2. Felliph Kavanagh

O silêncio nunca foi ausência de som.

Para Felliph, o silêncio era uma escolha consciente. Um território seguro. Um refúgio construído ao longo dos anos com método, disciplina e dor. Ele aprendera a cultivá-lo com a mesma precisão com que comandava empresas: nos corredores amplos da cobertura envidraçada, nas salas frias da corporação, nas conversas evitadas e, sobretudo, dentro do próprio peito.

Era um silêncio denso, pesado, quase palpável — uma muralha invisível que mantinha o mundo do lado de fora. Poucos ousavam atravessá-la. E aqueles que tentavam, desistiam rápido.

A cidade pulsava abaixo de seus pés.

Luzes se acendiam e apagavam em um ritmo incessante. Carros cruzavam avenidas como veias iluminadas. Pessoas iam e vinham carregando suas pequenas urgências, seus amores, suas dores. Do alto do prédio, tudo parecia distante demais. Pequeno demais. Indigno de sua atenção.

Felliph observava aquele movimento urbano com o mesmo distanciamento com que observava as pessoas: como quem vê sem se envolver, como quem sabe que tocar dói.

Nada o atravessava de verdade. Nada mais.

O relógio marcava quase meia-noite quando ele fechou o último arquivo no computador. O clique seco ecoou no escritório silencioso. A sala estava mergulhada em penumbra, iluminada apenas pelo reflexo das luzes da cidade no vidro das paredes. Aquela era sua hora preferida. O intervalo em que ninguém exigia decisões, em que nenhuma voz ousava pedir mais do que ele estava disposto a oferecer.

Sozinho, ele podia existir sem performar.

Felliph Kavanagh — CEO respeitado, estrategista implacável, homem admirado e temido — aprendera cedo que sentir demais custava caro. Muito caro. E ele já havia pago esse preço uma vez.

Antes, fora outro homem.

Havia sido leve. Risonho. Cheio de planos que não envolviam apenas números, contratos ou expansão. Sonhava alto, mas sonhava junto. Era gêmeo de Melissa, e entre eles existia uma cumplicidade quase infantil, mesmo na vida adulta. Dois lados de uma mesma essência, que escolheram caminhos diferentes.

Melissa optara pela arte. Pela liberdade. Montara sua galeria e, com esforço e talento, transformara o espaço em um lugar vibrante, vivo, reconhecido. Ela acreditava na beleza como resistência.

Felliph escolhera o controle.

Essa escolha se consolidou no momento em que conheceu Juliana Coolh.

Ela surgira em sua vida como uma certeza rara. Não houve hesitação. Não houve jogo. Ele acreditou, com a intensidade de quem nunca havia amado antes, que ela era sua alma gêmea. Casaram-se rapidamente, como quem teme perder o tempo. E quando os filhos vieram — gêmeos, um menino e uma menina — Felliph sentiu-se completo.

Era o auge.

Ele se lembrava disso com clareza dolorosa.

Sentia-se o homem mais feliz do mundo. Tinha ao seu lado a mulher que amava, a família que sempre desejara construir, um futuro que parecia sólido, promissor, inevitável. Lembrava-se de Juliana sentada à mesa da cozinha, os cabelos soltos caindo sobre os ombros, o sorriso fácil iluminando o rosto. As mãos repousavam sobre o ventre ainda plano enquanto ela falava sobre nomes, escolas, viagens, sonhos simples e grandiosos ao mesmo tempo.

Aquela imagem sempre vinha sem pedir permissão.

Um futuro que nunca chegaria a existir como prometera.

Quase um ano após o nascimento dos gêmeos, o diagnóstico foi dado. A doença não negociou. Não esperou. Foi rápida. Cruel. Daquelas tragédias que não concedem tempo para despedidas adequadas. Apenas chegam, arrancam tudo e deixam um vazio que ecoa por anos.

Depois da morte de Juliana, vieram os dias que Felliph jamais soube nomear.

Vieram as crianças.

Dois corações pequenos demais para compreender por que o mundo podia ser tão injusto. Um menino e uma menina. Gêmeos. Idênticos apenas no nascimento. Tão diferentes na forma de sentir a ausência. Um se fechava em silêncio. A outra chorava com facilidade, buscando colo onde pudesse encontrar.

Felliph não sabia como cuidar deles. Não sabia como ser pai.

Estava devastado demais para aprender. Fragilizado demais para admitir isso. Então fez o que sempre soubera fazer: delegou. Contratou funcionários, organizou horários, criou uma rotina impecável para garantir que nada lhes faltasse. Alimentação. Educação. Segurança. Tudo funcionava como um sistema perfeito.

Exceto pelo essencial: o amor. O amor exigia presença. E presença exigia sentir. E sentir era algo que Felliph aprendera a evitar com rigor.

Ele jamais aprendera a ser pai como deveria. Tornou-se provedor, gestor, administrador da própria família. E, aos poucos, sem perceber, transformou o luto em disciplina e a dor em distância.

Quando as lembranças do passado emergiam, elas não vinham suaves. Vinham como lâminas. Corroíam-no por dentro. Felliph apertou os dedos contra a borda da mesa, sentindo a rigidez fria do vidro sob a pele, numa tentativa inútil de ancorar-se no presente.

Não gostava quando o passado insistia em atravessar as brechas que ele deixava abertas sem perceber. Porque, no fundo, ele sabia que o silêncio que escolhera como proteção também havia se tornado sua prisão.

Ele levantou-se com a firmeza de quem treinara o corpo para nunca hesitar. Ajustou o paletó com um gesto automático — quase mecânico — e caminhou até a janela. O vidro espelhado devolveu-lhe uma imagem que ele já conhecia, mas evitava encarar por muito tempo.

Olhos cansados, os traços duros e uma expressão permanentemente controlada.

Havia ali um homem que aprendera a comandar impérios, negociar destinos, tomar decisões que afetavam centenas de vidas. Mas que jamais aprendera a governar aquilo que pulsava por dentro. A emoção sempre fora um território instável demais. Imprevisível demais.

Ele sustentava o próprio reflexo como quem encara um adversário antigo.

O segundo casamento veio à sua mente como um erro que ele preferia não revisitar com profundidade. Uma escolha feita sem amor, sem entrega — baseada apenas na lógica. Uma tentativa fria e racional de oferecer às crianças uma figura materna. Um arranjo funcional. Um contrato emocional silencioso, moldado pela mesma racionalidade com que conduzia seus negócios.

Naquele momento, parecera sensato. Hoje, para ele, soava cruel.

O resultado fora devastador de maneiras que ele se recusara a enxergar por tempo demais. A mulher que escolhera jamais vira os gêmeos como filhos. Eles eram tolerados, nunca acolhidos. Um incômodo constante. Uma presença que lembrava, a cada gesto, que ela jamais seria a primeira escolha de um homem que ainda sangrava por dentro — mesmo quando fingia não sentir mais nada.

Mas Felliph ignorara os sinais.

Ignorara os olhares frios, as ausências sutis, a impaciência mal disfarçada. Convencera-se de que aquilo era normal. De que o tempo ajustaria o que o afeto não havia construído. Foi apenas quando o pior aconteceu que ele permitiu a si mesmo enxergar.

A traição com o sócio não fora um choque completo.

Fora a confirmação de algo que ele já intuía, mas se negara a aceitar por orgulho, medo ou cansaço emocional. Não era apenas uma quebra de confiança profissional ou conjugal. Era a prova definitiva de que aquela relação jamais fora construída sobre respeito, muito menos amor.

O segundo casamento não falhara apenas. Ele o destruíra de outra forma.

Desde então, Felliph tomara uma decisão silenciosa, mas absoluta. Nunca mais abriria espaço para o amor. Nunca mais permitiria que alguém tivesse poder suficiente para alcançá-lo naquele ponto vulnerável. Nunca mais ofereceria partes de si que não pudesse controlar.

Ergueu o queixo, sustentando a própria imagem no vidro.

Era melhor assim.

Melhor ser inteiro por fora e fragmentado por dentro do que permitir que alguém, novamente, tivesse o poder de desmontá-lo.

O carro avançou silencioso pela estrada que levava à mansão, cortando a noite com a precisão de quem conhecia cada curva daquele caminho. A propriedade surgiu imponente, envolta por jardins impecavelmente aparados, cercas altas e portões de ferro que se fechavam como sentinelas. Tudo ali falava de segurança, ordem, domínio absoluto.

Ainda assim, aquela casa nunca fora um lar.

Ao cruzar a entrada principal, Felliph sentiu o silêncio recebê-lo como um velho aliado — fiel, previsível, confortável. Não havia risadas infantis ecoando pelos corredores. Nenhuma corrida descompassada, nenhum chamado apressado. Apenas o som discreto dos passos dos funcionários, sempre contidos, sempre atentos, e o tic-tac constante do relógio antigo na parede central, marcando o tempo com uma precisão quase cruel.

— Boa noite, senhor — murmurou a governanta, impecável como sempre, a postura ereta, o tom respeitoso.

Felliph assentiu com um gesto breve, automático. Não perguntou pelas crianças. Nunca perguntava. Confiava que tudo estivesse sob controle — como sempre estivera. A ordem funcionava melhor quando não era questionada.

Subiu as escadas sem pressa, sentindo o peso do dia escorrer pelos ombros. No meio do caminho, retirou o paletó e o passou pelo braço com um movimento calculado. Cada passo ecoava no mármore, sólido, constante. Nada nele denunciava cansaço ou inquietação.

Ao passar pelo corredor dos quartos, algo o fez desacelerar. A porta do quarto das crianças estava entreaberta. Uma faixa de luz suave escapava pelo vão, quebrando a uniformidade escura do corredor. Felliph aproximou-se em silêncio, como se temesse não apenas acordá-las, mas perturbar algo mais frágil do que o sono.

Empurrou a porta apenas o suficiente para observar.

Os gêmeos dormiam profundamente. Os corpos pequenos aninhados um ao outro, braços e pernas entrelaçados em uma coreografia inconsciente de proteção mútua. O bichinho de pelúcia repousava entre eles, gasto pelo uso constante, guardião silencioso de noites difíceis.

Por um instante breve demais, algo apertou dentro dele. Um incômodo quase imperceptível. Um pensamento que ameaçava se formar. Felliph deu um passo para trás.

Fechou a porta com um cuidado excessivo, controlando cada movimento, como se temesse quebrar aquele momento involuntário de ternura. Endureceu o maxilar, ajustou a postura e seguiu em direção ao próprio quarto com passos firmes e decididos.

Não permitiria que aquela imagem se tornasse mais do que um acaso. O controle sempre fora seu escudo. E ele não estava disposto a baixá-lo — ainda.

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