempre fugiu dos problemas?

Amanda ergueu os olhos. Aqueles malditos olhos castanhos que eu lembrava bem demais.

— Eu não fugi.

— Ah, não?

— Não.

— Então me explica o que aconteceu naquela manhã.

Ela suspirou. Como alguém contando até dez para não cometer um homicídio.

— Nós passamos uma noite juntos.

Aquilo me irritou mais do que deveria. Talvez porque ela tivesse falado como quem comenta sobre o tempo. Como se aquela noite tivesse sido só mais uma. Como se eu não lembrasse de cada detalhe.

Cruzei os braços.

— Você realmente acredita nisso?

Amanda ergueu uma sobrancelha.

— Em quê?

— Que foi só uma noite.

— Foi exatamente o que aconteceu.

Soltei uma risada sem humor.

— Certo.

— Certo.

— Então você conversa durante quatro horas com qualquer desconhecido que encontra num bar?

Ela desviou o olhar.

Pequena vitória.

— Você leva qualquer desconhecida para o seu quarto de hotel?

— Você conta sobre a sua família para qualquer desconhecido?

Ela apertou os lábios.

— Para.

— Você chorou quando falou da sua mãe.

Amanda ficou imóvel. Completamente imóvel. E eu me arrependi do que tinha dito no mesmo instante em que aquelas palavras saíram da minha boca. Porque vi a mudança no rosto dela. A vulnerabilidade. A lembrança.

Mas já era tarde.

— Você lembra disso? — ela perguntou baixinho.

Aquilo me pegou desprevenido. Porque a resposta era simples. Eu me lembrava. De tudo. Lembrava dela sentada na cama com as pernas cruzadas enquanto falava sobre a mãe. Lembrava dela roubando metade das batatas fritas do serviço de quarto. Lembrava dela reclamando do ar-condicionado. Lembrava dela adormecendo primeiro. Lembrava do jeito que ela franzia o nariz quando estava tentando não rir.

Meses tinham passado, mesmo assim eu lembrava.

E aquilo era ridículo.

— Eu lembro de muita coisa.

O silêncio caiu entre nós. Pesado.

Amanda foi a primeira a desviar os olhos.

— Você deveria esquecer.

— Eu tentei — admiti.

A resposta escapou antes que eu pudesse impedir.

Vi o momento exato em que ela parou de respirar por um segundo. Só um segundo, mas eu percebi. Porque também tinha acontecido comigo.

Merda.

Aquilo não deveria ter saído, mas era verdade. Eu tinha tentado esquecer. Tentei ocupando minha agenda até não ter espaço para pensar. Tentei com treinos. Com viagens. Com jogos. Com mulheres.

Mas nada funcionou.

Porque Amanda tinha virado uma daquelas perguntas sem resposta que ficam martelando no fundo da cabeça. E eu odiava perguntas que não tinham resposta.

— Eu acordei sozinho.

Ela fechou os olhos.

— Caio...

— Não. Eu quero entender.

— Não existe nada para entender.

— Claro que existe.

Ela balançou a cabeça.

— Você está transformando isso em algo que nunca foi.

— E você está tentando fingir que não aconteceu.

Amanda soltou o ar lentamente.

— Nós nos conhecemos por algumas horas.

— Foram mais do que apenas algumas horas.

— Isso não muda nada.

— Mudou para mim.

As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.

Silêncio. Pesado. Perigoso.

Amanda me encarou e eu me arrependi imediatamente. Porque havia sinceridade demais naquela frase. Mais do que eu pretendia mostrar. Mais do que estava disposto a admitir.

— Você não deveria dizer coisas assim.

— Por quê?

— Porque não ajudam.

Ri sem humor.

— Engraçado.

— O quê?

— Eu passei meses querendo saber por que você tinha ido embora.

Amanda desviou os olhos.

— Foi melhor assim.

— Para quem?

Nenhuma resposta.

Meu peito começou a apertar, porque aquilo não fazia sentido. Nada fazia.

Ela estava nervosa desde que me viu. Parecia até um pouco assustada. Sua postura era defensiva. Como se estivesse esperando aquele momento. Como se soubesse que ele acabaria chegando.

— Você está solteira?

Amanda fechou os olhos.

— De novo isso?

— É uma pergunta simples.

— Não é da sua conta.

— Tem namorado?

— Porque quer saber?

Meu coração deu uma pequena cambalhota com um pontinha de esperança. Idiota.

— Noivo?

— Não.

— Casada?

— Não.

— Então...

— Então nada.

Cruzei os braços.

— Você continua fugindo.

— E você continua insistindo.

— Porque alguma coisa está errada.

Amanda ficou imóvel.

Ali.

Naquele instante.

Eu soube.

Tinha acertado.

Ela não respondeu, não discutiu, não rebateu.

Nada.

E aquilo falou muito mais do que qualquer palavra.

Meu olhar desceu involuntariamente. Primeiro para a prancheta. Depois para as mãos dela. Depois para a barriga.

Pequena, mas impossível de ignorar.

O ar ficou preso nos meus pulmões.

Outra vez.

Amanda percebeu imediatamente e tapou a barriga com o jaleco. Seus ombros ficaram rígidos.

Proteção.

Meu coração começou a acelerar porque as contas continuavam fazendo sentido. Porque tudo apontava para a mesma direção. E porque eu começava a ter medo de estar certo.

— Amanda...

— Não.

— Você nem sabe o que vou perguntar.

— Sei sim. — A voz dela saiu baixa, quase um sussurro.

— Então me responde.

— Não.

— Por quê?

— Porque não.

— Isso não é resposta.

— É a única que você vai receber.

Passei a mão no rosto. A frustração crescia rápido porque eu sentia que estava diante de uma porta. E Amanda estava usando todas as forças para mantê-la fechada.

— Você está escondendo alguma coisa.

Ela não respondeu.

— Amanda.

Silêncio.

— Olha para mim.

Ela não olhou.

— Amanda.

Nada.

— Olha para mim.

Finalmente, ela ergueu os olhos e eu quase desejei que não tivesse feito isso. Porque havia lágrimas ali. Não caindo, mas presentes.

Brilhando.

Seguradas por pura teimosia.

E aquilo me atingiu como um soco porque Amanda nunca tinha me parecido frágil.

Nunca.

Ela era forte. Impaciente. Teimosa. Difícil.

Agora parecia carregar um peso enorme sozinha.

E eu não fazia ideia do motivo.

— Você acha que foi fácil? — ela perguntou.

Minha respiração falhou.

— O quê?

— Ir embora.

O silêncio tomou conta da sala e Amanda desviou os olhos novamente, mas já era tarde.

Eu tinha ouvido.

Tinha percebido.

E pela primeira vez comecei a enxergar uma parte da verdade.

Ela não tinha ido embora porque não se importava.

Ela tinha ido embora apesar de se importar.

E isso mudava tudo.

— Então por que fez isso?

Ela demorou para responder. Tempo demais.

— Porque era o certo.

— Para quem?

Nenhuma resposta.

— Amanda.

Nada.

— Para quem?

Ela engoliu em seco e aquilo respondeu mais do que qualquer palavra.

Meu coração acelerou.

Uma sensação estranha começou a crescer dentro do meu peito. Era uma mistura de sentimentos.

Ansiedade.

Esperança.

Medo.

A pior parte era que eu não reconhecia a mim mesmo. Eu deveria estar preocupado com o meu tornozelo.

Com o clássico que estava se aproximando.

Com a minha recuperação.

Com a final da temporada.

Mas nada disso parecia importante naquele momento. Tudo o que eu conseguia pensar era que Amanda estava ali. Depois de meses desaparecida da minha vida. E continuava sendo a única mulher que eu nunca consegui esquecer.

Aquilo não fazia sentido.

Eu não era o cara que ficava preso ao passado. Nunca fui. Minha vida inteira foi construída olhando para frente.

Próximo jogo.

Próximo campeonato.

Próxima conquista.

Mas Amanda parecia uma exceção irritante para todas as regras que eu tinha criado e talvez fosse exatamente por isso que ela me assustava tanto. Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha controle da situação.

E eu odiava perder o controle.

— Seu atendimento acabou — ela disse.

A voz falhou. Só um pouco. Mas eu percebi.

— Amanda...

— Pode ir embora, Caio.

— Não.

— Por favor.

Aquilo me fez congelar.

Por favor.

Não era uma ordem. Não era irritação. Era um pedido.

E eu não sabia o que fazer com aquilo.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

Observando-a.

Tentando entender.

Tentando encaixar todas as peças. Sem conseguir. Porque havia alguma coisa faltando. Alguma coisa enorme.

Eu sentia.

Amanda também sabia que eu sentia, por isso parecia tão assustada. Por isso continuava me empurrando para longe, mas eu estava cansado de ficar longe. Cansado de perguntas sem respostas. Cansado de sentir que havia perdido um capítulo inteiro da minha própria história.

Levantei devagar da maca e o tornozelo reclamou imediatamente.

Nem liguei.

Meus olhos continuaram presos aos dela.

— Eu vou descobrir.

Amanda ficou imóvel.

— Descobrir o quê?

— O que você está escondendo de mim.

A cor desapareceu do rosto dela. Completamente. E naquele momento eu tive certeza. Existia um segredo. E esse segredo tinha tudo a ver comigo.

Tudo.

Amanda apertou a prancheta contra o peito como se aquilo pudesse protegê-la, mas não disse nada.

Nem uma palavra.

E o silêncio dela respondeu muito mais do que qualquer explicação poderia responder.

Quando saí da sala de fisioterapia, meu tornozelo era o menor dos meus problemas. Porque, pela primeira vez desde aquela manhã em São Paulo, Amanda Duarte estava de volta à minha vida. E alguma coisa me dizia que ela estava prestes a virar meu mundo de cabeça para baixo outra vez.

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