Início / Romance / UMA BABÁ PARA OS GÊMEOS DO CEO / 6. O pai que observa a distância
6. O pai que observa a distância

Felliph nunca aprendera a falhar em público.

Desde muito cedo, entendera que erros precisavam ser corrigidos antes mesmo de se tornarem visíveis. Na empresa, decisões mal calculadas eram revistas em silêncio. Em reuniões, sua presença impunha ordem antes que qualquer conflito surgisse. Em contratos, sua assinatura encerrava dúvidas, debates e resistências.

Tudo em sua vida adulta fora moldado para funcionar com precisão. Tudo — exceto a paternidade. Ele sabia disso, sempre soubera. Mas saber não significava conseguir mudar.

Naquela manhã, acordou antes do habitual. Não fora insônia. Dormira pouco, mas profundamente, como alguém exausto demais para sonhar. Ainda assim, despertara com uma sensação estranha, um incômodo sem nome, alojado em algum lugar entre o peito e a garganta.

Não era ansiedade. Não era preocupação objetiva. Era desalinho.

Levantou-se, tomou banho em silêncio e vestiu-se sem pressa. O espelho devolveu-lhe a imagem de sempre: postura correta, expressão controlada, nenhuma rachadura aparente. Ainda assim, algo nele parecia fora do eixo.

Desceu as escadas da mansão quase sem fazer ruído.

O cheiro de café recém-passado subia da cozinha, misturado a algo que não fazia parte da rotina daquela casa: risadas infantis. Não eram altas. Não eram caóticas. Eram espontâneas. Reais.

Felliph parou no corredor. Não foi visto. Observou. Os gêmeos estavam sentados à mesa. O menino falava animado, gesticulando como se contasse uma história grandiosa. A menina ria com facilidade, os olhos brilhando de um jeito que ele não se lembrava de ter visto antes. Entre eles, Dianna. Que aos olhos dele era tão linda quanto algo que estar para ser admirado.

Ela não dominava o espaço. Não conduzia a cena. Apenas estava ali.

Inclinava-se para ouvir. Tocava de leve o ombro de um. Ajustava o guardanapo do outro. Pequenos gestos. Naturais. Íntimos demais para quem chegara havia tão pouco tempo.

Algo em seu peito se contraiu.

Felliph tentou identificar o sentimento com a lógica que usava nos negócios. Avaliou, comparou, buscou encaixar aquilo em categorias conhecidas. Mas o que sentia não se deixava classificar.

Não era raiva. Não era gratidão. Talvez fosse reconhecimento. Talvez fosse perda. A memória veio sem aviso.

Os gêmeos ainda bebês. O choro atravessando a casa durante a madrugada. A ausência da esposa pesando como um quarto vazio que nunca mais seria preenchido. Ele parado no corredor, ouvindo, incapaz de entrar. Não por crueldade. Por impotência.

Mandava alguém resolver. Não sabia o que fazer com a dor dos filhos. Nem com a própria. O passado se impôs como um espelho cruel.

Ele nunca batera nas crianças. Nunca lhes negara nada material. Sempre houvera médicos, escolas de excelência, brinquedos caros, segurança absoluta. Tudo impecável. Ainda assim, faltara o essencial.

E, em algum lugar profundo demais para ser ignorado, Felliph sempre soubera disso.

Virou-se antes que alguém percebesse sua presença. Subiu novamente as escadas, fechando-se no quarto como quem retorna à própria fortaleza. Ali, onde nada o surpreendia. Onde nada exigia sentir.

Enquanto se vestia para o trabalho, encarou o próprio reflexo no espelho. O homem que o encarava parecia irrepreensível.

Terno alinhado. Postura firme. Expressão controlada. Um pai exemplar aos olhos do mundo. Um estranho dentro da própria casa.Saiu sem ser visto. No carro, a caminho da empresa, tentou racionalizar o incômodo. Disse a si mesmo que aquilo era apenas uma fase. Crianças se apegam com facilidade. Funcionários vêm e vão. Tudo voltaria ao normal quando aquela babá partisse.

Mas a palavra normal já não significava o que costumava significar.

Durante a manhã, Felliph participou de reuniões, assinou documentos, encerrou negociações milionárias. Homens o ouviam com atenção absoluta. Nada saía do controle.

Ainda assim, sua mente insistia em retornar à imagem dos filhos sorrindo — algo raro demais para ser descartado como irrelevante.

Ao meio-dia, o telefone tocou.

Era Melissa.

— Você reparou neles? — perguntou ela, sem preâmbulos.

Felliph fechou os olhos por um segundo.

— Reparei no quê?

— Nos seus filhos — respondeu ela, seca. — Eles estão diferentes.

— Estão bem cuidados — disse ele, automaticamente. — É para isso que pago.

O silêncio do outro lado da linha foi denso.

— Você realmente acredita que isso basta? — Melissa perguntou, agora com a voz mais baixa. — Ou só está com medo de admitir que alguém fez em semanas o que você não conseguiu em anos?

Felliph encerrou a chamada sem responder. Não por falta de argumentos. Mas porque algumas verdades não se combatem com lógica.

Elas apenas doem.

E, naquele dia, pela primeira vez em muito tempo, Felliph percebeu que o controle absoluto que construíra ao redor da própria vida começava a falhar — não nos negócios, não na reputação, mas exatamente onde ele jamais aprendera a agir sem medo: No território silencioso do afeto.

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