Mundo ficciónIniciar sesiónEla foi sequestrada por engano. Ele deveria libertá-la. Mas Zian Matias nunca foi capaz de abrir mão do que lhe despertava interesse. Dulce Maite, uma estudante de Artes Cênicas de vinte e um anos, levava uma vida simples em Sevilha. Órfã desde criança, aprendeu a encontrar beleza nas pequenas coisas e a sonhar com um futuro construído por seu próprio esforço. Tudo muda quando ela é confundida com outra mulher e sequestrada por uma organização criminosa que atua nas sombras. No centro dessa organização está Zian Matias. Brilhante, frio e obcecado por controle, Zian construiu um império invisível. Dono de uma mente excepcional, ele é capaz de destruir carreiras, expor segredos e arruinar vidas sem precisar derramar uma única gota de sangue. Pessoas influentes o temem. Seus inimigos evitam pronunciar seu nome. E aqueles que ousam traí-lo raramente conseguem se reerguer. Quando descobre que Dulce não era o alvo do sequestro, libertá-la deveria ser a decisão mais lógica. Mas ela desperta algo que nunca existiu em seu mundo perfeitamente organizado. Quanto mais Dulce tenta recuperar sua liberdade, mais Zian se vê fascinado pela jovem que desafia todas as suas regras. E quanto mais ele se aproxima, mais perigosa se torna a linha entre proteção e possessão. Agora, presa em um jogo de poder do qual nunca quis fazer parte, Dulce precisará decidir se foge do homem que pode destruir sua vida... ou se confia naquele que parece disposto a destruir o mundo para mantê-la ao seu lado. Porque Zian Matias controla informações, dinheiro e pessoas. Mas Dulce Maite é a única coisa que ele jamais conseguiu controlar.
Leer másDulce Maite — Sevilha, Espanha
Paro em frente ao espelho do quarto, encarando meu reflexo. Eu vestia um vestido preto florido, os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo desajeitado e, para variar, eu estava vinte minutos atrasada. — Vamos lá, Candy... Se você se atrasar mais um pouco, o professor Léo te mata — digo para mim mesma, em voz alta, enquanto caminho apressada em direção à cozinha . O tempo está correndo. Pego a caixa de leite e o achocolatado no armário, misturo ambos rapidamente em um copo e tomo em grandes goles. Antes de sair, agarro uma maçã em cima da mesa e dou uma mordida generosa. — Onde deixei meu cartão? — murmuro, olhando ao redor e tentando achar o bendito cartão de ônibus. Olho nos bolsos, na mesa, no sofá... Nada. Depois de alguns minutos de puro desespero, consigo encontrá-lo dentro da geladeira. Não me perguntem como ele foi parar lá, porque nem eu mesma sei como aquilo aconteceu. Coisas de mente de artista. Com o cartão de ônibus em uma das mãos, a mochila pesada nas costas, a maçã mordida e a chave do apartamento na outra, finalmente deixo meu pequeno porto seguro. Assim que piso na rua, começo a correr para alcançar o ponto de ônibus. Por pura sorte, o motorista ainda estava parado, esperando os últimos passageiros. Aquela manhã era crucial. Hoje seria a apresentação da cena que eu havia ensaiado exaustivamente durante duas semanas. Se eu me saísse bem, poderia finalmente conseguir uma recomendação do corpo docente para uma audição importante no teatro local. Era a minha chance. Consigo alcançar a porta do transporte a tempo e entro com o coração na boca, passando o cartão para pagar a passagem. — Bom dia — digo ao motorista, tentando recuperar o fôlego. Ele apenas responde com um aceno de cabeça econômico. Ocupo o primeiro lugar vago na janela. Por sorte, o ônibus está quase vazio. Desfaço o nó dos meus fones de ouvido — daqueles velhinhos, com fio mesmo — e os conecto no celular. — Funciona, coisa... — resmungo, irritada, quando percebo que um dos lados parou de pegar de repente. Esse era o grande mal de usar fones desse tipo. Mas, mesmo com o fio meio partido, eu não abria mão deles por nada. Até porque, na minha cabeça, era bem melhor ter só um lado do fone funcionando do que ter um fone sem fio moderno que descarrega a qualquer momento e te deixa no silêncio. — Vamos começar com um melodrama — falo sozinha, arrastando o dedo pela tela, procurando uma música bem dramática na minha playlist. Às vezes eu era tão boba que começava a chorar com músicas das quais nem sabia a tradução. Minha mente de estudante de teatro criava todo um cenário cinematográfico na janela do ônibus. Como muitos conhecem por aí, eu criava uma fic... e, no meu caso, era uma fic dentro da própria fic da minha vida. Quando finalmente desço do ônibus, o trânsito já havia feito o seu trabalho: eu estava tranquila, mas oficialmente com meia hora de atraso. Apresso o passo pelos portões da faculdade. Assim que entro no corredor principal, avisto Érika. Ela parecia extremamente nervosa, andando de um lado para o outro enquanto segurava o celular com força na mão. Franzo a testa, diminuindo o passo ao notar sua agitação. — Ei, Érika, o que foi? — pergunto ao parar do seu lado. Ela se sobressalta de leve, mas logo abre um sorriso amarelo, tentando disfarçar a tensão. — Nada, só uns problemas pessoais — respondeu, guardando o aparelho no bolso. Observo os olhos dela por alguns segundos, sentindo que havia algo errado, mas decido respeitar o espaço dela e apenas assinto. — Se precisar de ajuda com algo, sabe que pode contar comigo — ofereço, tocando levemente em seu ombro. Ela assente, parecendo aliviada com a mudança de foco. — Você está atrasada, o professor está um nervo só, já que a estrela dele não chegou — brinca, mudando completamente de assunto e apontando para a porta do laboratório de teatro. Solto uma risada leve, sentindo o frio na barriga voltar. — Pois é, nem me fale — digo, revirando os olhos com humor. — Acredita que meu despertador quebrou? Ela nega com a cabeça, rindo da minha falta de sorte crônica. — Dorminhoca — implica com carinho. — Vamos, senhora dorminhoca, acalmar a fera do professor Léo — completa, me puxando pelo braço em direção à nossa sala. Enquanto caminho com Érika em direção à sala, um arrepio súbito percorre minha espinha. Sinto uma energia negativa esquisita, como se estivesse sendo observada de longe. Olho de relance para trás, mas não vejo ninguém suspeito, apenas alguns colegas de outros cursos conversando perto dos armários. — O que foi? — Érika nota minha inquietude. Nego com a cabeça, tentando espantar o pressentimento. Talvez fosse só o sono; eu tinha dormido muito mal na noite anterior. Assim que adentramos a sala de teatro, todos os olhares recaem sobre nós. Sinto minhas bochechas corarem de vergonha imediatamente. Eu era tímida por natureza, o que parecia uma ironia para alguém que queria ser atriz. O professor Léo vem direto em nossa direção, cruzando os braços. — A mocinha está atrasada — disse ele, ajeitando os óculos. — A audição já começou — completa. Engulo em seco, sentindo o estômago dar um nó. — Desculpe, peguei trânsito, não vai acontecer mais — justifico, olhando para os meus pés. Confiança definitivamente não era o meu forte. O professor solta um suspiro dramático, mas seus olhos são compreensivos. — Tá, tá, para de me encarar com essa cara de choro e vai lá para trás se preparar, você é a próxima, arrase! — ordena, acenando com as mãos para que eu me apressasse. Abro um sorriso gigantesco, sentindo o alívio me inundar. — Obrigada, professor — digo, correndo para trás do palco. Érika vem logo atrás de mim, pronta para me ajudar com o figurino. — Você consegue, Candy — murmuro para mim mesma, tentando controlar os batimentos cardíacos. As cortinas se abrem e, de repente, sinto meu corpo travar por inteiro ao ver tantas pessoas me observando lá de baixo. Fico totalmente parada, encarando a plateia. Eu e minha maldita timidez. — Vai lá, Dulce, você consegue! — Érika incentiva, sussurrando dos bastidores. Respiro fundo, dou um passo à frente e tomo coragem para quebrar o silêncio. — Sou Dulce Maite, desculpe, estou um pouco nervosa... Posso começar de novo? — minhas mãos tremem visivelmente. Os juízes na primeira fileira assentem com a cabeça, compreensivos. Volto a respirar fundo, fecho os olhos por um segundo e recomeço. Dessa vez, a mágica do teatro acontece: consigo me apresentar e entregar tudo de mim na cena. Quando as cortinas finalmente se fecham, sinto um alívio avassalador tomar conta do meu peito. — Aí, caramba, achei que meu coração fosse sair pela boca — comento com Érika, que já me estende uma garrafa d'água. Ela ri da minha reação dramática. — Você está exagerando. Mesmo que tenha travado um pouco no início, você mandou bem demais — elogia, me dando um tapinha encorajador no ombro. Sorrio. Ela sempre dava um jeito de me animar quando eu duvidava de mim mesma. — Obrigada, você é a melhor amiga que eu poderia ter — digo, e me jogo em seus braços em um abraço apertado. — Óbvio, o que seria de você sem mim? — brinca, retribuindo o gesto. Depois de algum tempo, a hora do almoço finalmente chega e nós duas vamos juntas para a cantina da faculdade. Pegamos nossas bandejas, mas, na hora de passar pelo caixa, a situação fica tensa. — Desculpe, mas seu cartão foi recusado — a moça que serve a comida fala para Érika. Minha amiga fica completamente sem graça, o rosto ganhando um tom vermelho enquanto ela abaixa a cabeça, encabulada. — Desculpe! — balbucia Érika, prestes a devolver o prato. Antes que ela passe mais vergonha, pego o meu próprio cartão e o estendo para a funcionária, pagando o almoço dela sem hesitar. — Deixa que eu pago o dela — peço com um sorriso leve. — Prontinho, vamos sentar ali — indico para Érika, apontando para uma mesa vazia no canto. Nós nos sentamos e o clima pesado logo se dissipa. — Obrigada, depois eu te devolvo o dinheiro — agradece ela, ainda um pouco sem jeito. Nego com a cabeça, desconsiderando o assunto. — Não precisa, somos amigas. Sei que se fosse eu, você faria o mesmo. Ela sorri, grata. — Sem pensar duas vezes. A hora de ir embora se aproxima. Érika precisou sair um pouco mais cedo porque tinha alguns problemas pessoais para resolver, então sigo o caminho de volta para casa andando. Sevilha havia amanhecido calma hoje, mas agora o céu exibe nuvens pesadas e cinzentas; o clima típico de chuva iminente. No meio do caminho, meu celular começa a tocar na mochila. Paro na calçada para atender. Na tela, brilha o nome de Jonas, um colega da igreja. — Oi, Jonas — atendo, abrindo um grande sorriso ao ouvir a voz dele. Nesse exato momento, um carro preto de vidros escuros encosta devagar junto ao meio-fio da rua deserta. Não dou muita atenção ao veículo e continuo concentrada na ligação. — Só liguei para avisar que hoje teremos o ensaio do coral, para você não esquecer, hein — avisa Jonas do outro lado da linha. Eu tinha esse terrível costume de esquecer as coisas, principalmente compromissos e eventos importantes. — Ok, obrigada por avisar, eu já tinha até esquecido... — começo a responder, mas a frase morre na minha garganta. A porta do carro se abre abruptamente. Antes que eu possa reagir ou gritar, um vulto surge atrás de mim e um pano preto embebido em um líquido forte tampa meu nariz e minha boca. Sinto um cheiro químico e avassalador. Tento lutar, minhas pernas vacilam e o celular escapa dos meus dedos, caindo na calçada. Meu corpo perde as forças rapidamente e apago por completo enquanto me debato inutilmente contra os braços que me prendem.Dulce Maite — Sevilha, EspanhaZian pediu para eu esperar no meu quarto enquanto ele providenciava uma televisão para mim. Fiquei me perguntando de onde ele tiraria um aparelho tão rápido, mas decidi não questionar e apenas obedecer.Ao empurrar a porta e voltar para o cômodo, tenho uma surpresa: encontro a cama cheia de sacolas de lojas sofisticadas. Corro animada para abrir cada uma delas. Eram as roupas que Félix tinha ficado de trazer.— Ele tem bom gosto — comento sozinha, abrindo um sorriso largo enquanto puxo uma saia linda de dentro de uma das sacolas. As peças combinavam perfeitamente com o meu estilo.Depois de verificar detalhadamente tudo o que havia ganhado e organizar peça por peça dentro do closet espaçoso, o silêncio do quarto volta a reinar. Me sento na beirada da cama, o tédio batendo com força.— Hum... Cadê o meu celular? Vou conferir as minhas redes sociais — murmuro de forma automática.Começo a tatear os lençóis da cama à procura do aparelho, tonta de sono, até
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaZian ainda me encarava com aqueles olhos penetrantes. Tento forçar um sorriso amigável, mas falho miseravelmente; eu nunca fui boa em disfarçar quando estava nervosa.— Dulce? Dul? Você ainda está aí? — a voz de Jonas ainda ecoava na linha, me chamando.Volto minha atenção para o aparelho, pigarreando.— Sim, estou! — sou curta. — Não se preocupe comigo. Quando o intercâmbio acabar, eu voltarei. Até lá, cuide da Rachel e da Samantha para mim — peço.Rachel e Samantha são duas plantas. Sim, elas têm nomes. Como sou uma pessoa um pouco solitária, colocar nomes em seres botânicos era algo perfeitamente normal para mim.A risada contagiante de Jonas do outro lado da linha me traz uma onda instantânea de alívio. Eu havia conseguido. Ele não iria me procurar ou desconfiar pelos próximos dias.— Certo, certo. Não irei deixar elas morrerem — diz ele, ainda rindo.Abro um sorriso, desta vez não forçado, mas sincero.— Obrigada, você é o melhor — digo, animada. —
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaSentamos na bancada para lanchar, mas a imagem do nome de Érika brilhando na tela do celular de Zian recusava-se a sair da minha mente. Eu mastigava mecanicamente, os pensamentos correndo a mil por hora.— Finalmente ficou quieta — observa Zian, quebrando o silêncio enquanto me avalia. — No que tanto pensa?Tento engolir o alimento e disfarçar minha inquietude, forçando uma expressão neutra.— Na faculdade, nos meus amigos... Resumindo, em tudo. Mesmo que tenha passado pouco tempo, sinto falta de casa — respondo. Não era uma mentira, só não era o foco principal do que eu pensava no momento.Seus olhos escuros se estreitam ligeiramente, fixos em mim.— Amigo? O que você ligou agora pouco? — questionou.De tudo o que eu havia falado, parecia que ele tinha ouvido apenas a palavra "amigo". No caso, eu tinha dito no plural, mas ele claramente direcionou a pergunta a alguém em específico.— Sim, gosto muito dele. A propósito, ele estava me esperando para o ens
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaEngulo em seco. O homem na minha frente tinha deixado bem claro que, enquanto não soubesse o que fazer comigo, eu não sairia dali. Ou seja, eu estava oficialmente presa.— Você não pode fazer isso, o erro foi de vocês — acuso, tentando buscar alguma firmeza na voz, embora minhas pernas ainda tremam.Sua expressão não muda nem por um segundo. Ele permanece calmo, frio e totalmente controlado.— Você não ficará presa, apenas não poderá sair daqui. Pegue e ligue para alguém que te conheça e que possa notar o seu sumiço — diz ele, estendendo um celular moderno na minha direção. — Não preciso dizer o que você não deve falar, certo?Nego com a cabeça, entendendo perfeitamente a ameaça implícita. Pego o aparelho e começo a digitar o número de Jonas, mas, antes de apertar o botão para chamar, me recordo de um detalhe importante:— Não acha que faria mais sentido eu ligar do meu celular? Tipo, não levantaria tanta suspeita, e eu também preciso tirar uma licença d
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