Capitulo 4

Dulce Maite — Sevilha, Espanha

Sentamos na bancada para lanchar, mas a imagem do nome de Érika brilhando na tela do celular de Zian recusava-se a sair da minha mente. Eu mastigava mecanicamente, os pensamentos correndo a mil por hora.

— Finalmente ficou quieta — observa Zian, quebrando o silêncio enquanto me avalia. — No que tanto pensa?

Tento engolir o alimento e disfarçar minha inquietude, forçando uma expressão neutra.

— Na faculdade, nos meus amigos... Resumindo, em tudo. Mesmo que tenha passado pouco tempo, sinto falta de casa — respondo. Não era uma mentira, só não era o foco principal do que eu pensava no momento.

Seus olhos escuros se estreitam ligeiramente, fixos em mim.

— Amigo? O que você ligou agora pouco? — questionou.

De tudo o que eu havia falado, parecia que ele tinha ouvido apenas a palavra "amigo". No caso, eu tinha dito no plural, mas ele claramente direcionou a pergunta a alguém em específico.

— Sim, gosto muito dele. A propósito, ele estava me esperando para o ensaio do coral — lembro. Jonas tinha sido a última pessoa com quem falei antes de o pano preto apagar meus sentidos no meio da rua.

Zian franze a testa por um breve instante, parecendo processar a informação.

— Coral? É da igreja? — perguntou. Para a minha surpresa, seu tom de voz não carrega nenhum tipo de deboche ou julgamento.

— Sim, frequento duas vezes por semana — sou vaga na resposta.

Talvez ele não estivesse nem um pouco interessado na minha vida dentro da igreja. Afinal, nem todos seguiam uma religião ou tinham fé. Longe de mim julgar alguém por isso; cada um tem sua própria escolha e um caminho a percorrer. Não importa o que seja considerado certo ou errado aos olhos da sociedade, eu acreditava que todos, no fundo, podem ser salvos. Até mesmo homens como ele.

— Faz tempo que não entro numa igreja — ele confessa, olhando para o vazio por um segundo.

Sinto uma pontada de curiosidade e a vontade de perguntar o porquê surge imediatamente, mas me contenho. Sinto que ele não se sente muito à vontade com esse assunto; talvez aquele comentário tenha sido apenas um ato involuntário, um escape de seus próprios pensamentos.

— Talvez um dia você se sinta bem outra vez e volte a frequentar, nem que seja uma única vez — digo, oferecendo um sorriso brando.

Ele apenas assente com a cabeça, absorvendo minhas palavras em silêncio. Estávamos só nós dois na imensidão daquela cozinha; as crianças haviam subido para os quartos para tomarem banho e trocarem de roupa. O silêncio que se instala me dá espaço para pensar em outra coisa que estava me incomodando.

— A sua esposa não vai se importar comigo aqui?

— questiono. Na minha cabeça, se ele tinha filhos daquela idade, certamente era casado.

Embora há pouco tempo a Zuria tivesse perguntado se eu era namorada dele, o que indicava que ele estava sozinho, ainda assim me restava a dúvida de onde estava a mãe das crianças.

— Não sou casado. Não faça perguntas pessoais — responde ele, a voz tornando-se seca e ríspida em um piscar de olhos.

Concordo, encolhendo os ombros, mas a minha língua simplesmente não para dentro da boca.

— Última pergunta: ela vem aqui com muita frequência?

Zian solta um suspiro pesado, fechando os olhos por um breve instante, como se estivesse tentando recrutar até a última gota de seu autocontrole para não perder a paciência comigo.

— Foi embora para não voltar — dita, gélido.

Engulo em seco. Hum... Eu havia acabado de ultrapassar um limite perigoso.

— Desculpe, eu fui inconveniente. Não deveria me meter na sua vida pessoal — admito, olhando para as minhas próprias mãos na bancada, genuinamente arrependida por ter tocado em uma ferida dele.

Ele se levanta da banqueta, sua postura imponente bloqueando a luz do teto sobre mim.

— Não faça isso de novo. Existem assuntos que não dizem respeito a você. — avisa com frieza, antes de dar as costas e sair da cozinha, me deixando completamente sozinha com os meus pensamentos.

Bebo minha vitamina de abacate lentamente, apoiando os cotovelos na bancada e olhando para o nada.

— Se eu ao menos pudesse ver os meus coreanos... — suspiro, uma onda de drama pessoal me atingindo ao lembrar dos meus doramas inacabados. Eu precisava saber o final daquela temporada.

Nesse momento, Kiliam adentra a cozinha, carregando os braços cheios de sacolas de compras. Deixo o meu copo de lado e me levanto para ajudá-lo com o peso.

— Finalmente! Vem cá: você foi comprar a água na fonte, é? — pergunto, erguendo a sobrancelha diante da demora.

Ele solta uma risada alta, colocando as sacolas em cima da mesa.

— Claro! Nessa casa não tem água, estamos com problemas no encanamento — fala, com a maior cara de pau do mundo.

Balanço a cabeça negativamente, dividida entre achar graça e desconfiar da desculpa dele.

— Hum-hum... — murmuro. — Você viu meu celular por aí? Queria usá-lo para ver algumas séries — comento, tentando parecer despretensiosa.

Liam para imediatamente de guardar os mantimentos na geladeira e se vira, me encarando seriamente, embora haja um brilho divertido em seus olhos.

— Nem que eu fosse doido! Vai que você chama a polícia? Quer me queimar? — seu tom é totalmente descontraído, mas a resposta é definitiva.

Bufo, cruzando os braços e fazendo um bico emburrado.

— Eu já estou presa aqui, e agora não posso nem assistir às minhas séries? Sério isso? Nem os presos são tão limitados — tento argumentar, usando meu melhor tom de indignação dramática.

— Alguns têm televisão — acrescento, apontando o dedo na direção dele. — Aposto que até eles conseguem terminar uma temporada antes de serem libertados.

Liam para o que está fazendo e leva a mão ao peito, encenando uma falsa mágoa.

— Que comparação ofensiva. A gente te dá comida, quarto, vitamina de abacate e ainda somos os vilões?

— Porque vocês me sequestraram! — rebato na mesma hora, incrédula.

— Ah, verdade — concorda ele com a cabeça, com a maior naturalidade do mundo, como se tivesse acabado de se lembrar desse pequeno e insignificante detalhe.

Nego com a cabeça, contendo o riso. Com Kiliam o clima ficava muito mais leve, quase me fazia esquecer por alguns instantes a gravidade da situação.

— Então eu vou poder ter o meu celular? — volto a insistir, tentando arrancar alguma vantagem daquela descontração toda.

Ele nega imediatamente com o dedo indicador, estalando a língua.

— Kiliam! — resmungo, fazendo bico.

— Ah não, não aceito isso, você também não! — reclama ele, encenando uma indignação que me deixa confusa. — Qual é o problema de me chamar de Liam? Qual?! — exagera, jogando as mãos para o alto.

Reviro os olhos diante de tanto drama.

— Ok, não chamo mais, tá bom? — suspiro, me rendendo.

— Assim é bem melhor! Vamos lá conhecer o seu quarto, o Félix está quase voltando com as suas coisas — diz ele, puxando-me pela mão de forma animada.

Subimos os degraus em direção ao andar de cima, mas, para a minha surpresa, ele me guia de volta exatamente para o mesmo quarto onde acordei amarrada mais cedo.

— Eu já não estive aqui antes? O que preciso conhecer? — pergunto, erguendo a sobrancelha ao parar no meio do cômodo.

— Sei lá, falei por falar, sabe como é? Só para complementar a frase — Kiliam dá de ombros com a maior cara de pau.

— Você é bem peculiar — comento, balançando a cabeça.

Sem a menor cerimônia, ele se j**a de costas na cama. Bem, já que haviam dito que aquele quarto agora era meu, tecnicamente tudo o que estivesse ali me pertencia por enquanto.

— Ei, sai daí, folgado! — ordeno, aproximando-me e dando uns tapinhas em sua perna para que ele se mova.

— Eu não. Está muito bom aqui, vem relaxar ao meu lado — rebate ele, cruzando os braços debaixo da cabeça e fechando os olhos, folgado como ninguém.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa ou expulsá-lo dali de verdade, a porta se abre e Zian entra no quarto. Seus olhos escuros passam por Liam jogado na cama e depois se fixam em mim.

— Vamos tentar mais uma vez — diz, olhando diretamente nos meus olhos.

Oi?

Sinto minhas bochechas queimarem instantaneamente. Meu coração dá um salto descompassado no peito e eu travo no lugar.

— Hum... perdão? — pergunto, completamente confusa e com a mente disparando em direções perigosas.

Zian retira calmamente o celular do bolso do terno e o estende na minha direção. Só então a minha ficha cai e percebo que ele está falando, obviamente, da ligação telefônica. Que boba! Por um momento absurdo e embaraçoso, eu tinha pensado uma tremenda besteira.

— Ligar. Vamos ligar para o seu amigo — complementa ele, com a voz séria de sempre.

— Sim, sim... Espero que dessa vez o Jonas atenda — limpo a garganta, tentando disfarçar o meu constrangimento, e pego o aparelho para discar o número.

O celular chama duas vezes antes de a ligação ser finalmente atendida do outro lado.

— Alô? — ouço a voz de Jonas, soando totalmente despreocupada.

Esse insensível! Nem para estar desesperado ou sentindo a minha falta.

— Sou eu, Dulce — digo, tentando manter o tom de voz mais normal possível sob o olhar atento de Zian.

A linha fica muda por alguns segundos, como se ele estivesse processando.

— Oh, criatura, por onde andou?! Te liguei a tarde toda, fui até mesmo no seu apartamento... Você perdeu o ensaio! — ele começa a falar, a voz subindo de tom.

Fico o equivalente a meia hora apenas ouvindo suas reclamações em silêncio, esperando que ele se acalme para que eu possa falar.

— Ok, chega de falar! Eu tive um imprevisto e ficarei fora da cidade por alguns dias. Sabe, consegui um intercâmbio muito bom, vou viajar para Londres — minto de uma vez.

Eu odiava mentiras e evitava ao máximo contá-las na minha vida diária. Mas a realidade era completamente outra agora. Eu havia sido sequestrada por uma organização criminosa e estava presa em uma mansão com um homem perigoso; não podia envolver terceiros ou colocar pessoas inocentes em risco. Mentir para o meu melhor amigo era, naquele momento, a única forma de manter todos seguros.

Levanto os olhos após desligar o aparelho e encontro Zian me observando em absoluto silêncio.

Seu olhar escuro e impenetrável está fixo no meu rosto, sem dar pistas do que passa por aquela mente calculista. Não sei dizer se ele estava satisfeito por eu seguir suas regras de não revelar nosso paradeiro...

Ou se estava avaliando o quão boa eu era em mentir.

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