Mundo de ficçãoIniciar sessãoFelliph dominava o mundo corporativo com a mesma frieza com que controla os próprios sentimentos. CEO poderoso, marcado pela perda da esposa e pela traição da mulher que escolheu depois, ele transformou o coração em território proibido. Amor, para ele, é fraqueza. Desejo, uma distração que nunca mais permitiria… até Dianna cruzar seu caminho. Dianna carrega beleza, inteligência e uma força silenciosa moldada pela necessidade de sobreviver. Universitária brilhante, criada entre dificuldades, ela aceita trabalhar como babá em uma mansão onde o luxo não consegue aquecer o vazio. O que ela não esperava era que, além de conquistar duas crianças carentes de afeto, despertaria algo perigoso no homem que evita qualquer envolvimento emocional. Entre olhares que se prolongam mais do que deveriam, silêncios carregados de tensão e uma proximidade que desafia limites, o desejo cresce onde não deveria existir. Felliph sente o controle escapar; Dianna luta contra sentimentos que ameaçam seu equilíbrio. Quando a dor do passado retorna e os separa de forma cruel, ambos são forçados a encarar aquilo que tentam negar: há conexões que vão além do toque… e outras que começam exatamente nele. Um romance envolvente sobre atração contida, desejo reprimido e o amor que nasce lentamente, intenso e inevitável.
Ler maisA cidade grande ainda lhe parecia hostil, mesmo após dois anos.
Os prédios continuavam altos demais, como se esmagassem quem passava entre eles. As pessoas, apressadas demais, sempre olhando para frente, nunca umas para as outras. Os passos eram rápidos, os rostos fechados, os encontros raros. Era um lugar onde ninguém parecia ter tempo para perceber o outro — ou para se importar.
Ainda assim, era ali que Dianna acreditava estar seu futuro. Ou, ao menos, a chance de um.
Naquela noite, ela estava sentada no chão do pequeno apartamento que agora dividia com Clara. As costas apoiadas no sofá gasto, as pernas dobradas junto ao corpo. À sua volta, contas abertas se espalhavam como um lembrete cruel da realidade. Aluguel. Faculdade. Luz. Telefone. Tudo exigia algo que ela, naquele momento, não tinha.
O silêncio pesava mais do que qualquer ruído da cidade do lado de fora. Sobre a mesa, o envelope amassado permanecia ali, impossível de ignorar.
Demissão por justa causa.
As palavras eram frias. Técnicas. Definitivas. E profundamente injustas.
Dianna não chorara quando saiu da cafeteria. Não chorara ao retirar o avental, dobrando-o com cuidado excessivo, como se aquele gesto pudesse preservar sua dignidade. Não chorara ao ouvir o chefe dizer, com um sorriso torto e uma falsa cordialidade, que ela estava “exagerando”, que “não era nada demais”, que “ninguém acreditaria numa estudante desesperada por emprego”.
Ela mantivera a cabeça erguida.
Chorou agora.
Chorou porque entendia, com uma clareza assustadora, o que aquela demissão significava. O aluguel atrasado no fim do mês. A mensalidade da universidade ameaçada. A passagem que talvez não pudesse comprar para visitar a mãe no próximo feriado. Os remédios que a mãe tomava todos os dias. A feira simples que sustentava os irmãos menores.
Tudo isso desmoronava de uma vez.
Dianna levou as mãos ao rosto e respirou fundo, tentando conter o pânico que subia pela garganta como uma maré impossível de deter. O ar parecia insuficiente. O peito apertado. O futuro, nebuloso demais.
Ela fizera a coisa certa. Sabia disso.
Denunciar o assédio constante do chefe — os comentários disfarçados de elogio, os olhares insistentes, os toques “acidentais” que nunca eram realmente acidentes, os convites após o expediente que vinham carregados de ameaça silenciosa — fora uma escolha de dignidade. Uma escolha que custara caro.
Porque dignidade não pagava boletos.
O celular vibrou sobre a mesa, fazendo-a estremecer. Era uma mensagem da mãe.
“Filha, não se preocupe comigo. Deus provê.”
Dianna fechou os olhos.
A mãe sempre dizia aquilo. Mesmo quando tossia sangue longe do telefone. Mesmo quando escondia o cansaço para não preocupar a filha. Mesmo quando a doença já desenhava sombras profundas em seu corpo fragilizado.
Era uma fé que sustentava… e, ao mesmo tempo, doía.
— Eu vou dar um jeito, mãe — murmurou para o vazio do apartamento. A voz saiu trêmula, mas firme. — Eu prometo.
Não sabia ainda como. Não sabia por onde começar. Mas desistir nunca fora uma opção que Dianna Montenegro se permitira considerar.
Naquela noite, entre contas, silêncio e promessas sussurradas, algo se partia dentro dela — e, ao mesmo tempo, algo começava a se formar.
Uma necessidade urgente de escolha. Uma encruzilhada invisível. E, sem saber, Dianna estava prestes a aceitar o desafio que mudaria tudo.
No dia seguinte, Dianna foi à faculdade com o peso da incerteza colado à pele.
Era como se o mundo tivesse perdido um pouco da nitidez. As vozes ao redor chegavam abafadas, os rostos pareciam distantes, e o tempo avançava sem que ela realmente estivesse ali. Assistiu às aulas sentada na mesma cadeira de sempre, tomou notas com a caligrafia impecável de quem se recusava a desmoronar em público, participou de discussões acadêmicas com respostas bem formuladas — tudo no automático.
Por dentro, no entanto, tudo estava em ruínas.
A cada equação mental que fazia, o resultado era o mesmo: não havia margem para erro. Não havia reserva. Não havia tempo. A demissão não era apenas a perda de um emprego — era a ameaça concreta à sua permanência ali, à ajuda que enviava para casa, à promessa feita à mãe.
No intervalo entre as aulas, Dianna caminhou até o pátio e sentou-se em um dos bancos de madeira. O sol da manhã aquecia a pele, mas não conseguia afastar o frio que ela sentia por dentro. Olhou ao redor sem realmente ver. Sabia que precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas não sabia por onde começar.
Foi então que uma sombra se projetou à sua frente.
— Dianna? — a voz familiar soou confusa. — O que você faz aqui tão cedo? Não foi trabalhar?
Ela levantou o olhar e encontrou Clara parada diante dela, mochila pendurada em um dos ombros, a expressão carregada de estranhamento. Dianna costumava chegar à universidade apenas no período da tarde. Estar ali àquela hora era, por si só, um sinal de alerta.
Clara franziu a testa e sentou-se ao lado dela sem pedir permissão.
— Você está pálida — observou. — Aconteceu alguma coisa?
Dianna hesitou.
Nunca gostara de expor fragilidades. Aprendera, desde muito nova, a engolir problemas, resolver sozinha, proteger os outros do próprio peso. Mas, naquele momento, manter tudo guardado parecia impossível. O nó em sua garganta denunciava o que ela tentava esconder.
— Fui demitida — confessou, finalmente. — Denunciei meu chefe por assédio… e ele me mandou embora.
Clara arregalou os olhos, chocada.
— O quê? — a indignação veio rápida. — Por que você nunca me contou que aquele velho safado estava te assediando? Eu quebrava a cara dele!
Ela se aproximou ainda mais e passou o braço pelos ombros de Dianna, num gesto firme, protetor.
— Você fez o certo — afirmou, sem hesitação.
Dianna assentiu devagar.
— Eu sei — respondeu, com um sorriso triste que não alcançou os olhos. — Mas agora… eu não sei como vou pagar nada.
O silêncio que se instalou entre as duas foi breve, mas carregado. Clara parecia pensar com intensidade, o olhar fixo em algum ponto distante, como se estivesse reorganizando ideias.
De repente, ela se endireitou no banco.
— Espera — disse, como quem se lembra de algo importante. — A minha irmã trabalha na galeria, como você sabe. E a chefe dela é a tia de uns gêmeos.
Dianna ergueu o olhar, atenta.
— Eles são filhos de um CEO — continuou Clara, animando-se. — Muito rico. Muito bonito, inclusive. E eles estão desesperados atrás de uma babá.
— Babá? — Dianna repetiu, franzindo a testa. — De onde você tirou essa ideia?
— Só me escuta, tá bom? — Clara pediu, com firmeza. — Sabe o trabalho que você tinha na cafeteria? Isso é fichinha perto desse. Você ganharia, no mínimo, dez vezes mais. Ia morar numa mansão, ter um quarto só seu, plano de saúde, bonificação… tudo certinho. A última babá não durou nem um mês.
Dianna soltou uma risada nervosa.
— Eu não tenho experiência formal — argumentou, já se preparando para descartar a ideia. Coçou a nuca, inquieta. — Espera… você disse dez vezes mais do que eu ganhava na cafeteria?
Clara assentiu.
— Muito dinheiro — confirmou. — E esse é o emprego certo para você. Eu tenho certeza de que você está mais do que apta.
O coração de Dianna acelerou.
Não era o plano. Nunca fora. Ela jamais se imaginara vivendo dentro de uma mansão, cuidando dos filhos de alguém tão distante de sua realidade. Mas, naquele instante, a ideia deixou de parecer absurda.
Pareceu necessária.
— Eu quero — disse, surpreendendo a si mesma. — Quer dizer… eu preciso. Mas vou ter que passar por entrevista, né?
Clara sorriu, confiante.
— Não se preocupe com isso. No almoço eu ligo para minha irmã e falo de você.
Dianna respirou fundo.
Algo dentro dela ainda resistia. O medo do desconhecido. A sensação de estar à beira de algo grande demais. Mas, pela primeira vez desde a demissão, uma fresta de possibilidade se abriu.
Talvez aquela não fosse apenas uma saída temporária. Talvez fosse a porta que o desespero, finalmente, colocava em seu caminho.
Logo os adultos também se serviram. O som do gelo batendo no vidro trouxe uma sensação simples, quase doméstica. Era um detalhe pequeno, mas fazia tudo parecer mais real. Melissa aproveitou o momento e puxou o namorado pela mão.— Certo, agora que todo mundo está oficialmente hidratado… — disse, teatral — acho que é hora das apresentações formais.Ela olhou para o rapaz ao seu lado, que parecia dividido entre o nervosismo e a vontade de impressionar.— Felliph, Dianna… esse é o Rafael.Rafael estendeu a mão para Felliph primeiro.— É um prazer finalmente conhecer você. Melissa fala muito do irmão… principalmente das histórias da infância.Felliph arqueou uma sobrancelha.— Espero que ela tenha escolhido as menos constrangedoras.— Não prometo nada — Melissa respondeu, rindo.Dianna cumprimentou Rafael com gentileza, percebendo o carinho sincero no jeito como ele olhava para Melissa.— Então… — Felliph começou, dando um gole no refresco — você é corajoso.Rafael piscou, confuso.— Cora
Sem perder tempo, Felliph entrou no carro e seguiu para a casa de campo. A estrada parecia diferente naquele dia. Mais clara. Mais aberta. O céu estava limpo, e o vento que entrava pela janela não trazia peso — trazia promessa.Talvez fosse apenas impressão. Ou talvez fosse porque, pela primeira vez em muito tempo, ele não estivesse fugindo de algo… mas indo em direção a alguém.Durante o trajeto, os pensamentos tentaram invadi-lo — lembranças, dúvidas, ecos das palavras de Barbara. Mas, naquele momento elas não tinham força suficiente para desviá-lo. Ele havia escolhido. E quando um homem escolhe com o coração inteiro, não há passado que o prenda.Ao chegar, o som das gargalhadas o alcançou antes mesmo de ele desligar o motor.As crianças corriam perto do lago, disputando quem jogava a pedra mais longe na água. Davi gritava regras inventadas, Daniel fingia ser juiz da competição, e os gêmeos pulavam como se o mundo fosse simples.Dianna estava um pouco afastada, sentada em um banco d
No dia seguinte, tudo aconteceu exatamente como Felliph havia planejado… e ainda assim nada parecia leve dentro dele.A mansão despertou em silêncio. Não era um silêncio comum de manhã cedo. Era um silêncio denso, como se as paredes soubessem que algo precisava terminar para que outra história pudesse começar.Felliph já estava de pé quando o sol ainda mal tocava os jardins. Caminhava pelo escritório com as mãos nos bolsos, organizando mentalmente cada passo do que faria. Não podia falhar. Não dessa vez.Chamou o motorista e falou com firmeza, mas sem dureza.— Quero que leve Dianna e as crianças direto para a casa de campo. Sem paradas. Eles precisam de ar… de paz.O motorista assentiu, percebendo que não era apenas uma viagem. Era proteção.Do outro lado do corredor, Dianna observava tudo em silêncio. O coração dela apertava a cada palavra, mas não questionou. Não porque fosse fraca. Mas porque confiava.Quando ele desligou, aproximou-se dela.— Eu preferia ir junto — confessou, a v
Ao anoitecer, Felliph chegou à mansão mais cedo do que de costume. O céu ainda guardava tons alaranjados, e a luz do entardecer atravessava as janelas altas da sala, pintando o chão de dourado. Por alguns segundos, ele ficou parado na porta, apenas observando.As crianças estavam espalhadas pelo tapete da sala. Os gêmeos riam alto, quase sem fôlego, enquanto Davi e Daniel discutiam as regras de um jogo inventado ali mesmo.— Não vale mudar a regra no meio da partida! — reclamou um dos gêmeos.— Vale sim, porque fui eu que criei o jogo! — retrucou Daniel, fingindo seriedade.A mistura de vozes, risadas e pequenas provocações encheu o peito de Felliph de uma emoção inesperada. Eles estavam juntos. Misturados. Sem divisões. Como se sempre tivesse sido assim. Aquilo parecia família. Parecia lar.Ele caminhou até eles devagar, ajoelhou-se no meio da bagunça organizada, bagunçou os cabelos dos filhos e beijou a testa de cada um.— Vocês estão conspirando contra mim? — brincou.— Sempre! — r
A presença de Barbara mudou a energia da mansão mais rápido do que qualquer um poderia prever.Nos primeiros dias, ela manteve uma postura discreta, quase frágil. Caminhava pelos corredores como alguém que ainda não sabia se tinha permissão para estar ali. Sorrisos suaves, voz baixa, olhar carregado de nostalgia. Para quem observava de fora, parecia apenas uma mulher tentando se reencontrar depois de perdas difíceis. Mas Melissa conhecia aquele tipo de silêncio. E desconfiava dele.Naquela manhã, Dianna organizava as mochilas das crianças na mesa da cozinha enquanto conversava com Davi e Daniel sobre a prova que teriam na escola. Os gêmeos brincavam perto da porta, rindo alto.Barbara surgiu devagar, vestindo um robe elegante.— Bom dia… — disse, aproximando-se das crianças com naturalidade. — Nossa, como vocês cresceram…Os gêmeos a olharam curiosos.— Você é quem? — perguntou um deles.Ela sorriu, ajoelhando-se para ficar na altura deles.— Eu sou a tia Barbara… irmã da sua mamãe.A
A semana havia passado em um ritmo silenciosamente feliz dentro da mansão. As rotinas estavam mais leves, as crianças voltaram a rir com facilidade, e Felliph — mesmo tentando manter a postura controlada — já não escondia completamente o quanto a presença de Dianna transformara o ambiente.Por isso, quando o som das rodas de uma mala ecoou pelo hall de entrada naquela tarde, ninguém estava preparado.Marta apareceu primeiro no corredor, visivelmente confusa.— Senhor… tem uma visita para o senhor.Felliph ergueu os olhos dos documentos que segurava. O tom da governanta não era comum. Ele se levantou, ajeitando a camisa, e caminhou até a entrada principal.E então a viu.Barbara.Parada diante da porta, segurando a alça de uma mala escura, os olhos cansados e o semblante carregado de algo que misturava dor e determinação. Por um segundo, o tempo pareceu se dobrar. O rosto dela — tão parecido com o da irmã falecida — atingiu Felliph como um golpe silencioso.Ele parou abruptamente.— …B





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