Mundo de ficçãoIniciar sessãoDulce Maite — Sevilha, Espanha
Engulo em seco. O homem na minha frente tinha deixado bem claro que, enquanto não soubesse o que fazer comigo, eu não sairia dali. Ou seja, eu estava oficialmente presa. — Você não pode fazer isso, o erro foi de vocês — acuso, tentando buscar alguma firmeza na voz, embora minhas pernas ainda tremam. Sua expressão não muda nem por um segundo. Ele permanece calmo, frio e totalmente controlado. — Você não ficará presa, apenas não poderá sair daqui. Pegue e ligue para alguém que te conheça e que possa notar o seu sumiço — diz ele, estendendo um celular moderno na minha direção. — Não preciso dizer o que você não deve falar, certo? Nego com a cabeça, entendendo perfeitamente a ameaça implícita. Pego o aparelho e começo a digitar o número de Jonas, mas, antes de apertar o botão para chamar, me recordo de um detalhe importante: — Não acha que faria mais sentido eu ligar do meu celular? Tipo, não levantaria tanta suspeita, e eu também preciso tirar uma licença da faculdade — aponto, tentando cobrir todas as pontas soltas. Embora eu estivesse em uma situação onde claramente não tinha o direito de impor minhas opiniões, não podia deixar que eles prejudicassem o meu futuro. A faculdade era a coisa mais importante na minha vida. — Ajeitarei as coisas para você em relação à faculdade. Quanto ao seu celular, não está mais aqui. Ligue desse mesmo. Se não se lembra do número, também posso resolver esse problema, basta me dar o nome da pessoa — responde ele, com uma seriedade que me dá calafrios. Suspiro, derrotada. Eu realmente não conseguia convencer ninguém naquela casa. — Não precisa, lembro bem o número — rebato, e finalmente coloco a ligação para chamar. Passo alguns minutos tentando, mas a linha apenas chama até cair. Jonas parecia estar ocupado demais para atender o telefone. Desisto frustrada depois da quinta tentativa. — Ele não atende — aviso, entregando o celular de volta para o homem. — Quem é ele? — questiona, arqueando uma sobrancelha com um brilho analítico no olhar. — Um amigo — respondo de forma simples, sem querer dar detalhes da minha vida. — Certo, mais tarde tentaremos novamente — ele guarda o aparelho no bolso do terno. — Sou o Zian — se apresenta por fim. Zian. O nome ecoa na minha mente. Zian parecia o oposto completo de Liam. Enquanto o capanga era animado, falante e totalmente sem noção, o chefe era calmo, controlador, um homem de poucas palavras e uma frieza cirúrgica. Por falar no loiro, ele estava demorando uma eternidade com a minha água e os meus lanches. — Hum... Você não viu o Liam pelo caminho para cá? Ele disse que me traria água e lanche — comento, olhando em direção ao corredor vazio. Zian franze a testa por um breve momento, desfazendo sua expressão impassível. — O Kiliam? — pergunta, e eu concordo com a cabeça. — Saiu, disse que iria comprar algumas coisas. Está com fome? Preparo um lanche para você! Meus olhos brilham e minha barriga ronca alto só de ouvir a palavra lanche. — Quero sim, estou faminta — concordo, esquecendo por um segundo o medo que deveria estar sentindo. Ele se vira e sai do quarto. Logo em seguida, ouço sua voz ecoar pelo corredor: — Venha, não vou trazer o lanche no quarto para você. Abro um sorriso involuntário. Finalmente eu sairia daquelas quatro paredes. Apresso o passo e sigo logo atrás dele, observando a imponência de suas costas. — Sua casa é bonita, Zian. Quantos anos você tem? — pergunto, tomada pela curiosidade sobre o meu captor enquanto começamos a descer a imensa escadaria. — Trinta e um anos — responde ele, sem parar de caminhar. — Não parece. E o Liam? — continuo com a minha enxurrada de perguntas. Zian para por um breve instante no último degrau e olha para trás por cima do ombro, me encarando de forma intensa. — Você é bem curiosa, né? — questiona. Ignoro o aviso em seu tom e olho ao redor. Chegamos à sala principal: o espaço era enorme e muito bem decorado, predominando os tons escuros, mas com um ar extremamente moderno e sofisticado. — Na verdade não, sou bem tímida. Mas acontece que estou nervosa, e quando isso acontece, costumo falar pelo cotovelo — admito, dando de ombros. Nesse momento, um outro homem aparece no nosso ponto de visão, saindo de um dos cômodos da mansão. — Quem é esse? — pergunto, levantando a mão e apontando diretamente para o desconhecido. Antes que eu possa piscar, Zian se aproxima e segura o meu dedo indicador com firmeza, abaixando minha mão. O toque de seus dedos é quente e firme contra a minha pele. — Seja mais educada, é falta de educação apontar para as pessoas. Por fim, respondendo à sua pergunta, esse é o Félix, o que ajudou o Liam a te sequestrar — revela, com o tom de voz totalmente seco e direto. Olho assustada para o tal Félix, esperando uma postura ameaçadora, mas o homem à minha frente apenas abre um sorriso sem jeito. — Bom... Foi mal. Você meio que estava de costas e achamos que era sua amiga — justifica-se, fazendo gestos desajeitados com as mãos. Parando para pensar, no que raios eu sou parecida com a Érika? Tipo, eu tenho cabelos castanhos-claros, olhos escuros e sou baixa, enquanto ela é ruiva natural, tem olhos verdes, sardas e é alta. Repetindo: ela é ruiva. Então, eu pergunto mentalmente: como raios fomos confundidas por profissionais do crime? — Eu não diria que somos parecidas, talvez vocês precisem de óculos. Por falar nisso, você viu o meu? Não enxergo muito bem sem ele — comunico, olhando ao redor com os olhos semicerrados. Zian se vira para o capanga, a voz assumindo aquele tom de comando que não aceita réplicas: — Providencie isso para ela e também algumas roupas, itens pessoais e um quarto. Félix retira as mãos dos bolsos, assentindo com presteza. — Quer que eu pinte o quarto também? Alguma cor específica para as roupas, tamanho? — pergunta ele, encarando o chefe. Vejo um bloco de notas em cima da mesinha de centro da sala. Vou até lá e o pego; por sorte, havia uma caneta logo ao lado. Sem perder tempo, começo a anotar detalhadamente tudo o que eu iria precisar para os próximos dias de confinamento. — Aqui, está tudo anotado, não esqueça nada, por favor — peço, estendendo a folha arrancada para Félix. Ele assente, pegando o papel. — Vamos, a cozinha fica ali — Zian interrompe, saindo em direção ao cômodo vizinho. Eu o sigo de perto, curiosa. Assim que entro na imensa e moderna cozinha, meus olhos batem diretamente em uma fruteira de inox. Vejo um abacate perfeitamente maduro na bancada da pia. — Posso fazer uma vitamina de abacate? — peço, olhando para ele com expectativa. Zian desvia o olhar para a fruta por um breve instante antes de cravar seus olhos escuros nos meus. — Pode fazer o que quiser, em relação à comida. Mas para sair dessa casa, deve pedir permissão a mim — avisa, deixando as regras bem claras. Fico genuinamente animada com a nova informação. Significa que, desde que eu permaneça dentro dos limites da mansão, eu não precisaria dar satisfações a ele a cada passo que desse. Era uma pequena vitória na minha atual falta de liberdade. — Papai... — uma voz doce de menina ecoa, chamando a atenção. Pai? Meu coração dá um salto no peito e eu congelo onde estou. Ele tinha uma filha? Antes que eu possa processar a informação, duas crianças adentram a cozinha correndo. Pelo tamanho, eles pareciam ter cerca de onze anos, quase pré-adolescentes. Olho para os dois em choque, sentindo um estalo na minha mente... o meu sonho da noite passada. Os dois param abruptamente ao me ver ali. Juro que tinha sonhado na noite anterior com um homem misterioso e duas crianças, agora Zian e essas duas crianças estavam ali na minha frente. — Quem é ela? — as crianças perguntam em uníssono, olhando alternadamente entre mim e Zian. Meu olhar curioso não passa despercebido por Zian, que toma a frente para responder às crianças. — Dulce Maite — diz ele, de forma direta. Aceno timidamente para os dois, tentando parecer amigável apesar das circunstâncias. — Ela é sua namorada? — a menina pergunta, com os olhos muito abertos. Arregalo os meus próprios olhos, assustada com a audácia da garota. — Não! — Zian corta o assunto imediatamente. Seu tom é seco, gélido. — Então o que ela faz aqui? — a menina insiste, sem se deixar abalar pela grosseria do pai. Fico muda, preferindo me manter calada no meu canto enquanto observo a interação. — Irá morar conosco por um tempo — finalmente ele solta a bomba. No mesmo instante, os olhos da menina brilham em pura empolgação, enquanto o menino ao lado dela fecha a cara, parecendo profundamente incomodado com a novidade. — Legal! Vou ter alguém para conversar coisas de menina. Tia, sou a Zuria — apresenta-se, cheia de energia. Sorrio com a animação contagiante dela. — O meu nome você já sabe, não preciso repetir. E você, rapazinho? Como se chama? — tento puxar assunto com o garoto, buscando quebrar o gelo. — Matheus — soa vago, a voz quase morrendo no ar. Acho que ele não era muito chegado a conversas. Matheus. O nome combina com ele. Curto, simples e direto, exatamente como a resposta que acabou de me dar. — Prazer em conhecer você, Matheus — digo, mantendo um sorriso acolhedor. Ele apenas dá de ombros, desviando o olhar. — Tanto faz. — Math! — Zuria reclama imediatamente, cruzando os braços. — Seja educado. — Eu fui educado. — Não foi, não! Os dois começam uma pequena discussão ali mesmo, na beira da bancada. Pela primeira vez desde que acordei desesperada naquele lugar estranho, me pego soltando uma risada genuína. Zuria para de implicar com o irmão e volta toda a sua atenção para mim, os olhos faiscando de curiosidade. — Você gosta de filmes? — Gosto — respondo, achando graça. — E de maquiagem? — Um pouco. — E de sorvete? — Muito! — Eu sabia! — ela comemora alto, apontando para mim como se tivesse acabado de descobrir um segredo de Estado extremamente importante. Matheus revira os olhos, soltando um suspiro entediado. — Você fala com todo mundo como se conhecesse a pessoa há anos. — E você fala com todo mundo como se estivesse bravo com o mundo — Zuria rebate na hora. — Porque o mundo é irritante. — Você é irritante! — Você é mais. — Você é muito mais! Mantenho o sorriso no rosto enquanto os dois voltam a discutir por bobeira, mas aproveito o momento para observar Zian de relance. Ele continua parado perto da bancada de inox, assistindo a tudo em absoluto silêncio. Por um breve segundo, tenho a impressão de que sua expressão rígida parece um pouco mais relaxada do que antes. — Eles brigam assim o tempo todo? — pergunto a ele, em um tom mais baixo. — Todos os dias — responde ele, com sua calmaria habitual. — Mentira! — Zuria protesta, o ouvido afiado captando nossa conversa. Zian arqueia uma sobrancelha para a filha. — Ontem vocês discutiram por causa de um controle remoto. — Porque ele pegou o meu! — ela se defende. — Era nosso — Matheus corrige, sem paciência. — Era meu! — Nosso. Não consigo evitar e acabo rindo novamente. Por um instante, o medo evapora e eu esqueço completamente que fui sequestrada por engano. Por um breve e ilusório instante, aquilo tudo parece apenas a rotina de uma família comum. Até que o celular de Zian vibra em cima da bancada de pedra. O ambiente muda imediatamente. O ar na cozinha parece congelar. Ele abaixa o olhar para a tela e sua expressão endurece na mesma hora. Aquele vislumbre de humanidade desaparece, e o olhar frio, focado e calculista retorna no mesmo centésimo de segundo. — O que foi? — pergunta Matheus, astuto o suficiente para perceber a mudança drástica no pai. Zian bloqueia a tela com um clique rápido, guardando o aparelho no bolso do terno. — Nada que interesse a vocês — diz, a voz voltando a ser um muro intransponível. Mas ele foi lento demais. Eu vi. Por apenas um segundo, antes de a tela se apagar por completo, o nome de Érika brilhava em letras garrafais nas notificações. Meu sorriso desaparece lentamente, os músculos do meu rosto travando enquanto dou um passo discreto para trás. Não. Eu devia ter visto errado. O medo e o cansaço deviam estar pregando peças na minha mente. Mas o peso no meu estômago dizia o oposto: tinha sido Érika. Eu tinha certeza absoluta do que meus olhos recém-focados haviam lido. Olho para Zian, que agora exibe uma postura ainda mais rígida e distante, completamente alheio ao meu choque interno. A pergunta martela na minha cabeça, ensurdecedora: Por que o telefone de um líder criminoso estava recebendo mensagens da minha melhor amiga?






