Mundo de ficçãoIniciar sessãoCAIO
— O bebê é meu? — A pergunta escapou antes que eu pudesse impedir.
Não foi planejada. Não pensei nas palavras nem na forma como elas saíram. Simplesmente aconteceu.
Durante todo o caminho entre o departamento médico e o estacionamento, minha cabeça trabalhou sem parar.
As datas.
A noite em São Paulo.
O desaparecimento dela.
A barriga que ela tentou esconder sempre que percebia meu olhar.
Tudo parecia se encaixar perfeitamente e, mesmo assim, eu torcia para estar errado. Eu sempre sonhei em ser pai, mas agora, não era o momento certo. Minha vida inteira sempre foi organizada em temporadas. Mas, enquanto observava Amanda parada à minha frente, alguma coisa dentro de mim já estava preparada para ouvir um "sim".
Ou talvez eu só estivesse tentando me convencer disso.
O estacionamento do CT já estava quase vazio, o céu ganhava tons alaranjados. E, mesmo assim, eu só conseguia ouvir o próprio coração.
Amanda não respondeu, apenas ficou imóvel. Seus olhos castanhos arregalados, os dedos apertando a alça da bolsa com tanta força que os nós ficaram brancos.
Aquele silêncio dizia mais do que qualquer palavra.
— Amanda...
Ela fechou os olhos. Inspirou profundamente e depois expirou bem devagar.
— Me responde.
Ela abriu os olhos novamente. Havia medo ali, mas também culpa. Uma culpa tão evidente que quase me fez desistir da pergunta.
— Eu... — A voz falhou. — Eu preciso ir embora.
Balancei a cabeça.
— Não antes de responder.
— Caio...
— Não faz isso comigo outra vez.
Ela pareceu sentir o peso daquelas palavras. Vi quando seus ombros cederam por um instante. Quando o brilho nos olhos aumentou. Quando os lábios tremeram discretamente. Por um segundo, tive certeza de que ela diria a verdade.
Ela respirou fundo e olhou diretamente para mim antes de responder:
— Não.
Franzi a testa.
— O quê?
Ela repetiu, dessa vez um pouco mais firme.
— O bebê não é seu.
O mundo pareceu parar. Não porque a resposta fosse exatamente inesperada, mas porque eu não consegui acreditar nela.
Fiquei olhando para Amanda. Esperando uma explicação. Um "mas". Nada. Ela permaneceu em silêncio. Meu cérebro tentou reorganizar todas as peças.
— Tem certeza?
Ela assentiu imediatamente.
— Tenho.
Meu olhar desceu involuntariamente até a barriga dela. Havia algo estranho. Amanda sempre teve dificuldade para mentir.
Naquela noite em São Paulo, bastava franzir a testa que eu percebia quando ela estava escondendo alguma coisa. Agora... Ela parecia ensaiada. Como alguém que repetiu aquela resposta centenas de vezes diante do espelho.
— As datas...
— Coincidência.
Respondeu antes mesmo que eu terminasse.
— Coincidência?
— Sim.
Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando convencer a mim mesmo de que aquilo bastava. Que eu deveria aceitar. Que aquela história não me dizia respeito.
— O pai sabe?
Amanda hesitou. Foi apenas um segundo, mas eu percebi.
— Sabe.
A resposta saiu baixa.
— E vocês estão juntos?
Outra pausa.
— Estamos.
Meu coração afundou. Por algum motivo completamente irracional, aquilo doeu. Era ridículo. Nós tivemos uma única noite e ela não me devia satisfação nenhuma, mas imaginar outro homem ao lado dela, outro homem ouvindo os batimentos daquele bebê... Fez alguma coisa apertar dentro do meu peito.
Desviei o olhar e passei a mão na nuca.
Que inferno.
Eu deveria estar aliviado, em vez disso, parecia que tinha acabado de perder alguma coisa que nunca chegou a ser minha.
— Certo.
Foi a única palavra que consegui dizer.
Amanda soltou o ar discretamente. Ela parecia... aliviada. Ela evitava me encarar.
Minha cabeça voltou imediatamente para a sala de fisioterapia. O medo que vi nos olhos dela. A forma como protegeu a barriga. Nada daquilo combinava com a resposta que acabara de me dar.
Talvez eu estivesse paranoico ou talvez fosse só o meu orgulho ferido.
Eu não podia continuar criando teorias sobre a gravidez de uma mulher que já tinha deixado claro que aquele filho não era meu.
— Espero que ele cuide muito bem de vocês.
Amanda fechou os olhos por um instante.
— Ele vai.
A frase saiu tão baixa que quase desapareceu com o vento e eu assenti lentamente. Não havia mais o que dizer. Mas foi naquele instante que compreendi uma verdade incômoda.
Independentemente de quem fosse o pai daquele bebê, eu ainda não tinha conseguido esquecê-la.
A constatação me acertou como um soco.
Fiquei olhando para Amanda por mais alguns segundos, tentando convencer a mim mesmo de que aquilo era apenas orgulho. Ego. O desconforto de reencontrar alguém que tinha ido embora sem dar explicações.
— Bom... — passei a mão na nuca, procurando as palavras. — Acho que agora está tudo esclarecido.
Amanda apenas assentiu.
O vento bagunçou alguns fios do cabelo dela, que escaparam do coque. Pela primeira vez desde que nos reencontramos, ela parecia menor do que eu me lembrava. Mais cansada. Talvez fosse por causa da gravidez.
— Fico feliz por você.
Aquela frase saiu estranha.
— Feliz?
Dei de ombros.
— Se você está feliz construindo uma família...
As palavras ficaram presas na garganta. Família. Nunca imaginei que essa palavra pudesse doer.
— Obrigada.
Ficamos em silêncio. O tipo de silêncio desconfortável que parece durar minutos, quando na verdade passam apenas alguns segundos. Eu deveria ir embora, mas meus pés continuavam imóveis.
Então me lembrei da primeira vez que a vi.
Ela estava sentada sozinha no balcão do bar do hotel, mexendo distraidamente no copo de gin tônica. Meus amigos tinham apostado que eu não conseguiria arrancar sequer um sorriso dela. Eu perdi a aposta. Na verdade, ela quase me expulsou da mesa.
Sorri sozinho ao lembrar.
— O que foi? — Amanda perguntou.
Balancei a cabeça.
— Nada.
— Você sorriu.
— Estava lembrando da primeira coisa que você me disse quando nos conhecemos.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Não faz isso.
— Fazer o quê?
— Ficar lembrando daquela noite.
— É difícil esquecer.
— Para mim também.
Meu coração acelerou.
— Então você também lembra.
— Algumas pessoas são difíceis de esquecer.
Meu peito apertou e antes que eu pudesse responder, ela continuou:
— Mas isso não muda nada.
E a esperança morreu tão rápido quanto surgiu. Ela tinha razão. Não mudava.
Ela estava grávida. Existia outro homem na vida dela e eu não fazia mais parte daquilo.
Quando cheguei em casa, meu tornozelo doía, mas nem de longe era o que mais incomodava. Fui até a cozinha do apartamento, abri a geladeira e peguei uma garrafa de água. Liguei a televisão em um canal qualquer e fiquei ali jogado no sofá.
Desliguei cinco minutos depois. Minha cabeça continuava presa no estacionamento. No olhar dela. Naquela resposta.
"O bebê não é seu."
Quanto mais eu repetia a frase mentalmente, menos ela parecia verdadeira. Era ridículo porque Amanda nunca me deu motivo para desconfiar dela. Na verdade, eu mal a conhecia. Mesmo assim... sentia que alguma coisa estava errada.
Peguei o celular e abri nossa conversa, ou melhor, a ausência dela. Porque nunca existiu uma conversa.
Meu telefone vibrou sobre o braço do sofá. Era Murilo.
— Fala.
— Tá vivo?
— Infelizmente.
Ele riu.
— Dramático como sempre.
— O que você quer?
— Fiquei sabendo que o médico vai liberar você para começar fisioterapia intensiva amanhã.
— Que ótimo.
— Tá com essa animação toda por quê?
Olhei pela janela do apartamento, as luzes da cidade brilhavam lá embaixo.
— Nada.
— Mentiroso.
Murilo me conhecia havia anos e sabia identificar meu humor pela respiração.
— É por causa da fisioterapeuta nova?
Fiquei em silêncio.
— Caralho...
Ouvi a risada dele do outro lado da linha.
— Eu sabia.
— Você não sabe de nada.
— Então por que ficou encarando a mulher igual um maluco hoje?
Passei a mão no rosto.
— A gente se conhecia.
— Ex-namorada?
— Não.
— Ficante?
— Nem isso.
— Como assim "nem isso"?
— Foi... complicado.
— Ah.
Murilo soltou um assobio divertido.
— Então é pior.
Revirei os olhos.
— Boa noite.
Desliguei antes que ele continuasse.







