Mundo de ficçãoIniciar sessãoCAIO
Lesão nunca combinou comigo. Desde que subi para o profissional, minha rotina tinha sido construída em cima de uma única palavra: constância. Meu corpo era minha ferramenta de trabalho e, durante anos, ele nunca tinha me deixado na mão. Alguns hematomas aqui, uma pancada ali, nada que me afastasse dos gramados por muito tempo.
Até aquele maldito segundo tempo.
Naquela manhã, porém, acordei convencido de que a pior parte já tinha passado. Eu já sentia que o meu tornozelo estava muito melhor. O inchaço quase tinha desaparecido e eu conseguia apoiar o pé no chão sem sentir aquela fisgada irritante.
Se dependesse de mim, já estaria treinando com o restante do elenco. Sorri enquanto estacionava no centro de treinamento.
Hoje era o dia. Eu sentia isso.
Desci do carro ainda terminando um café quando ouvi uma buzina curta, me virei e vi quando Murilo colocou a cabeça para fora de sua caminhonete.
— Tá sorrindo sozinho por quê?
Fechei a porta do carro.
— Acordei inspirado.
— Mentira.
— Como você pode saber se é mentira?
Ele desceu do carro rindo.
— Jogador de futebol não acorda inspirado numa terça-feira. Acorda reclamando do treino.
— Engraçadinho.
Entramos juntos no prédio principal, alguns funcionários já organizavam o material para o treino da manhã, os roupeiros atravessavam o corredor carregando caixas de uniformes. O cheiro de café fresco se misturava ao da grama molhada que vinha dos campos.
Era estranho como aquele lugar sempre conseguia me acalmar, mesmo nos dias ruins.
— Então... — Murilo começou. — Qual é a aposta de hoje?
Olhei para ele.
— Aposta?
— Você vai sair da avaliação pulando de felicidade ou resmungando porque a Amanda te deixou preso na fisioterapia por mais uma semana?
Bufei.
— Ela não vai fazer isso.
— Tá confiante demais, irmão.
— Porque eu sei que estou bem.
Murilo abaixou os olhos para meu tornozelo.
— Você acha que está bem.
— Dá na mesma.
— Não dá, não.
Entramos no vestiário e alguns companheiros já trocavam de roupa antes do treino. Cumprimentei um, outro, enquanto pegava minha garrafa de água e Murilo continuava atrás de mim.
— Aposto um jantar.
Revirei os olhos.
— Você não larga do meu pé.
— Um jantar.
— E se eu for liberado?
— Eu pago.
— E se não?
Ele abriu um sorriso largo.
— Eu escolho o lugar e você paga.
Pensei por alguns segundos.
— Fechado.
Murilo estendeu a mão e apertamos.
— Vai preparando a carteira.
Balancei a cabeça, rindo.
— Você está confiante demais.
— Veremos o que a doutora Amanda vai dizer.
Quase engasguei com a água.
— Cara...
— O quê?
— Você fala dela como se fosse minha mãe.
Murilo gargalhou.
— Pior que ela manda em você igual.
Saí do vestiário antes que ele continuasse. Passei primeiro pela academia para fazer o aquecimento. Lucas insistia que toda reavaliação começasse com alguns exercícios leves para evitar resultados mascarados pela rigidez muscular.
Quando terminei, ele entrou na sala.
— Preparado?
— Mais do que nunca.
Lucas sorriu.
— Gosto dessa sua confiança.
— Então já pode me liberar.
— Calma.
Riu enquanto anotava alguma coisa na prancheta.
— Primeiro vamos ter que te avaliar.
Seguimos pelo corredor até o departamento médico. Senti meu coração acelerar discretamente porque eu sabia exatamente quem encontraria lá.
Ridículo.
Passei vinte e oito anos sem nunca ficar nervoso para encontrar uma mulher no trabalho. Agora bastava pensar em Amanda para meu cérebro esquecer completamente como agir de forma normal.
Lucas abriu a porta da sala de fisioterapia e vi que Amanda estava organizando alguns equipamentos sobre a bancada. Usava o uniforme azul-marinho do clube, tênis branco e o cabelo preso num rabo de cavalo alto.
Ela levantou os olhos e por um instante, apenas nos encaramos.
— Bom dia. — Ela foi a primeira a falar.
Profissional.
— Bom dia — respondi no mesmo tom.
Lucas parecia completamente alheio ao clima estranho.
— Vamos começar?
Amanda pegou minha ficha clínica.
— Como foi a dor nas últimas vinte e quatro horas?
— Quase nenhuma.
Ela anotou.
— Inchaço no fim do dia?
— Bem pouco.
— Travou em algum momento?
— Não.
A cada resposta, ela fazia novas anotações.
Era como se ela estivesse atendendo qualquer outro atleta. Eu admirava aquilo e, ao mesmo tempo, odiava porque significava que só eu parecia incapaz de agir normalmente perto dela.
Amanda se aproximou, ajoelhou-se à minha frente para retirar a tornozeleira. O cheiro do seu perfume chegou primeiro. Era o mesmo perfume daquela noite.
Fechei os olhos por um segundo.
— Está doendo? — Ela perguntou.
— Não.
Ela continuou retirando a proteção do tornozelo, seus dedos eram firmes. Precisos. O toque durava apenas o necessário, nada além do profissional. Mesmo assim, meu coração insistia em acelerar.
Ela provavelmente percebeu porque terminou mais rápido do que o habitual e se afastou imediatamente.
— Vamos para os testes funcionais.
Levantei da maca.
Amanda posicionou pequenos cones coloridos no chão e depois colocou uma plataforma de equilíbrio ao lado.
— Primeiro quero que caminhe normalmente até a linha amarela.
Obedeci.
— Agora volte.
Ela observava cada detalhe da minha passada, a forma como apoiava o pé, o movimento dos quadris, a postura dos ombros. Parecia enxergar coisas que eu nem imaginava existir.
— Corre leve.
Corri.
— Agora acelera.
Aumentei o ritmo.
— Mudança de direção na marcação vermelha.
Virei rapidamente e uma pequena fisgada apareceu. Ignorei e continuei correndo.
— Para.
Olhei para Amanda e sua voz foi firme e eu obedeci imediatamente. Ela caminhou até mim com a mesma tranquilidade que demonstrava durante todos os atendimentos, mas bastou chegar perto para perceber que seus olhos estavam atentos a muito mais do que eu imaginava.
— Faz de novo.
Franzi a testa.
— O quê?
— A mudança de direção.
— Achei que tivesse feito certo.
Ela cruzou os braços.
— Eu não disse que fez errado.
— Então?
— Quero ver outra vez.
Respirei fundo e voltei para a posição inicial. Corri em velocidade moderada, alcancei a marcação vermelha e girei o corpo rapidamente para o lado esquerdo. A fisgada apareceu de novo, mas continuei correndo até o final do percurso.
Amanda permaneceu em silêncio durante alguns segundos, anotou alguma coisa na prancheta e depois levantou os olhos para mim.
— Sentiu uma fisgada, não é?
— Foi bem pouca coisa.
— Mas sentiu.
Passei a mão na nuca.
— Você percebe tudo?
Ela deu um pequeno sorriso.
— Faz parte do meu trabalho.
Lucas, que acompanhava a avaliação do outro lado da sala, aproximou-se.
— Onde?
Amanda apontou para a lateral do tornozelo.
— No momento da rotação. Ele faz uma compensação mínima com o quadril para aliviar a carga.
Olhei de um para o outro.
— Vocês conseguem ver isso?
Lucas riu.
— É por isso que estudamos tantos anos.
Revirei os olhos.
— Impressionante.
Amanda ignorou minha ironia, pegou uma plataforma de equilíbrio e a colocou no centro da sala.
— Agora sobe aqui.
Obedeci.
— Um pé só.
Apoiei apenas a perna lesionada.
Nos primeiros segundos consegui manter o equilíbrio sem dificuldade. Então ela lançou uma bola pequena em minha direção. Peguei.
— Devolve.
Arremessei de volta. Ela repetiu o movimento diversas vezes, aumentando a velocidade. Na sexta tentativa senti o tornozelo oscilar, mas recuperei o equilíbrio rapidamente.
— Chega.
Desci da plataforma.
— Não caí.
— Mas quase.
Cruzei os braços.
— Você é muito exigente.
Ela sorriu de canto.
— Com atletas profissionais, preciso ser.
Os testes continuaram por quase meia hora. Ao final, eu estava suando como se tivesse acabado de jogar uma partida inteira. Amanda deixou a prancheta de lado e respirou fundo, Lucas olhou para ela.
— E então?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— A evolução está excelente...
Sorri automaticamente.
— Mas ainda não é suficiente. — Ela concluiu.
Meu sorriso desapareceu.
— A cicatrização está acontecendo exatamente como esperávamos.
— Então por que eu não posso voltar?
Ela caminhou até um monitor preso à parede, abriu um vídeo gravado durante os testes e só então percebi que uma câmera registrava todos os movimentos. Ela pausou justamente no momento em que eu mudava de direção.
— Olha aqui... Está vendo o joelho?
— Não.
— Observe devagar.
Ela reproduziu o vídeo em câmera lenta e dessa vez percebi. Meu joelho inclinava levemente para dentro antes que o pé terminasse a rotação.
— Isso acontece porque seu corpo ainda não confia totalmente no tornozelo lesionado.
Lucas completou:
— Você compensa automaticamente.
Amanda assentiu.
— Em um treino leve, talvez isso não cause problema. Agora imagina esse mesmo movimento aos oitenta e cinco minutos de um clássico, com você cansado, marcando um atacante em velocidade.
— Entendi.
Ela voltou a me encarar.
— Se você retornar agora, aumenta muito a chance de uma nova entorse.
— Quanto tempo?
Amanda respirou fundo.
— Pelo menos umas duas semanas.
— É sério?
— Sim.
— Achei que você fosse dizer três dias.
Ela soltou um riso discreto.
— Eu também gostaria.
— Não parece.
Pela primeira vez desde que começamos a fisioterapia, ela abandonou o tom completamente técnico.
— Eu sei o quanto é difícil ficar fora.
Meu olhar encontrou o dela, havia sinceridade ali.
— Mas se eu liberar você antes da hora e acontecer alguma coisa, quem vai pagar o preço é você.
Lucas colocou a mão no meu ombro.
— Ela está certa.
Bufei.
— Todo mundo resolveu ficar do lado dela.
— Porque ela tem razão.
Olhei para Amanda outra vez.
— Certo.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Certo?
— Você venceu.
Um sorriso discreto apareceu no canto de sua boca.
— Isso não é uma competição.
— Tem certeza?
Ela riu baixinho.
— Absoluta.







