Mundo ficciónIniciar sesiónSessenta dias. Um contrato. Zero sentimento. Mari Salave'a transforma executivos impossíveis em líderes que o mercado respeita. Ela é boa nisso. A melhor. Quando a mãe de Gabriel Serrão a contrata às escondidas para transformar o filho no CEO que o Grupo Serrão precisa sem que ele saiba quem pagou. Mari aceita por uma razão só: o caso Serrão dobra o portfólio da sua boutique. O acordo é simples: sessenta dias, ela entrega CEO material, ele entrega a referência da sua carreira. Assinaram. Combinado. O problema é que ninguém avisou o corpo. Gabriel Serrão é inteligente demais pra qualquer script que ela prepare. Silencioso do jeito que incomoda. E toda vez que ela acha que tem ele mapeado, ele faz alguma coisa que derruba a análise inteira. O irmão quer o cargo. A imprensa está olhando. O prazo não espera. E o que começou como trabalho está ficando complicado de um jeito que não estava em nenhuma cláusula. Romance CEO · Hot Explícito · Humor · Contemporâneo Brasileiro
Leer másTrabalho dos Sonhos, Chefe dos Pesadelos
(POV Mari)🌸 🌸 🌸
Tati entrou na sala com dois cafés e aquela cara de quem tem uma informação ruim e não vê a hora de soltar. Eu conheço essa cara. Três anos de sociedade. Ela acha que disfarça. Não disfarça. — O filho voltou de Lisboa. — Ela colocou o café na minha frente e sentou na ponta da mesa, como quem vai assistir a um acidente ao vivo. — Meu contato no Valor disse que o conselho tá em pânico. Eu tava com a proposta do Grupo Serrão aberta no notebook. Quarenta e dois slides. Três semanas de pesquisa. O maior pitch que a Salave'a & Costa já montou. — Gabriel Serrão voltou — repeti, mais pra mim mesma. — Gabriel Serrão voltou. — Ela confirmou com aquele tom de quem anuncia furacão. — E aparentemente não tá nem aí pra empresa. Ótimo. Uma holding com 700 funcionários, processo de transição travado e um CEO relutante que passa reto pelo próprio cargo como se fosse um desvio de rota. Exatamente o cliente que eu precisava. Mas o Grupo Serrão valia o case da minha vida. Valia dobrar o portfólio da boutique inteira. Valia até o cliente mais difícil do mundo. — Ele vai aparecer na videoconferência? — O contato não sabe. — Ela deu um gole no café. — Mas disse que quem não quer o cargo costuma ser o que mais aparece quando a empresa tá pegando fogo. Anotei mentalmente: não prometer nada que dependa do comprometimento dele. Primeira regra quando o cliente tem mais ego do que agenda.🌸 🌸 🌸
A conferência tava marcada pra 15h. Às 14h45 eu já tava com o notebook aberto, proposta carregada, bloco de anotações do lado e o segundo café do dia esfriando na mesa. Tati se instalou na cadeira ao meu lado com o notebook dela, porque nas palavras dela: preciso ver ao vivo se for um desastre. Às 15h02 a chamada conectou. Raquel Figueiredo. A assessora executiva que eu já tinha pesquisado — três anos no Grupo Serrão, leal ao Gabriel, não à empresa. Apareceu na câmera com aquela eficiência de quem gerencia situação que ninguém pediu pra ela gerenciar. — Boa tarde. — Voz direta, sem floreio. — O Sr. Serrão está a caminho. — Sem problema. — Sorri. Não era bem sem problema. Mas ela não precisava saber disso. Ouvi uma porta ao fundo. E então Gabriel Serrão apareceu na câmera. Camisa social branca aberta no segundo botão. Cabelo escuro levemente bagunçado, não de descuido, mais de quem tava pensando em outra coisa e se esqueceu do cabelo. Café na mão — não o café de reunião, aquele café de papel higienizado. O café de quem tava fazendo alguma coisa antes e trouxe junto porque ia precisar. Olhou pra câmera com a expressão específica de quem está presente no corpo e ausente na decisão de estar ali. Tati abriu o chat interno e digitou: ai meu deus do céu. Ignorei. — Mariana Salave'a, Salave'a & Costa Comunicação Estratégica. — Direto, sem reverência. — Agradeço o espaço. Ele olhou pro notebook. Relendo a proposta, provavelmente. O arquivo tinha chegado na véspera, com aviso de leitura — ele tinha aberto às 23h14. — Vi a proposta. — A voz era seca. Não fria, só econômica, como de quem mede cada palavra antes de gastar. — Tem metodologia sólida.Tem metodologia sólida. Não impressionante, não exatamente o que precisávamos. Tem. Metodologia. Sólida. Como se tivesse me dado seis e achado que estava sendo generoso. — Obrigada. - Mantive o tom neutro-. — Se quiser, posso conduzir pelo processo de diagnóstico. A primeira fase— — O conselho mandou esse material? Ele ergueu a cabeça da tela e me olhou direto pela câmera. Um segundo. Dois. Ninguém preencheu. — A proposta foi encaminhada pela equipe de transição, sim. — Qual membro assinou a aprovação? Abri o e-mail na outra aba. Nome, cargo, assinatura digital. Mandei o print pelo chat da conferência sem tirar o olho dele. Ele leu. Voltou pra mim. Alguma coisa passou pela expressão dele que eu não consegui nomear naquele segundo — não era surpresa. Era reconhecimento. Como se a informação confirmasse exatamente o que ele já suspeitava. — Tudo bem. — Fechou o notebook pela metade. — Pode continuar.Pode continuar. Na escala de entusiasmo de cliente, fica tecnicamente acima de prefiro não. Não muito. Mas acima. Conduzi o pitch todo. Gabriel não interrompeu, não fez anotação visível, não mudou a expressão em nenhum momento. Mas fez uma pergunta sobre a metodologia de mensuração de presença de liderança — boa pergunta, o tipo que só aparece quando a pessoa tava realmente ouvindo, mesmo sem parecer. Quando terminei: — Alguma dúvida? Ele olhou pro relógio. Depois pra câmera. — Não por enquanto. Raquel apareceu no canto da câmera, discreta, com aquela energia de a reunião está oficialmente encerrada. — Ótimo. Fico à disposição para— A chamada caiu. Sem aviso. Sem encerramento. Sem obrigada pelo seu tempo. A chamada simplesmente. Caiu. Fiquei olhando pra tela preta por uns três segundos. Tati, ao meu lado: — Ele desligou. Sem avisar. — Percebi. — Você ainda quer esse cliente. Não era pergunta. Fechei o notebook. — O Grupo Serrão dobra meu portfólio em dezoito meses. Eu ainda quero esse cliente. O telefone na mesa vibrou. Número não salvo. — Salave'a & Costa, Mariana Salave'a. — Aqui é Raquel, assessora do Sr. Serrão. — Mesma eficiência de antes, um grau mais sério. — Ele quer uma reunião presencial. — Quando? — Amanhã. Sete horas da manhã. Olhei pro relógio. 16h08. Menos de quinze horas. — No escritório do Grupo Serrão? — Isso. Tati tava me olhando com aquela cara de novo. — Confirmado. — Desliguei. Olhei pra ela. — Sete horas. Ela pegou o café. — Eu disse que ia ser um desastre. — Ainda não é. — Mariana. Ele desligou sem se despedir. — Ele me deu reunião presencial com menos de quinze horas de antecedência. — Fechei o bloco de notas. — Isso significa que leu a proposta de verdade. Sete horas é hora de dormir, não de trabalhar. Mas vou estar lá às seis e cinquenta. Ela ficou me olhando por um tempão. — Você vai me matar de ansiedade. — Não vou. — Peguei o café. — Vou te mandar áudio no caminho. 🌸 🌸 🌸 🔗 Amanhã. Sete horas. O que ela ainda não sabia: o maior problema não era o CEO relutante. Era quem tinha pagado pra ela chegar até ele.POV: MARI A madrugada já tinha tomado a casa quando minha mãe foi dormir. A porta do quarto fechou lá no fundo do corredor e, depois disso, ficou aquele silêncio meio torto de casa habitada: geladeira trabalhando baixo, um ruído pequeno vindo da rua, a TV que alguém tinha deixado num volume inútil e Bruno sumido no quarto cedo demais, com cara de quem fingia que não queria ver nada. Eu também fingi. Só que, naquela casa, fingir nunca durava muito. Gabriel continuava no sofá. Eu fui até a cozinha, peguei água e voltei devagar. Não porque eu quisesse fazer cena, mas porque andar depressa com ele ali me fazia parecer nervosa demais. E eu já estava nervosa o suficiente sem colaborar. Sentei primeiro na poltrona. Mudei de ideia antes de completar dois segundos e fui pro sofá também, deixando um espaço pequeno entre nós. Pequeno demais pra ser indiferente. Grande demais pra ser coragem. Ele me olhou uma vez. Só uma. O suficiente pra eu sentir que ele estava esperando eu falar al
POV: GABRIELNo Rio, o ritmo da Mari era diferente.Não era grande coisa à primeira vista. Só o jeito de andar um pouco mais solto, a mão desenhando as frases no ar, o riso escapando sem ela segurar tanto. Mas era o bastante pra eu notar. Em São Paulo, ela parecia sempre com pressa de alguma coisa. Ali, não. Ali ela ocupava a rua como se a rua fosse dela também.A gente saiu tarde de Ipanema e entrou num boteco em Botafogo que eu nunca pisaria sozinho. Mesa torta, luz amarela, ventilador no teto jogando ar quente pra lado nenhum. Mari pediu cerveja sem nem olhar o cardápio. Conversou com o garçom como quem já conhece o lugar de outra vida. Eu fiquei observando o resto: um casal brigando baixo no canto, dois caras dividindo porção, televisão ligada sem ninguém prestar atenção.— Você vem aqui sempre? — perguntei.Ela deu de ombros.— Quando estou aqui no Rio venho sempre que dá vontade de fugir sem sair daqui.— Isso funciona?— Às vezes.Ela olhou pra mim por cima do copo, como se eu
POV: MARI Dona Isabel fez café pra três e sumiu pra cozinha como quem não queria existir e, ao mesmo tempo, queria garantir que todo mundo ali sobrevivesse à conversa. Liguei a TV. Ela aumentou o volume logo depois. Do corredor, veio o barulho de panela, uma gaveta fechando, depois outra. Privacidade de mãe. Aquela coisa meio falsa, meio afetuosa, meio inútil. Funcionava mais como aviso do que como cobertura. Gabriel olhou pro corredor e soltou um ar pelo nariz. — Sua mãe é muito discreta. — Ela acha que é. Ele quase sorriu. Eu quase também. A mochila dele estava perto da porta. Não no quarto de hóspedes. Não num canto escondido. Perto da porta mesmo, como se ele quisesse me mostrar que ainda existia saída. Ou talvez quisesse mostrar pra si mesmo. Eu conhecia esse tipo de gesto. Gente que deixa as coisas à vista pra parecer menos presa. Sentei no sofá. Ele ficou na cadeira em frente, um pouco inclinado pra frente, os antebraços apoiados nos joelhos, como se tivesse vindo pra c
POV: GABRIEL Quarta de manhã eu abri o aplicativo de passagens. Não porque estava planejando. Estava sentado na mesa do escritório com uma reunião em quarenta minutos e o notebook aberto num relatório que eu não estava lendo. A janela no fundo mostrava SP começando o dia — barulho de trânsito, luz ainda baixa, aquela qualidade de ar de quarta cedo que não tem nada de especial e que eu nunca vou conseguir explicar por que às vezes pesa mais do que devia. Abri o aplicativo. São Paulo — Rio de Janeiro. O voo das onze e cinquenta tinha lugar. Chegava às uma da tarde. Fiquei olhando por um tempo. Fechei o relatório. Abri a conversa com Bruno. Nunca tinha falado diretamente com o irmão dela. Tinha o número porque Caetano tinha mandado uma vez, numa emergência que não era emergência — só Caetano achando que tudo era urgente. Tinha guardado sem pensar muito. Agora estava pensando. Digitei: "Bruno. Sou Gabriel Serrão. Você pode me passar o endereço da sua mãe em Ipanema?" Mandei ant










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