Capitulo 5

Dulce Maite — Sevilha, Espanha

Zian ainda me encarava com aqueles olhos penetrantes. Tento forçar um sorriso amigável, mas falho miseravelmente; eu nunca fui boa em disfarçar quando estava nervosa.

— Dulce? Dul? Você ainda está aí? — a voz de Jonas ainda ecoava na linha, me chamando.

Volto minha atenção para o aparelho, pigarreando.

— Sim, estou! — sou curta. — Não se preocupe comigo. Quando o intercâmbio acabar, eu voltarei. Até lá, cuide da Rachel e da Samantha para mim — peço.

Rachel e Samantha são duas plantas. Sim, elas têm nomes. Como sou uma pessoa um pouco solitária, colocar nomes em seres botânicos era algo perfeitamente normal para mim.

A risada contagiante de Jonas do outro lado da linha me traz uma onda instantânea de alívio. Eu havia conseguido. Ele não iria me procurar ou desconfiar pelos próximos dias.

— Certo, certo. Não irei deixar elas morrerem — diz ele, ainda rindo.

Abro um sorriso, desta vez não forçado, mas sincero.

— Obrigada, você é o melhor — digo, animada. — Quando eu voltar, te pago um jantar — completo.

— Hum... Me convidando para sair? Olha, não precisava usar as plantas como desculpa se queria sair comigo, era só dizer. Eu não recuso, não! — Claro que o Jonas não perderia a chance de zoar com a minha cara.

— Babaca — xingo brincando. — Tenho que desligar agora. Se cuida e tente não enlouquecer enquanto eu estou fora, ok?

— Não prometo nada, mas vou tomar meus remédios direitinho se você me ligar todos os dias... — diz ele.

Faço uma pausa dramática. Sair daquela situação estava se tornando realmente difícil. Eu não teria o menor problema em ligar para o Jonas, mas não sabia se o Zian deixaria; afinal, aquilo poderia comprometê-lo de alguma forma.

— Não sei se vai dar para te ligar todos os dias. Sabe como eu sou esquecida, né? — brinco, ao mesmo tempo em que tento soar séria para dar o alerta.

De relance, vejo Zian fazer um sinal impaciente com a mão para que eu coloque o celular no mudo. Finjo que não percebi o comando e continuo a conversa com Jonas.

— Verdade. Você só lembra de comer porque seu estômago avisa, e, mesmo assim, só come quando está quase desmaiando — Jonas lembra, me conhecendo bem demais. — Deixa que eu te ligo todos os dias. Quem precisa se cuidar é você, ainda mais agora que está completamente sozinha — comenta.

Quero rebater, mas como tudo o que ele disse é a mais pura verdade, fica difícil. Contra fatos não há argumentos.

— Novamente você está certo. Então me ligue todos os dias. Se eu não atender, é porque morri — brinco.

Zian estreita os olhos imediatamente, a mandíbula travando, e Kiliam se levanta da cama na mesma hora, perdendo a postura relaxada.

— Claro. Você tem o costume de hibernar durante o sono. Ligo umas cinco vezes; se não atender, concluirei que está viva — Jonas fala, rindo do outro lado.

Era hora de encerrar aquela ligação que já estava longa demais para o meu gosto. Eu não gostava que me ligassem e nem que me mandassem áudios extensos; preferia ler uma mensagem longa do que passar horas em uma ligação. Era cansativo e entediante.

— Vou desligar agora — aviso de uma vez.

— Verdade, você não é muito fã de conversar pelo celular. Vá lá ler um bom livro e não esqueça de comer algo salgado para a pressão. Se sua pressão cair, já era, não vou estar aí para te socorrer, não! E também não esqueça de tomar aquele seu remédio — Jonas começa a ditar suas recomendações.

Eu tinha um problema crônico de pressão baixa, então precisava sempre comer algo salgado para não passar mal. Quanto ao remédio, eu sofria com asma, que atacava com certa frequência, mas nada muito sério.

— Eu sei, não vou esquecer. Tchau! — desligo rapidamente, antes que ele continue a falar e acabe revelando mais da minha ficha médica.

Zian praticamente toma o celular da minha mão com um movimento brusco.

— Ficou louca? — sua voz sai grossa e cortante, preenchendo o quarto.

Eu não achava que tinha feito nada de errado, então realmente não entendia o motivo de ele estar tão nervoso.

— Por quê? Não fiz nada — rebato, cruzando os braços.

Kiliam se aproxima de nós dois, a testa franzida.

— Como não? Você disse que, se não atendesse o celular, seria porque estaria morta. Se esse coleguinha ligar e você não atender, ele não irá chamar a polícia? — fala, seu tom de voz assumindo uma seriedade incomum.

Ah. Então era por isso. Que bando de exagerados.

— Não vai, não. Eu só falei aquilo porque tenho um sono muito pesado. Ele sabe que eu estava apenas brincando. Fiquem tranquilos — digo, revirando os olhos.

— Tranquilos? Acha que, nessa situação, dá para manter a tranquilidade? — Zian pergunta, dando um passo intimidador na minha direção.

Dou de ombros, sem me abalar. Eu, que era a verdadeira vítima ali, não estava me desesperando. Por que eles, que eram os carrascos, estavam tão tensos?

— Eu que fui sequestrada aqui, sou a vítima. Estar nervosa e falar demais é perfeitamente normal na minha situação — argumento, apontando para o meu próprio peito. — Por fim, a culpa é de vocês. Me deram o celular e me deixaram falar qualquer coisa sem combinar um roteiro antes. Além disso, ainda são burros: sequestram a pessoa errada e ainda não querem nem me deixar ver uma simples série — faço drama, soltando um suspiro indignado.

Zian me encara por alguns longos segundos, completamente incrédulo. O silêncio no quarto fica tão espesso que daria para cortá-lo com uma faca.

Kiliam leva a mão ao rosto e balança a cabeça negativamente.

— Chefe... — murmura ele, parecendo não acreditar no que ouviu. — Ela acabou de chamar a gente de burro na nossa própria casa.

Abro um sorriso atrevido, sentindo a adrenalina de estar com a razão.

— Isso mesmo. Vocês claramente estão no ramo errado, não sabem nem manter uma vítima presa direito — falo, gesticulando com as mãos.

Sem dizer uma única palavra, Zian se vira de costas e sai do quarto com passos firmes, deixando tanto eu quanto Kiliam sozinhos e completamente confusos.

— Ei, Zian! A conversa ainda não acabou, você não xingou essa mal-educada! — gritou Liam em direção ao corredor vazio.

Olho para ele, profundamente indignada. Eu, mal-educada?

— Mal-educada é a... — não completo a frase, porque os passos pesados retornam.

Zian volta para dentro do quarto. E com ele traz uma corda grossa enrolada na mão.

Oi? O que ele faria com aquilo?

Sinto minha boca secar instantaneamente e meu sorriso desaparece.

— Hum... O que você vai fazer? — pergunto, dando alguns passos instintivos para trás.

A expressão dele era neutra, uma parede de gelo impossível de decifrar.

— Você não acha que sou bonzinho demais? — questiona, os olhos cravados nos meus enquanto desenrola a corda lentamente. — Então agora vou te prender de verdade. Talvez assim você pare de reclamar da forma como está sendo tratada.

Sua voz sai fria, baixa e carregada de perigo, fazendo todos os pelos do meu braço se arrepiarem.

Liam, por outro lado, parece se empolgar com a ideia.

— Ei, Zian! Que tal pedirmos um resgate também? Afinal, temos que fazer o serviço completo e do jeito certo, para satisfazer as altas exigências da madame aqui — diz ele, rindo e apontando para mim com o polegar.

Engulo em seco e dou mais uns passos para trás, batendo com a parte de trás das pernas na beirada da cama.

— Não! Eu estou muito bem assim, não precisam se incomodar. Eu nem estou reclamando... — o nervosismo b**e de verdade, e a minha coragem de instantes atrás se dissolve no ar.

Ele abre um pequeno e quase imperceptível sorriso no canto dos lábios.

— Com medo? — perguntou, a voz assustadoramente calma.

O que eu faço? O que eu faço? Forço a minha cabeça para tentar pensar em alguma saída brilhante, mas não me vem nada. Minha única defesa é a minha boca.

— Um pouco óbvio, não acha? Olha o seu tamanho! Sem contar que você está com um número maior de pessoas do que eu. Por acaso eu deveria me sentir a heroína de um filme de ação? — ergo a sobrancelha, tentando manter a pose de durona, apesar do meu coração estar batendo na garganta.

Liam quebra o clima de tensão ao caminhar até mim e colocar as duas mãos no meu ombro com leveza.

— Relaxa, irmã, só estamos brincando — diz ele, com um sorriso divertido no rosto.

Olho para o loiro de soslaio. Eu realmente devia confiar na palavra de um cara que ajudou a me sequestrar?

— Zian? — chamo, buscando a confirmação do homem com a corda nas mãos.

— Dessa vez passa. Na próxima, não espere a mesma paciência. — dita ele com firmeza, dando meia-volta e indo embora do quarto.

Solto todo o ar dos meus pulmões de uma vez só, respirando aliviada.

— Viu? É melhor não ficar se fazendo de vítima o tempo todo, ele pode não gostar — Liam avisa, dando tapinhas de leve no meu ombro antes de também dar as costas e ir embora, fechando a porta atrás de si.

Fico parada no meio do quarto, piscando os olhos e olhando para a madeira da porta.

— Mas eu sou uma vítima — murmuro para o vazio, inconformada.

De repente, um estalo dá na minha mente. Minha indignação anterior retorna com força total. Eles não podiam me deixar trancada aqui sem entretenimento!

— Ei! E os meus doramas?! — grito bem alto em direção ao corredor para chamar a atenção dele, mas não obtenho resposta.

Droga. Um dia inteiro sem os meus dramas coreanos... Como eu vou conseguir dormir à noite?

— Zian... Zian... Ziannn! — exclamo e saio correndo do quarto, indo direto para o corredor à procura dele.

De jeito nenhum eu vou ficar sem os meus doramas. Ele que lute.

No corredor, dou de cara com Zian. Ele está ao telefone e sua postura é rígida. Penso em dar meia-volta e esperar um momento mais propício, mas o tom de sua voz acaba me prendendo no lugar:

— Eu não quero saber! Dê um jeito de encontrar ela! — a voz dele estava carregada de uma fúria contida, quase um rosnado.

Houve uma pausa do outro lado da linha. Não consegui ouvir a resposta, mas pelo modo como a mandíbula de Zian travou, foi algo que o deixou ainda mais irritado.

— Quero ver a Érika pessoalmente... — ele começou a dizer, mas parou no meio da frase.

Como se sentisse o peso do meu olhar, ele virou o rosto lentamente para trás, seus olhos encontrando os meus. Eu travei. Engoli em seco, estendendo a mão num aceno sem graça.

— Oi... — ensaiei um sorriso amarelo, torcendo para que ele não estivesse bravo comigo pelo flagra.

— Falo com você depois — ele encerrou a ligação, guardando o aparelho no bolso enquanto caminhava na minha direção com passos lentos e intimidadores. — O que você quer, afinal?

O que eu queria? A lista era longa, mas o meu desespero pela rotina era maior. Respirei fundo, esquecendo completamente que ele era um homem perigoso, e foquei na minha necessidade de sobrevivência.

— Uma televisão! — disparei, recuperando a confiança. — E preciso de assinaturas na N*****x, A****n Prime, Viki e Disney+. Pode ser? Por favor, por favor, por favor! — pedi, juntando as mãos em sinal de súplica, como se estivesse pedindo pelo fim da fome mundial.

Ele suspirou fundo, passando a mão pelo rosto, visivelmente confuso com o rumo que aquela conversa estava tomando.

— Sério isso? É só isso que você quer? — perguntou, a voz quase descrente.

Assenti freneticamente com a cabeça, com os olhos brilhando.

— É uma questão de saúde mental, Zian! — justifiquei.

Ele ficou em silêncio por um segundo, analisando meu rosto para ver se eu estava brincando. Ao perceber que eu falava absolutamente sério, ele soltou um bufo que quase pareceu uma risada contida.

— Certo... vamos lá. Vou arrumar uma televisão para você — ele concordou, dando um passo lateral para que eu passasse pelo corredor.

Yes! Vitória! A vida de prisioneira agora tinha potencial para virar uma maratona de fim de semana. Ainda era um cativeiro... mas, pelo menos, um cativeiro com doramas.

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