Mundo de ficçãoIniciar sessãoEmbora tenha reagido instintivamente, o escolta não previu o real perigo que rondava sua senhora — não até ver, com olhos arregalados, o fio gélido de uma espada junto à delicada curva do seu pescoço. O atacante, um oficial de postura implacável, moveu-se com tanta destreza que o escolta mal teve tempo de reagir. A velocidade e precisão do golpe foram tamanhas que um calafrio súbito percorreu-lhe a espinha, como um aviso da superioridade técnica daquele adversário.
Ainda sem entender a situação, Elliot analisou atentamente o oficial à sua frente. Seus olhos percorreram os detalhes do seu uniforme: o brasão imperial bordado e as insígnias de autoridade. Mesmo ciente de que ele possuía uma patente elevada, Elliot não recuou. Como protetor da futura rainha de Galadi, ele não podia vacilar. — Há um engano aqui! — declarou com firmeza. — Minha senhora não é uma ladra. — Isso terá que ser comprovado na prisão imperial — replicou o comandante com rigidez, sem mover a espada um centímetro sequer. Elliot, ainda com a espada firme em direção ao comandante, moveu com precisão sua outra mão. Sem desviar os olhos do oficial à sua frente, ele deslizou a mão até a cintura e rapidamente desembainhou a adaga ali presa. Em um movimento veloz, Elliot levou a arma para trás, detendo a lâmina a meros milímetros da cintura de alguém que se aproximou por trás. — O que diabos está acontecendo aqui? — perguntou Lucian, empunhando um punhal contra o pescoço do escolta. O que antes parecia uma simples perseguição a um ladrão transformou-se em uma confusão evidente, com várias pessoas ao redor olhando assustadas para os quatro. — Não há necessidade de tanta comoção, cavalheiros — interveio a jovem com voz calma, pousando uma mão gentil sobre a lâmina de seu protetor, forçando-o com leveza a embainhá-la. — Isso será resolvido rapidamente. O olhar firme dela encontrou o do comandante, e, por um breve momento, ele vacilou diante da presença altiva dessa mulher. Em seguida, Elyssia voltou-se a Elliot com um leve sorriso. Este, ao receber o olhar de sua senhora, obedeceu de imediato e embainhou suas armas, curvando levemente a cabeça em concordância. Antes que qualquer outra ação fosse tomada ou qualquer palavra dita, um novo elemento emergiu do meio da multidão. — O que está acontecendo aqui? Esta jovem não é a ladra, foi um rapaz! Um rapaz! Como poderia uma dama como ela ser uma ladra? Ela, inclusive, comprou alimentos para alimentar as crianças necessitadas. — Não é ela? — repetiu Lucian, atônito. O comandante e seu subordinado, diante da revelação, seguiram o exemplo do escolta e embainharam suas armas. — Eu não disse que resolveríamos isto rapidamente? — disse a jovem, voltando-se para seu escolta com um sorriso tranquilizador nos lábios, irradiando confiança. — Perdoe-me, senhorita, exaltei-me um pouco — respondeu Elliot, curvando-se com respeito. — Não há necessidade de desculpas. Você apenas executou seu trabalho perfeitamente — garantiu ela, antes de se dirigir ao mercador. — Perdoe-me, senhor — disse com gentileza —, ao que parece, minha presença obstruiu a busca pelo verdadeiro culpado de ter roubado sua banca. Sendo assim, arcarei com todas as suas perdas. — Oh, não é preciso, senhorita… — Eu insisto... — ela prosseguiu, então, voltando-se para os oficiais, disse num tom levemente irônico, mas envolto em polidez — Quanto a vocês, parece que minha vestimenta pouco convencional afetou a eficácia no cumprimento de seus deveres. Peço desculpas. Ela fez uma leve reverência, elegante e calculada, como quem brinca com a autoridade sem transgredi-la. — A senhorita não deveria se inclinar em pedido de desculpas — murmurou Elliot, descontente com a imagem da futura rainha se curvando perante homens que não reconheciam sua grandiosidade. Ele sabia bem o risco de desafiar soldados do exército imperial, principalmente se tratando de um comandante, mas seu senso de dever e lealdade falavam mais alto. Apesar de estarem em terras estrangeiras, ela continuava sendo a herdeira de Galadi. — Elliot, você deveria se desculpar também; você poderia ter ferido um dos oficiais. — Oras, seus! — exclamou Lucian, a irritação transparecendo em sua postura — Com quem pensam que estão falando?… — Lucian — cortou o comandante, pousando a mão sobre o ombro dele numa clara ordem. — Vamos, não vale a pena — declarou em voz baixa, lançando um olhar carregado de desdém à jovem e ao seu escolta antes de se voltar ao comerciante. — Perdoe-me, senhor. O erro foi meu e, portanto, assumirei sua perda. Enviarei um representante até sua loja amanhã — encerrou, afastando-se sem outra palavra. Os guardas desapareceram na multidão, seguidos pelo mercador, restando apenas a jovem e seu escolta. — Que comportamento rude com a princesa herdeira. Nem sequer se desculpou pelo erro que cometeu — rosnou Elliot, a voz carregada de indignação. — Não vamos permitir que isso atrapalhe nosso passeio — respondeu com um sorriso gentil, como quem busca dissipar a tensão — Vamos, ainda temos que encontrar um presente para Arielle. __________________________ — Comandante, não deveríamos ter deixado a situação daquela forma. Assim os soldados imperiais perderão o respeito da população. — Isso não terá qualquer impacto; esses dois não são cidadãos deste império, por isso, relevei. — Como sabe disso? — A vestimenta do guarda dela não era típica de um soldado comum, tampouco pertence a alguma facção deste império. E você notou as habilidades dele, não é mesmo? Por mais que Lucian tenha chegado perto do escolta furtivamente, ele o atacou sem nem mesmo olhá-lo. Lembrar disso lhe fez um calafrio percorrer a espinha. — Sim — Lucian engoliu em seco, com a lembrança vindo à sua mente; ele facilmente poderia ter sido ferido naquele momento e sequer teria visto de onde veio o golpe. — Baixei muito a minha guarda. — Uma dama comum não andaria por aí com um escolta com tais habilidades. Além disso, ela exibia muita confiança. Preferi evitar qualquer complicação para nós, ainda mais agora que nosso turno acabou. — Entendo… Ela deve ser uma nobre de alta estirpe, mas nós não ficamos atrás. Na próxima vez que nos depararmos com eles, daremos uma lição neles, especialmente naquele dama que teve a audácia de zombar dos soldados imperiais de Erendys — declarou, com fervor, cerrando um de seus punhos. Tais palavras arrancaram um sorriso discreto do comandante. — Com certeza. Devemos colocá-los em seus devidos lugares — concordou, porém num tom zombateiro. — Agora, vamos retornar ao QG, tenho que escrever o relatório antes do jantar.






