Capítulo 2

CAIO

Alguns meses atrás...

São Paulo depois de uma vitória grande era sempre a mesma loucura.

Luzes.

Música alta.

Gente bonita.

Câmeras escondidas em cada canto.

O tipo de noite que meus amigos adoravam.

E que eu suportava.

— Tu tá com cara de quem queria estar morto — Murilo falou do meu lado enquanto o segurança abria espaço pra gente entrar no camarote.

— Eu só queria dormir.

— Dormir é desperdício depois de meter dois gols no clássico.

Revirei os olhos enquanto entrava no lugar.

A música eletrônica fazia o chão vibrar. O cheiro misturado de perfume caro, bebida e fumaça artificial tomou conta do ambiente imediatamente.

Mulheres sorriram na nossa direção assim que reconheceram a gente.

Claro que reconheceram.

Ser jogador famoso significava nunca entrar invisível em lugar nenhum.

— Hoje eu vou casar — Murilo anunciou pegando uma dose na bandeja de um garçom.

— Tu fala isso toda semana.

— E toda semana eu me decepciono.

Ignorei ele e caminhei até o bar no fundo do camarote.

Eu estava cansado.

Fisicamente cansado.

A temporada estava pesada, a imprensa estava infernal e meu empresário não parava de me encher o saco sobre renovação de contrato.

Tudo parecia barulho ultimamente.

— O de sempre? — o barman perguntou.

Assenti.

Peguei o copo de uísque e me apoiei no balcão enquanto observava a pista lotada.

As pessoas achavam que vida de jogador era perfeita.

Dinheiro.

Fama.

Mulheres.

Mas ninguém falava sobre o fato de que, depois de um tempo, tudo começava a parecer igual.

Mesmas festas.

Mesmas conversas.

Mesmas pessoas tentando arrancar alguma coisa de você.

Eu já estava pensando em inventar uma desculpa pra ir embora quando vi ela.

Do outro lado do bar.

Vestido preto.

Cabelo preso num coque bagunçado.

Taça de gin na mão.

Linda pra caralho.

Mas não foi isso que me chamou atenção primeiro.

Foi o fato de ela não estar olhando pra mim.

Nem um pouco.

Enquanto praticamente metade do lugar tentava discretamente chamar minha atenção, aquela mulher parecia completamente indiferente à minha existência.

Aquilo me pegou imediatamente.

— Ih — Murilo apareceu do meu lado com um sorriso de quem já conhecia minha cara. — Achou problema.

— Cala a boca.

— Vai lá então, camisa dez.

Bufei, mas acabei indo mesmo assim.

Talvez fosse o álcool.

Talvez o ego.

Ou talvez eu só estivesse cansado de mulheres que me olhavam como se eu fosse um prêmio.

Aproximei devagar enquanto ela mexia no celular apoiada no balcão.

— Você tá ocupando meu lugar.

Ela levantou os olhos lentamente.

Castanhos.

Bonitos pra caralho.

E completamente sem paciência.

— Então senta em outro.

Eu ri automaticamente.

— Grossa assim sem nem me conhecer?

— Funciona na maioria das vezes.

Aquilo me pegou desprevenido.

Normalmente as mulheres ficavam nervosas perto de mim.

Ou tentavam impressionar.

Ela parecia só… irritada.

— E se eu disser que fiquei interessado? — perguntei.

— Eu vou sobreviver.

Quase gargalhei.

Definitivamente diferente.

Apoiei o cotovelo no balcão.

— Qual teu nome?

— Você sempre chega incomodando mulheres desconhecidas em bar ou hoje é uma ocasião especial?

— Hoje eu tô inspirado.

Ela finalmente tomou um gole da bebida antes de responder:

— Amanda.

O nome combinava com ela de um jeito estranho.

Simples.

Bonito.

Forte.

— Caio.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Eu sei.

Ah.

Então ela sabia quem eu era.

Interessante.

— E mesmo assim tá me tratando mal?

— Principalmente por isso.

Soltei uma risada curta.

— Eu mereço saber o motivo?

Amanda inclinou levemente a cabeça enquanto me analisava.

— Jogador de futebol normalmente vem acompanhado de ego inflado e problemas emocionais.

— Caralho.

— Tô errada?

Sorri de lado.

— Talvez um pouco.

— Além disso — ela continuou — vocês acham que qualquer mulher vai cair aos pés de vocês porque aparecem na televisão.

— E você não vai?

— Nem um pouco.

Aquilo deveria ter me irritado.

Mas fez exatamente o contrário.

Fazia muito tempo que alguém falava comigo daquele jeito.

Sem filtro.

Sem interesse.

Sem fingimento.

— Então por que ainda tá conversando comigo? — perguntei.

Amanda sorriu pela primeira vez.

E foi aí que eu realmente me fodi.

Porque aquele sorriso era absurdo.

Discreto.

Bonito.

Perigoso.

— Porque agora eu fiquei curiosa.

Meu peito bateu estranho.

Merda.

Conversar com ela era fácil demais.

Esse foi o primeiro problema.

O segundo foi perceber que eu estava me divertindo de verdade pela primeira vez em semanas.

Talvez meses.

Amanda não tentava impressionar.

Não ria forçado.

Não ficava puxando assunto sobre futebol.

Ela só… conversava comigo como se eu fosse normal.

E aquilo era viciante.

Descobri que ela morava em São Paulo há pouco tempo.

Que trabalhava com fisioterapia esportiva.

E que odiava lugares lotados como aquele.

— Então por que veio? — perguntei.

— Minha amiga terminou um namoro e decidiu que precisava beber até esquecer o ex.

Olhei ao redor.

— Cadê ela?

Amanda apontou discretamente pra pista de dança.

A amiga estava aos beijos com um cara aleatório.

— Impressionante recuperação emocional.

Ela riu.

E eu gostei daquilo mais do que deveria.

Horas passaram rápido demais.

Quando percebi, eu já estava sentado ao lado dela falando sobre qualquer coisa idiota enquanto a música continuava alta ao redor da gente.

— Você não parece jogador de futebol — Amanda comentou de repente.

— Isso foi ofensivo?

— Não. Só estranho.

— Estranho como?

Ela me observou por alguns segundos antes de responder:

— Você parece cansado o tempo inteiro.

A frase me pegou desprevenido.

Meu sorriso diminuiu automaticamente.

Porque ela estava certa.

E porque fazia muito tempo que alguém realmente me olhava daquele jeito.

— Você tirou essa conclusão em duas horas?

— Foi suficiente.

Desviei o olhar por um instante.

Não gostei do jeito que aquilo mexeu comigo.

Então preferi brincar.

— Cuidado. Daqui a pouco vou achar que você tá interessada.

Amanda soltou uma risada baixa.

— Não se emociona, jogador.

Meu Deus.

Ela era um problema.

E eu já sabia disso.

A certa altura da noite, alguém reconheceu a gente.

Depois outro.

E mais outro.

Celulares começaram a apontar discretamente na nossa direção.

Amanda percebeu na hora.

O corpo dela mudou imediatamente.

Mais fechado.

Mais distante.

— Acho que minha bateria social acabou — ela comentou pegando a bolsa.

— Já vai embora?

Ela me encarou como se estivesse decidindo alguma coisa internamente.

— Você sempre chama atenção demais.

— Culpa do meu rostinho bonito.

Amanda revirou os olhos.

— Ego inflado. Eu avisei.

Sorri.

— Deixa eu te levar em casa.

— Não.

Resposta rápida demais.

— Eu não sou um serial killer.

— Isso é exatamente o que serial killers diriam.

Ri outra vez.

Ela também tentou segurar o sorriso, mas falhou.

Vitória.

— Então me dá teu número pelo menos.

Amanda hesitou.

Por um segundo, achei que ela fosse negar.

Mas então pegou meu celular da minha mão e digitou.

— Pronto.

Olhei pra tela.

“Amanda Não Atende Jogadores”

Gargalhei alto.

— Você é impossível.

— Boa noite, Caio.

Ela virou antes que eu pudesse responder.

Fiquei observando Amanda atravessar o bar até desaparecer no meio das pessoas.

E, pela primeira vez em muito tempo…

Eu fui atrás.

Saí do camarote ignorando Murilo gritando alguma coisa no fundo e alcancei Amanda perto da saída do clube.

— Tu tem problema em ouvir “boa noite”, né?

Ela virou surpresa.

O vento da madrugada bagunçou alguns fios do cabelo dela.

— Você ainda tá aqui?

— Infelizmente me apeguei.

Amanda riu baixinho.

E aquilo me deu coragem demais.

Aproximei um passo.

Depois outro.

Até sentir o perfume dela outra vez.

Ela percebeu.

Porque o olhar caiu rapidamente pra minha boca antes de subir pros meus olhos de novo.

Porra.

Meu corpo inteiro respondeu na mesma hora.

— Amanda…

— Isso normalmente funciona com você? — ela perguntou baixo.

— O quê?

— Esse olhar.

Sorri de lado.

— Tá funcionando?

Ela demorou um segundo pra responder.

Um segundo importante pra caralho.

— Talvez.

Foi o suficiente.

Segurei delicadamente a cintura dela e puxei devagar.

Amanda não recuou.

Nem um centímetro.

O beijo começou lento.

Mas só no começo.

Porque no instante em que a boca dela encontrou a minha, alguma coisa explodiu dentro de mim.

Intenso.

Quente.

Viciante.

Amanda segurou minha camisa enquanto eu aprofundava o beijo sem conseguir parar.

Meu Deus.

Fazia muito tempo que eu não sentia vontade de beijar alguém daquele jeito.

Sem pressa.

Sem atuação.

Sem pensar em mais nada.

Quando nos afastamos, ambos estávamos respirando mais forte.

Ela me encarou em silêncio.

E eu tive a sensação absurda de que aquela mulher podia acabar comigo sem esforço nenhum.

— Vem comigo — falei baixo.

Amanda hesitou.

Vi claramente o conflito passando pelo rosto dela.

Razão contra vontade.

Mas então ela mordeu levemente o lábio inferior e respondeu:

— Só porque eu quero ir embora daqui.

Mentira.

Sorri sem conseguir evitar.

A viagem até o hotel foi silenciosa.

Mas daquele tipo perigoso.

Cheio de tensão.

Minhas mãos coçavam vontade de tocar nela de novo.

E Amanda parecia igualmente afetada porque evitava olhar diretamente pra mim o tempo inteiro.

Assim que a porta do quarto fechou atrás da gente, eu puxei ela pela cintura outra vez.

Amanda soltou uma respiração baixa quando nossas bocas se encontraram de novo.

Mais intenso dessa vez.

Mais desesperado.

As mãos dela entraram no meu cabelo enquanto eu pressionava seu corpo contra o meu.

Tropeçamos até a parede mais próxima ainda se beijando.

Roupas começaram a desaparecer pelo caminho.

Beijos pelo pescoço.

Respiração descompassada.

Mãos explorando pele como se estivéssemos famintos um pelo outro.

Mas o que mais mexeu comigo foi perceber que Amanda me olhava.

De verdade.

Sem deslumbre.

Sem expectativa.

Sem interesse escondido.

Só desejo.

E aquilo me destruiu silenciosamente.

Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo…

Eu não fui o jogador.

Não fui o ídolo.

Não fui a manchete.

Não fui o camisa dez.

Com Amanda, eu fui só um homem.

E talvez tenha sido exatamente aí que tudo começou a dar errado.

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