Mundo de ficçãoIniciar sessão
A cidade grande ainda lhe parecia hostil, mesmo após dois anos.
Os prédios continuavam altos demais, como se esmagassem quem passava entre eles. As pessoas, apressadas demais, sempre olhando para frente, nunca umas para as outras. Os passos eram rápidos, os rostos fechados, os encontros raros. Era um lugar onde ninguém parecia ter tempo para perceber o outro — ou para se importar.
Ainda assim, era ali que Dianna acreditava estar seu futuro. Ou, ao menos, a chance de um.
Naquela noite, ela estava sentada no chão do pequeno apartamento que agora dividia com Clara. As costas apoiadas no sofá gasto, as pernas dobradas junto ao corpo. À sua volta, contas abertas se espalhavam como um lembrete cruel da realidade. Aluguel. Faculdade. Luz. Telefone. Tudo exigia algo que ela, naquele momento, não tinha.
O silêncio pesava mais do que qualquer ruído da cidade do lado de fora. Sobre a mesa, o envelope amassado permanecia ali, impossível de ignorar.
Demissão por justa causa.
As palavras eram frias. Técnicas. Definitivas. E profundamente injustas.
Dianna não chorara quando saiu da cafeteria. Não chorara ao retirar o avental, dobrando-o com cuidado excessivo, como se aquele gesto pudesse preservar sua dignidade. Não chorara ao ouvir o chefe dizer, com um sorriso torto e uma falsa cordialidade, que ela estava “exagerando”, que “não era nada demais”, que “ninguém acreditaria numa estudante desesperada por emprego”.
Ela mantivera a cabeça erguida.
Chorou agora.
Chorou porque entendia, com uma clareza assustadora, o que aquela demissão significava. O aluguel atrasado no fim do mês. A mensalidade da universidade ameaçada. A passagem que talvez não pudesse comprar para visitar a mãe no próximo feriado. Os remédios que a mãe tomava todos os dias. A feira simples que sustentava os irmãos menores.
Tudo isso desmoronava de uma vez.
Dianna levou as mãos ao rosto e respirou fundo, tentando conter o pânico que subia pela garganta como uma maré impossível de deter. O ar parecia insuficiente. O peito apertado. O futuro, nebuloso demais.
Ela fizera a coisa certa. Sabia disso.
Denunciar o assédio constante do chefe — os comentários disfarçados de elogio, os olhares insistentes, os toques “acidentais” que nunca eram realmente acidentes, os convites após o expediente que vinham carregados de ameaça silenciosa — fora uma escolha de dignidade. Uma escolha que custara caro.
Porque dignidade não pagava boletos.
O celular vibrou sobre a mesa, fazendo-a estremecer. Era uma mensagem da mãe.
“Filha, não se preocupe comigo. Deus provê.”
Dianna fechou os olhos.
A mãe sempre dizia aquilo. Mesmo quando tossia sangue longe do telefone. Mesmo quando escondia o cansaço para não preocupar a filha. Mesmo quando a doença já desenhava sombras profundas em seu corpo fragilizado.
Era uma fé que sustentava… e, ao mesmo tempo, doía.
— Eu vou dar um jeito, mãe — murmurou para o vazio do apartamento. A voz saiu trêmula, mas firme. — Eu prometo.
Não sabia ainda como. Não sabia por onde começar. Mas desistir nunca fora uma opção que Dianna Montenegro se permitira considerar.
Naquela noite, entre contas, silêncio e promessas sussurradas, algo se partia dentro dela — e, ao mesmo tempo, algo começava a se formar.
Uma necessidade urgente de escolha. Uma encruzilhada invisível. E, sem saber, Dianna estava prestes a aceitar o desafio que mudaria tudo.
No dia seguinte, Dianna foi à faculdade com o peso da incerteza colado à pele.
Era como se o mundo tivesse perdido um pouco da nitidez. As vozes ao redor chegavam abafadas, os rostos pareciam distantes, e o tempo avançava sem que ela realmente estivesse ali. Assistiu às aulas sentada na mesma cadeira de sempre, tomou notas com a caligrafia impecável de quem se recusava a desmoronar em público, participou de discussões acadêmicas com respostas bem formuladas — tudo no automático.
Por dentro, no entanto, tudo estava em ruínas.
A cada equação mental que fazia, o resultado era o mesmo: não havia margem para erro. Não havia reserva. Não havia tempo. A demissão não era apenas a perda de um emprego — era a ameaça concreta à sua permanência ali, à ajuda que enviava para casa, à promessa feita à mãe.
No intervalo entre as aulas, Dianna caminhou até o pátio e sentou-se em um dos bancos de madeira. O sol da manhã aquecia a pele, mas não conseguia afastar o frio que ela sentia por dentro. Olhou ao redor sem realmente ver. Sabia que precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas não sabia por onde começar.
Foi então que uma sombra se projetou à sua frente.
— Dianna? — a voz familiar soou confusa. — O que você faz aqui tão cedo? Não foi trabalhar?
Ela levantou o olhar e encontrou Clara parada diante dela, mochila pendurada em um dos ombros, a expressão carregada de estranhamento. Dianna costumava chegar à universidade apenas no período da tarde. Estar ali àquela hora era, por si só, um sinal de alerta.
Clara franziu a testa e sentou-se ao lado dela sem pedir permissão.
— Você está pálida — observou. — Aconteceu alguma coisa?
Dianna hesitou.
Nunca gostara de expor fragilidades. Aprendera, desde muito nova, a engolir problemas, resolver sozinha, proteger os outros do próprio peso. Mas, naquele momento, manter tudo guardado parecia impossível. O nó em sua garganta denunciava o que ela tentava esconder.
— Fui demitida — confessou, finalmente. — Denunciei meu chefe por assédio… e ele me mandou embora.
Clara arregalou os olhos, chocada.
— O quê? — a indignação veio rápida. — Por que você nunca me contou que aquele velho safado estava te assediando? Eu quebrava a cara dele!
Ela se aproximou ainda mais e passou o braço pelos ombros de Dianna, num gesto firme, protetor.
— Você fez o certo — afirmou, sem hesitação.
Dianna assentiu devagar.
— Eu sei — respondeu, com um sorriso triste que não alcançou os olhos. — Mas agora… eu não sei como vou pagar nada.
O silêncio que se instalou entre as duas foi breve, mas carregado. Clara parecia pensar com intensidade, o olhar fixo em algum ponto distante, como se estivesse reorganizando ideias.
De repente, ela se endireitou no banco.
— Espera — disse, como quem se lembra de algo importante. — A minha irmã trabalha na galeria, como você sabe. E a chefe dela é a tia de uns gêmeos.
Dianna ergueu o olhar, atenta.
— Eles são filhos de um CEO — continuou Clara, animando-se. — Muito rico. Muito bonito, inclusive. E eles estão desesperados atrás de uma babá.
— Babá? — Dianna repetiu, franzindo a testa. — De onde você tirou essa ideia?
— Só me escuta, tá bom? — Clara pediu, com firmeza. — Sabe o trabalho que você tinha na cafeteria? Isso é fichinha perto desse. Você ganharia, no mínimo, dez vezes mais. Ia morar numa mansão, ter um quarto só seu, plano de saúde, bonificação… tudo certinho. A última babá não durou nem um mês.
Dianna soltou uma risada nervosa.
— Eu não tenho experiência formal — argumentou, já se preparando para descartar a ideia. Coçou a nuca, inquieta. — Espera… você disse dez vezes mais do que eu ganhava na cafeteria?
Clara assentiu.
— Muito dinheiro — confirmou. — E esse é o emprego certo para você. Eu tenho certeza de que você está mais do que apta.
O coração de Dianna acelerou.
Não era o plano. Nunca fora. Ela jamais se imaginara vivendo dentro de uma mansão, cuidando dos filhos de alguém tão distante de sua realidade. Mas, naquele instante, a ideia deixou de parecer absurda.
Pareceu necessária.
— Eu quero — disse, surpreendendo a si mesma. — Quer dizer… eu preciso. Mas vou ter que passar por entrevista, né?
Clara sorriu, confiante.
— Não se preocupe com isso. No almoço eu ligo para minha irmã e falo de você.
Dianna respirou fundo.
Algo dentro dela ainda resistia. O medo do desconhecido. A sensação de estar à beira de algo grande demais. Mas, pela primeira vez desde a demissão, uma fresta de possibilidade se abriu.
Talvez aquela não fosse apenas uma saída temporária. Talvez fosse a porta que o desespero, finalmente, colocava em seu caminho.







