Mundo de ficçãoIniciar sessãoDois dias depois, Dianna estava diante dos portões da mansão.
O carro de Priscila, irmã de Clara, parou lentamente à frente da entrada monumental. Grades altas de ferro delimitavam a propriedade, guardando um mundo que parecia existir à parte do restante da cidade. Dianna respirou fundo antes de descer. O estômago revirava, não apenas pelo nervosismo da entrevista, mas pela sensação estranha de estar cruzando uma fronteira invisível.
Priscila apertou sua mão em despedida.
— Vai dar certo — disse, com um sorriso encorajador.
Dianna assentiu, embora não tivesse certeza de nada.
O segurança a conduziu com formalidade até a entrada principal, onde outro funcionário a aguardava para acompanhá-la pelo interior da casa. Cada passo ecoava em pisos impecáveis, cada corredor parecia longo demais, silencioso demais. A mansão era maior do que ela imaginara. Imponente. Fria. Um tipo de riqueza que não intimidava pela ostentação, mas pela distância emocional que parecia impor a quem entrava.
Nada ali parecia vivido.
Ao chegar à área gourmet, Dianna foi recebida por uma mulher de postura firme e sorriso acolhedor. Havia algo diferente nela — uma energia viva, quase quente, que contrastava com o ambiente excessivamente controlado da casa.
— Você deve ser a senhorita Montenegro — corrigiu-se ao conferir rapidamente um papel. — Sou Melissa Kavanagh.
Ela estendeu a mão com naturalidade. O aperto foi firme, mas gentil.
— Muito prazer — respondeu Dianna.
Sentaram-se à mesa ampla da área gourmet, cercadas por uma decoração elegante, impecável… e quase impessoal, como se ninguém realmente pertencesse àquele espaço. Melissa fez perguntas diretas, sem rodeios: sobre a universidade, a rotina pesada de trabalho, a família, a disponibilidade para morar na mansão.
— As crianças são… intensas — avisou Melissa, após alguns minutos. — Perderam a mãe cedo. O pai é ausente. — Um sorriso torto surgiu em seus lábios. — Meu irmão. As crianças já passaram por muitas babás. Nenhuma ficou muito tempo.
Dianna assentiu em silêncio, absorvendo cada palavra.
Antes que pudesse responder qualquer coisa, um grito atravessou a casa como um rasgo no silêncio.
— É MEU!
— NÃO É!
O choro veio em seguida. Alto. Agudo. Cortante. Um som que não pedia atenção — exigia.
Melissa levantou-se imediatamente.
— Venha comigo — disse a Dianna, já caminhando em direção à sala.
Ao chegarem, encontraram os gêmeos de apenas três anos sentados no chão. Cada um puxava uma ponta de um papel rasgado. O menino segurava com força, o rosto vermelho de raiva e frustração. A menina chorava alto, agarrada à outra extremidade, como se aquele pequeno pedaço de papel carregasse algo precioso demais para ser perdido.
— Solta! — ordenou Melissa, a voz firme.
Não houve reação. Dianna não disse nada. Apenas se aproximou devagar e se ajoelhou diante deles, ficando na mesma altura dos pequenos olhos marejados.
— Posso ver o desenho? — perguntou, com a voz baixa, suave, quase um sussurro.
Os dois a encararam, surpresos. O choro não cessou por completo, mas vacilou.
— Foi eu que fiz — disse o menino, fungando.
— E eu que colori — rebateu a menina, abraçando o papel com força.
Dianna estendeu a mão com cuidado.
— Então esse desenho é dos dois.
Com delicadeza, separou o papel rasgado e colocou as partes lado a lado no chão.
— Às vezes — continuou, com calma — as coisas se partem. Mas isso não significa que deixem de ser importantes.
Os gêmeos ficaram em silêncio, atentos.
— Vamos consertar juntos? — sugeriu.
Ela então ergueu o olhar para Melissa.
— Precisamos de fita adesiva.
Melissa caminhou em silêncio até uma maleta colorida no canto da sala, abriu-a e entregou a fita a Dianna. Observava tudo sem interferir, como se temesse quebrar algo invisível.
Dianna colou as partes com paciência, sem pressa, alinhando cuidadosamente cada rasgo. Quando terminou, entregou o desenho às crianças.
— Agora ele está mais forte — disse, sorrindo. — Porque foi cuidado.
A menina abraçou o papel contra o peito. O menino enxugou as lágrimas com o dorso da mão.
Minutos depois, os dois estavam sentados ao lado de Dianna no sofá, ouvindo-a inventar uma história improvisada sobre um castelo que precisava de guardiões corajosos para protegê-lo. As vozes já não tremiam. Os corpos estavam relaxados.
Melissa observava tudo em silêncio, com os olhos marejados.
Aproximou-se e falou baixo, como se não quisesse interromper aquele instante.
— Se você quiser o emprego… ele é seu.
Dianna engoliu em seco.
— É claro que quero — respondeu, antes mesmo de pensar. Tentou não soar desesperada, mas sabia que o coração entregava tudo.
— Você vai precisar morar aqui — completou Melissa.
Dianna pensou na mãe. Nos irmãos. Na faculdade. Em tudo que ficava do outro lado daquele portão.
— Eu aceito — disse, firme. — Mas preciso visitar minha mãe em alguns feriados.
— Claro — respondeu Melissa, sem hesitar. — Providenciarei o contrato. Depois de assinar, você já pode se mudar hoje mesmo.
Naquela noite, Dianna se instalou na mansão.
E, sem saber, ao cuidar de um desenho rasgado e de dois corações pequenos demais para a dor que carregavam, deu início a uma mudança irreversível — não apenas na própria vida, mas na de todos que habitavam aquela casa silenciosa demais para continuar assim.
Os dias que se seguiram trouxeram algo que aquela casa havia esquecido como receber. Vida.
Não aconteceu de uma vez. Não foi um rompimento brusco com o passado, nem uma mudança escandalosa. Foi sutil, quase tímido. Um riso aqui. Um desenho ali. Um som novo ocupando espaços que antes pertenciam apenas ao silêncio.
A geladeira, antes impecável e fria, começou a ser coberta por papéis coloridos, rabiscos tortos, figuras de sol, castelos, corações mal recortados. Os corredores, outrora solenes demais, passaram a ouvir passos apressados, pequenas corridas e gargalhadas que ecoavam sem pedir permissão.
À noite, as luzes não se apagavam sem histórias.
Os gêmeos se aninhavam nas camas, olhos atentos, corpos relaxando à medida que a voz de Dianna preenchia o quarto. Histórias inventadas na hora, cheias de personagens que protegiam, que ficavam, que não iam embora quando o medo chegava. Histórias simples, mas carregadas de algo que nenhuma rotina havia conseguido oferecer antes: presença.
Eles passaram a segui-la pelos corredores como quem encontra um ponto fixo em um mundo instável. Chamavam por ela antes de dormir. Procuravam-na ao menor sinal de insegurança. Quando acordavam assustados, era o nome de Dianna que sussurravam no escuro.
E ela estava ali.
Mesmo nos dias em que o corpo implorava por descanso. Mesmo quando o coração carregava preocupações que não ousava dividir. Mesmo quando a saudade da mãe e dos irmãos apertava mais forte à noite.
Dianna não falhava.
Não por obrigação, nem por contrato, nem por medo de perder o emprego. Mas porque cuidar, para ela, nunca fora uma função — era uma linguagem. Um gesto aprendido cedo demais, mas exercido com uma entrega que não se esgotava.
A casa começou a responder.
Onde antes havia ecos vazios, agora havia vozes. Onde reinava a ordem rígida, surgia o improviso. Pequenos caos cheios de significado. Uma almofada fora do lugar. Um brinquedo esquecido no sofá. Um desenho torto colado na porta errada.
Nada ali perdia valor. Porque algumas casas não precisam de mais luxo. Nem de mais controle. Nem de paredes mais altas. Precisam de amor.
E naquela mansão silenciosa, construída para proteger de tudo — inclusive de sentir —, ele finalmente começava a encontrar espaço para existir.
Devagar. Com cuidado. Mas, desta vez, de verdade.







