Capítulo 7

CAIO

Sempre achei que confiar na intuição era coisa de gente supersticiosa.

No futebol, você aprende cedo que decisões precisam ser tomadas com base no que está diante dos seus olhos.

Você estuda o adversário.

Analisa vídeos.

Decora padrões.

Treina exaustivamente até o corpo responder antes mesmo que o cérebro precise pensar.

Não existe espaço para achismos quando um jogo pode ser decidido em um segundo.

Foi assim que construí minha carreira.

Confiando no que era concreto.

No que podia ser visto.

Provado.

Explicado.

Mas, desde que Amanda reapareceu na minha vida, nada parecia seguir essa lógica.

Ela tinha respondido todas as minhas perguntas.

Dissera que o bebê não era meu.

Que o pai sabia da gravidez.

Que estava presente.

Qualquer pessoa sensata aceitaria aquilo e seguiria em frente.

Então por que eu não conseguia?

Por que, toda vez que fechava os olhos, lembrava da maneira como ela desviou o olhar antes de responder?

Da pausa quase imperceptível entre uma pergunta e outra.

Da forma como apertou a bolsa contra o corpo quando falei do bebê.

Aquilo não saía da minha cabeça.

Respirei fundo enquanto terminava de amarrar o cadarço do tênis.

Já passava das seis da manhã quando saí de casa.

Dormir tinha sido praticamente impossível.

Passei metade da madrugada encarando o teto do apartamento, revivendo a conversa no estacionamento como se meu cérebro estivesse procurando um detalhe que tivesse deixado escapar.

Ridículo.

Era exatamente isso que eu repetia para mim mesmo.

Você está inventando problema onde não existe.

Amanda já tinha seguido a vida.

Existia outro homem.

Outro pai.

Outra história.

Fim.

Era simples.

Pelo menos deveria ser.


Assim que entrei no estacionamento do CT, reconheci a caminhonete de Murilo parada ao lado da minha vaga.

Nem precisei desligar o motor para vê-lo surgir com dois copos de café nas mãos.

— Sabia que você ia precisar disso.

Desci do carro rindo.

— Você virou barista agora?

— Não.

Entregou um dos copos para mim.

— Só estou evitando que você ataque alguém antes das oito da manhã.

Peguei o café.

— Muito generoso da sua parte.

— Eu sei.

Começamos a caminhar em direção ao prédio principal.

O centro de treinamento ainda estava silencioso.

Alguns funcionários organizavam os materiais no campo.

Os jardineiros terminavam de molhar o gramado.

O cheiro de café recém-passado misturado ao da grama úmida sempre fazia aquele lugar parecer uma segunda casa.

Murilo tomou um gole antes de falar:

— Dormiu?

Fiz uma careta.

— O suficiente para continuar vivo.

— Então dormiu mal.

Ele me conhecia havia tempo demais.

Desde as categorias de base.

Passamos pela primeira convocação juntos.

Pela primeira derrota importante.

Pelos primeiros contratos.

Era praticamente impossível esconder qualquer coisa dele.

— Está pensando naquela fisioterapeuta.

Não foi uma pergunta.

Foi uma afirmação.

Revirei os olhos.

— Você não desiste desse assunto?

— Não enquanto você continuar fazendo essa cara.

— Que cara?

Murilo parou de andar e me encarou.

— A cara de quem levou um pé na bunda.

Quase engasguei com o café.

— Vai para o inferno.

Ele gargalhou.

— Acertei.

Empurrei o ombro dele.

— Você fala demais.

— E você está estranho demais.

Continuamos caminhando.

Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

Achei que o assunto tinha morrido.

Até ele voltar à carga.

— Vocês tiveram alguma coisa?

Suspirei.

— Não exatamente.

— Como assim "não exatamente"?

— Foi uma noite.

Murilo arqueou as sobrancelhas.

— Uma noite?

Assenti.

— Meses atrás.

Em São Paulo.

Ele ficou me encarando.

Esperando que eu continuasse.

— E depois?

— Depois ela foi embora antes de eu acordar.

— Sem deixar telefone?

— Sem deixar nada.

Murilo assobiou baixo.

— Agora entendi essa sua cara de cachorro abandonado.

— Você e essa comparação de merda...

— Estou errado?

Pensei por alguns segundos.

— Não sei.

Era a resposta mais sincera que eu podia dar.

Porque realmente não sabia.

Até reencontrar Amanda, eu nunca tinha parado para pensar naquela noite.

Ou melhor...

Nunca tinha admitido o quanto ela tinha ficado na minha cabeça.

Sempre que lembrava dela, dizia para mim mesmo que era apenas curiosidade.

O ego ferido porque uma mulher tinha ido embora sem pedir meu número.

Mas agora...

Agora eu não tinha mais tanta certeza.


A manhã passou devagar.

Enquanto o restante do elenco treinava no campo principal, fiquei na academia seguindo o cronograma de recuperação.

Fortalecimento.

Mobilidade.

Equilíbrio.

Exercícios repetitivos que qualquer jogador lesionado aprende a odiar.

— Mais cinco repetições.

Lucas observava atentamente meus movimentos.

Obedeci sem reclamar.

A dor havia diminuído bastante.

Ainda existia um leve incômodo quando colocava peso sobre o tornozelo, mas nada comparado aos primeiros dias.

— Excelente.

Ele anotou alguma coisa na prancheta.

— Se continuar assim, na próxima semana você já começa a correr no gramado.

Sorri.

Finalmente uma boa notícia.

— Achei que demoraria mais.

— Sua recuperação está acima da média.

Levantei da plataforma de equilíbrio.

— Mérito meu.

— Mérito da fisioterapeuta.

Olhei para Lucas.

— Ela comentou isso?

— Comentou.

Disse que você segue exatamente tudo o que ela manda.

Sorri de canto.

— Nunca imaginei que receber elogio por obedecer fosse me deixar feliz.

Lucas riu.

— Aproveita enquanto dura.

Ela não costuma elogiar ninguém.

A informação ficou ecoando na minha cabeça.

Não fazia sentido me importar.

Mas me importei.

Muito mais do que deveria.


Pouco antes das dez horas caminhei até o departamento médico.

Conhecia aquele corredor de cor.

Infelizmente, lesões fazem parte da profissão.

Mesmo assim, naquela manhã, parecia diferente.

Porque eu sabia exatamente quem encontraria atrás daquela porta.

Respirei fundo antes de bater.

— Entra.

Empurrei a porta devagar.

Amanda estava organizando alguns elásticos terapêuticos sobre uma bancada.

Usava o uniforme azul-marinho do clube.

O cabelo preso num coque alto.

Alguns fios insistiam em escapar perto da nuca.

Ela levantou a cabeça.

Nossos olhares se encontraram por um breve instante.

Vi quando ela respirou discretamente antes de falar.

— Bom dia.

A voz saiu calma.

Profissional.

Como se a conversa no estacionamento nunca tivesse acontecido.

— Bom dia.

Fechei a porta atrás de mim.

Por alguns segundos, apenas o barulho do ar-condicionado preenchia a sala.

Amanda pegou minha ficha.

Folheou rapidamente.

Depois apontou para a maca.

— Pode sentar.

Obedeci em silêncio.

Ela aproximou um banco com rodinhas e se posicionou à minha frente.

Quando ajoelhou para retirar a tornozeleira, senti um perfume conhecido.

O mesmo perfume daquela noite em São Paulo.

Leve.

Discreto.

Mas suficiente para despertar lembranças que eu vinha tentando enterrar.

Ela percebeu que eu a observava.

Levantou os olhos.

— Algum problema?

Sorri de lado.

— Nenhum.

Era mentira.

O problema era justamente perceber que bastava ela estar perto para meu coração esquecer completamente que deveria seguir em frente.

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