Mundo de ficçãoIniciar sessão
Império de Erendys, ano ???
A sala do imperador se encontrava em silêncio, como de costume, sendo rompido apenas pelo crepitar da lareira. O sol já havia há muito se posto, e o breu tomava conta do céu noturno. O silêncio confortável do recinto foi interrompido por três toques discretos à porta, barulho que tirou a atenção do imperador, que trabalhava até tarde naquela noite. — Entre! — ordenou Ragnar Kaelion, sua voz ressoando com autoridade, ainda que imbuída de calma. A porta abriu-se com discrição, revelando Frederick Asper, o fiel assistente e conselheiro de Ragnar. O homem adentrou o recinto, curvando-se com respeito diante do imperador. — Majestade — começou, a voz controlada, a fim de não quebrar a calmaria da sala. — Trago-lhe uma carta urgente do reino de Galadi. — Reino de Galadi? — repetiu Ragnar, estreitando os olhos ao ouvir o nome do território aliado. Ao receber o envelope, sua expressão adquiriu um traço de inquietação ao reconhecer o selo real estampado na cera dourada. — Agradeço-lhe. Pode retirar-se agora — disse com um gesto breve da mão, sem desviar o olhar do papel. O criado curvou-se uma última vez antes de sair silenciosamente, fechando a porta atrás de si com a mesma discrição com que a havia aberto. Ragnar permaneceu de pé, seus olhos fixos no envelope. Com dedos firmes, porém ansiosos, rompeu o selo. Ele desdobrou a carta e começou a ler, os olhos percorrendo as linhas com atenção: "Saudações, nobre imperador de Erendys, como tem sido sua estada nestes últimos meses? Não é hábito nosso ficarmos tanto tempo sem nos comunicarmos… A razão da minha carta é, de certo modo, familiar. Como você bem sabe, já escolhi quem será meu sucessor, ou melhor, minha sucessora; contudo, alguns eventos inesperados ocorreram em meu reino com meu primogênito, que se recusa a aceitar minha decisão. Preocupado com a segurança da minha filha, a futura rainha de Galadi, solicito a ajuda do Império de Erendys neste momento crítico. Em breve, Elyssia chegará no seu império. Espero poder contar com sua ajuda para que ela permaneça sob sua proteção até que a situação em meu reino se estabilize. Estou certo de que meu leal amigo não hesitará em acatar a este pedido. Naturalmente, a chegada dela e os detalhes de sua estadia devem ser mantidos em sigilo absoluto; peço que não confie a ninguém tal informação. Confio em sua habilidade para encontrar uma justificativa adequada para sua presença em vosso palácio, o que, sem dúvida, fortalecerá ainda mais os laços entre nossas nações. Serei eternamente grato. Do seu velho amigo, Aldrich Aurelian." Ao concluir a leitura, Ragnar permaneceu imóvel por um instante. Seus olhos, ainda voltados para a carta, refletiam o peso contido nas palavras escritas. A recordação de Aldrich Aurelian, o rei de Galadi, lhe veio à mente: um homem sábio, a quem não via desde a assinatura do tratado de paz que selou a aliança entre suas nações. Apesar da distância e da ausência física, ambos se mantinham em contato com certa frequência por meio de cartas, sustentando um elo de confiança mútua. Ragnar conhecia bem a jovem princesa, herdeira escolhida por Aldrich, de quem ele falava constantemente em suas cartas, e aprovava a decisão do rei. Ciente da delicadeza política e dos perigos que cercavam a sucessão em Galadi, não hesitou em reconhecer a importância do pedido e a necessidade de manter a princesa sob sua proteção. O imperador aproximou-se da lareira e, sem vacilar, lançou a carta entre as chamas. O papel, engolido pelo fogo, reduziu-se a cinzas rapidamente. Ragnar permaneceu diante do fogo por alguns minutos, absorto em pensamentos. Sua mente girava em torno de justificativas plausíveis para a presença da princesa no palácio, pois não poderia simplesmente abrigá-la sem levantar suspeitas entre as pessoas que ali moravam e os nobres que frequentavam o local; além disso, Aldrich foi claro em seu pedido de deixar tudo em sigilo de todos, e ele cumpriria o desejo do seu velho amigo. Decidido, ele ordenou discretamente alguns poucos empregados a fazerem os primeiros preparativos para receber a princesa. Ragnar pediu para que Frederick se limitassem a informar a corte acerca da chegada de uma visitante estrangeira, omitindo todos os detalhes quanto à identidade ou à finalidade de sua visita. Até que encontrasse um pretexto convincente, ele não daria muitos detalhes. __________________________ Seis dias depois, no Império de Erendys, as ruas da capital fervilhavam com uma energia contagiante. Bandeiras coloridas tremulavam e o burburinho dos cidadãos ressoava em meio à música dos artistas de rua, fundindo-se ao som de gargalhadas e dos passos apressados de crianças correndo por todas as partes. O aroma de especiarias, doces caramelizados e massas recém-assadas flutuava no ar. A cidade estava tomada pela animação de um evento local, atraindo habitantes de todas as classes sociais. Entre a multidão, ocultos por capas escuras com capuzes, dois viajantes caminhavam, uma encantada com a beleza daquele evento, o outro com passos calculados e olhos atentos. — Cuidado, princesa, a senhora não deve caminhar tão despreocupadamente assim! Pode ser arriscado — advertiu o escolta com voz baixa, mas firme, observando cada rosto ao redor com atenção. — Não se preocupe, Elliot. Ninguém aqui me conhece e estou coberta por essa capa com capuz; ninguém irá me notar — respondeu a jovem com um ar travesso no olhar, embora seu semblante permanecesse sereno. — Ainda assim, prin... — Evite me tratar com tanta formalidade, Elliot. Nessas terras estrangeiras, sou apenas uma pessoa qualquer. A forma como você me chama sim é o que pode atrair a atenção dos demais. O homem hesitou em responder, coçando a nuca com certo embaraço antes de soltar um breve riso, quase resignado. — Desculpe-me, senhorita. É força do hábito. Ambos continuaram a caminhar entre os habitantes, a jovem cada vez mais animada. _____________________ Enquanto isso, não muito distante: — Comandante, já me assegurei de que tudo está pacífico nesta área — informou Lucian, um oficial imperial. — Muito bem. Então deixaremos a vigilância local aos nossos colegas e voltaremos ao QG — respondeu o comandante, mas com o olhar ainda atento aos arredores. Os dois militares já se retiravam quando um grito cortou a harmonia daquele cenário. — Ladrão! Ladrão! Aquele jovem me roubou! — gritou um comerciante, sua voz embargada pela indignação. De imediato, o comandante virou-se em sua direção. Seus olhos estreitaram-se ao varrer a multidão. Nada de anormal parecia ocorrer até que o comerciante apontou, com precisão, na direção de uma figura encapuzada que se afastava rapidamente. — Ali, aquele garoto de capa escura! O comandante lançou apenas um olhar ao seu subordinado, que, captando a ordem silenciosa, correu em perseguição. Na tentativa de encurralar o suspeito, o próprio comandante contornou uma viela estreita, tomando um caminho alternativo. Ao alcançar a extremidade de um beco, ele se colocou no caminho do fugitivo como uma muralha. Sem demora, o comandante sacou sua espada com destreza e apontou a lâmina na altura da garganta do ladrão. O suspeito paralisou-se de imediato, vendo sua imagem refletida no aço bem polido da espada. Com um movimento preciso, o comandante moveu sua espada para a lateral do pescoço do suspeito, utilizando a lâmina para tirar o capuz que ocultava o rosto da figura diante de si, revelando, para surpresa dele, não um jovem rapaz, mas sim uma mulher com cabelos negros e lustrosos, com reflexos azulados sob a luz, caídos em ondas longas e sedosas. Seu rosto, de contornos nobres e delicadamente esculpidos, tinha uma expressão serena, contrariando a repentina situação. Os olhos da jovem, de um azul hipnótico e cintilante como safiras, e os cílios longos e densos que projetavam sombras sutis sobre sua pele de porcelana levemente corada, encararam o oficial à sua frente sem hesitar ou demonstrar qualquer emoção. — Que incomum... Não esperava que esse pequeno ladrão fosse, na verdade, uma dama… Muito menos esperava ver um ladrão com escolta — murmurou ao notar a presença de um homem que, a poucos passos, também empunhava sua espada em defesa da jovem, contra ele. — Abaixe sua espada — ordenou o comandante com frieza, seus olhos semicerrados avaliando o adversário.






