Mundo de ficçãoIniciar sessãoApenas uma semana havia se passado, e ainda assim Melissa observava Dianna com atenção redobrada.
Não era apenas profissionalismo. Nem entusiasmo inicial. Havia algo ali que escapava às explicações fáceis. Melissa já vira muitas babás passarem por aquela casa — mulheres bem-intencionadas, qualificadas, algumas até carinhosas. Mas nenhuma permanecera tempo suficiente para criar raízes. Nenhuma atravessara as defesas invisíveis daquela família.
Dianna atravessara.
Não com esforço. Não com imposição. Mas com presença.
Melissa percebia nos detalhes. No modo como as crianças se acalmavam só de ouvir a voz dela. Na forma como buscavam suas mãos instintivamente. No jeito como Dianna se abaixava para ficar na altura dos olhos deles, como se o mundo fizesse mais sentido quando visto dali.
Havia nela algo que não se ensinava em curso algum. Um toque de mãe. E Melissa, que conhecia a ausência como poucos, não deixou de perceber.
No entardecer daquele sábado, enquanto Dianna dava banho nos gêmeos — risadas ecoando pelo corredor, água respingando no chão, vozes infantis contando histórias desconexas — Melissa caminhou até o jardim. O céu começava a ganhar tons alaranjados, e o ar trazia uma tranquilidade rara.
Pegou o celular e ligou para o irmão.
Ele atendeu no primeiro toque.
— Você não vem para casa hoje? — perguntou ela, sem rodeios.
— Irei, mais não hoje — respondeu Felliph, com a frieza habitual. Mas, para surpresa de Melissa, ele acrescentou: — Como estão as crianças com a nova babá?
Ela sorriu sozinha.
— Uau — disse, divertida. — Você perguntou pelas crianças. Isso merece um brinde.
— Sem sarcasmo, maninha — cortou ele. — O que você quer?
— Você é terrível, Felliph. — Ela riu baixo. — Mas preciso admitir: essa babá é diferente. Muito diferente. Ela parece ter algo especial… sabe quando a pessoa chega e o ambiente muda?
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.
— Tipo o quê? — ele perguntou, cauteloso.
— Tipo o toque de uma mãe — respondeu Melissa, com firmeza. — Reveja sua agenda e venha almoçar conosco amanhã. Você deveria conhecê-la.
— Ainda estou em Nova Iorque — respondeu ele. — E não pretendo retornar antes de terça-feira.
Melissa respirou fundo.
— Tudo bem, Felliph. Não vou insistir. — Fez uma pausa calculada. — Só tenho uma coisa para dizer: seus filhos sentem sua falta.
Antes que ele pudesse responder, ela desligou.
No escritório envidraçado de um hotel em Nova Iorque, Felliph recostou-se na cadeira. Passou a mão pelo rosto e soltou um suspiro longo, daqueles que não se percebe que estavam sendo segurados.
— Até que enfim — murmurou para si —, uma babá que decidiu ficar.
Era uma constatação prática. Aliviada. Não emocional.
Naquele instante, o telefone tocou novamente.
Ele olhou para a tela. O nome exibido não despertou sorriso, nem expectativa — apenas hábito. Ainda assim, atendeu de imediato.
— Olá, querida — disse, com a voz controlada. — Passo para te pegar em cinco minutos.
Felliph não acreditava mais no amor. Para ele, o amor era um risco desnecessário, um território instável demais para quem precisava manter o controle. O que oferecia agora eram encontros funcionais, relações claras, sem promessas.
Sexo, para Felliph, era apenas uma necessidade do corpo humano. Prazer. Alívio. Nada além disso.
E, naquele momento, ele ainda não fazia ideia de que, a quilômetros de distância, dentro de sua própria casa, algo silencioso e irreversível já havia começado a deslocar tudo aquilo em que ele acreditava controlar.







