Mundo de ficçãoIniciar sessão— O que você está dizendo? — indagou a imperatriz, visivelmente indignada.
— Estive tão ocupado ultimamente que não tive tempo de me reunir com vocês antes da chegada da princesa ou após a decisão ter sido tomada. Eu e o duque Velanor estávamos conversando sobre isso há algum tempo, mas o acordo foi feito de forma repentina. — Esse assunto não é trivial para ser levado de maneira tão despreocupada! Absolutamente do nada, Vossa Majestade anunciando o compromisso do príncipe herdeiro com uma estrangeira cujas origens e intenções sequer conhecemos? — Cuide de suas palavras, Cassandra — Ragnar a advertiu, o sorriso dando lugar a uma carranca. — Quando foi que Erendys virou um parque de diversão? — ela o ignorou. Ragnar soltou um suspiro longo e cansado, pressionando os dedos contra a testa, um costume que o fazia se acalmar. Mas, antes que ele pudesse dar a resposta, um som cortante e inesperado rompeu o silêncio: um riso irônico e suave, mas acheio de intenção. Todos se voltaram na direção do príncipe, de onde partiu o som. — Parece até que é Vossa Majestade, a imperatriz, quem está sendo forçada a um casamento político — comentou com voz mansa, mas um sorriso no qual seu sarcasmo era evidente. — Estou apenas tentando entender a situação. — Certo, certo… Agradeço a preocupação — disse com falsa cortesia, reverenciando a cabeça brevemente. Elyssia sentiu um novo desconforto se instalar à mesa. Era evidente que entre o príncipe e a imperatriz havia pouco ou nenhum afeto, e a jovem visitante estava bem no centro das tensões. — Bem, há mais uma questão a ser resolvida — suspirou o imperador, com um olhar cansado, como quem se preparava para outra declaração. — Rowan, você será o escolta da princesa Elyssia a partir do momento em que o escolta dela retornar ao seu reino. A nova ordem caiu como outro balde de água fria sobre os ânimos dos presentes. — Colocar o melhor soldado do império a serviço da simples filha de um duque de terras estrangeiras? — a imperatriz voltou a se indignar. — Não se trata da simples filha de um duque, mas sim da princesa herdeira. Quem, senão o melhor do império para este papel? O silêncio instaurado após as palavras de Ragnar encheu o ambiente de uma tensão ainda mais pesada. Elyssia, por fim, compreendeu com mais clareza a natureza do ambiente e que era bem-vinda ali apenas pelo imperador. Também notou que, por trás de cada palavra ouvida, havia interesses e ressentimentos ocultos que pouco tinham a ver com ela, e isso era o que mais a incomodava. A hostilidade vinda do príncipe era até compreensível, pois ambos tiveram um conflito anterior, e ele recebeu a chocante notícia que iria se casar com uma estranha com a qual pouco havia simpatizado. Mas e quanto à imperatriz? Por qual motivo a tratava com desrespeito tão abertamente? Elyssia ergueu o rosto com altivez, mantendo os olhos fixos na imperatriz. — Com todo respeito, Vossa Majestade — começou ela, inclinando a cabeça com polidez, embora sem desviar o olhar. — Gostaria de lembrá-la de que, embora eu seja uma estrangeira, não estou aqui como uma intrusa. Vim com a aprovação da imperador, como a filha de uma Casa que sempre honrou suas alianças e que jamais permitiria que uma de suas representantes fosse tratada como um fardo indesejado — seu olhar se tornou ligeiramente mais afiado, sem se dar conta. — Não é de meu feitio responder a acusações infundadas, mas julguei necessário recordar que, assim como não estou acima de ninguém, tampouco estou abaixo, e as decisões anunciadas pelo imperador estão aqui para dar ainda mais credibilidade às minhas palavras — continuou Elyssia. A imperatriz crispou levemente os lábios, surpreendida com a ousadia da jovem. — Agora, se há preocupações ou insatisfação quanto à minha presença ou aos anúncios feitos pelo imperador, peço apenas que sejam dirigidos diretamente a mim, mas que o respeito seja equiparado à franqueza com que recém expôs vossa indignação na minha frente — finalizou Elyssia, com a expressão ainda serena, quase beirando a afronta. O silêncio que se seguiu após as palavras de Elyssia pareceu mais pesado do que antes, e até mesmo o príncipe Rowan, que até então manteve sua máscara de desinteresse, lançou à princesa um olhar curioso, talvez até admirado. — Peço desculpa pelo meu comportamento, senhorita Velanor — disse enfim a imperatriz, contrariada e forçando um sorriso enquanto apertava os punhos. Por mais que não tivesse gostado nenhum pouco da postura de Elyssia, ela não podia se deixar levar pelas emoções e causar uma cena que a deixaria em desvantagem na frente do imperador, então ela resolveu que o melhor era engolir seu orgulho. — Espero que entenda minha surpresa com os anúncios recentes, não tive a menor intenção de ofendê-la — finalizou. O imperador, por sua vez, recostou-se lentamente no encosto da cadeira, os olhos semicerrados em contemplação, antes de soltar um leve sorriso aliviado. Afinal, Elyssia conseguiu pôr fim àquela discussão. O jantar prosseguiu, mas o silêncio era quase sepulcral. Ninguém, nem mesmo o imperador, parecia disposto a retomar o apetite. ____________________________ — Estão liberados para retomar suas ocupações — declarou o imperador ao erguer-se, encerrando oficialmente o banquete que marcava aquela noite de anúncios e tensões. Sua voz ressoou serena, provocando um imediato murmúrio de cadeiras sendo arrastadas, todos os presentes se erguendo para prestar a devida reverência em despedida. — Princesa, desejo que sua estadia seja confortável. Pode me procurar sempre que desejar algo, pois irei providenciar para a senhorita imediatamente. A jovem inclinou-se com graça e compostura, mantendo os olhos baixos em sinal de respeito. — Agradeço, Vossa Majestade. Desejo que tenha uma noite de descanso tranquila. Após a saída de Ragnar e Cassandra, Merida, cujos olhos cintilavam mais por ciúme do que por preocupação, virou-se na direção de Elyssia com um sorriso contido. — Vossa Majestade parece preocupar-se muito com a senhorita. Não está aqui como uma falsa prometida do príncipe herdeiro com a intenção de ser a concubina do imperador, não é verdade? A afronta, ainda que dita em um tom cortês, fez Rowan, cuja expressão até então mantinha-se neutra, franzir o cenho em desagrado. — Merida! — exclamou em tom grave e repreensivo. Elyssia permaneceu imperturbável. Seu olhar desviou da porta pela qual o imperador havia saído para Merida, com um brilho de desdém. Um leve sorriso curvou seus lábios, não de gentileza, mas sim de um desprezo de quem sabe que palavras vis não merecem uma resposta. — Desejo-lhe uma boa noite, Alteza — disse ela, dirigindo-se apenas ao príncipe, antes de curvar-se levemente para, em seguida, deixar o salão, ignorando por completo a insinuação de Merida. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pela voz firme de Rowan, que, ao virar-se para Merida, mantinha ainda no rosto uma expressão de desagrado. — Merida, você sabe que não deve dizer palavras que possam manchar o nome ou a imagem do imperador, ou será severamente castigada caso alguém a ouça — advertiu com franqueza, mas sem elevar a voz. Merida, agora com o rosto tingido por um rubor de vergonha, baixou o olhar. — Sim, peço desculpas. Perdi o controle momentaneamente. Toda esta situação foi tão repentina... Não é estranho? Isso despertou minha indignação. — Compreendo, mas mantenha o controle… — pediu com o tom mais brando, o semblante perdendo os traços repreensivos. Ela, porém, o encarou com olhos aflitos, incapaz de disfarçar a inquietação em seu interior. — Como vou manter o controle? Você apenas vai aceitar essa situação? Rowan suspirou suavemente, e um sorriso contido desenhou-se em seus lábios. — Amanhã conversarei com meu pai de forma adequada sobre este assunto, não se preocupe quanto a isso. Agora, vá descansar — disse com gentileza, pousando a mão com leveza sobre a cabeça dela em uma carícia. — Amanhã será um longo dia, e não pegarei leve com você.






