Capítulo 4

KADE

Não consigo deixar de me sentir um canalha de merda enquanto olho para ela dormindo no canto do carro, afastada ao máximo de mim, encolhida como se eu fosse uma ameaça da qual ela não queria sequer respirar o mesmo ar. E eu posso julgá-la por isso? Nunca.

Agora, de perto, consigo ver as consequências que ser capturada por aqueles monstros fizeram com ela. Estava desnutrida, suja e com marcas que infelizmente carregaria para sempre. O cheiro de sangue ainda paraiva sobre ela, mesmo que eles tenham tentado mascará-lo de alguma forma.

Meu coração doía de uma forma anormal. 

Afrouxei o nó da gravata e tirei aquela máscara ridícula que eu odiava usar, mas que era necessária. Ignorei o olhar do Jake pelo retrovisor, e segurei meu impulso de querer cobrir a garota com meu paletó. Sem dúvidas ela não iria gostar disso, se eu fosse levar em conta a maneira que ela olhava para mim.

Não demorou muito o caminho até a sede e eu até fiquei aliviado quando encarei a faixada da mansão se aproximando. Não era o lugar que ela deveria ficar, mas até que ela conseguisse compreender que não estava em perigo, que nós não iriamos machucá-la, não podia integrá-la ao santuário. Minha casa.

Assim que o carro parou, eu desci rapidamente. Puxando o ar com toda a força dos meus pulmões. Me sentia confuso, sufocado, perdido. Queria socar alguma coisa, qualquer coisa, para aliviar o estresse que ameaçava dominar o meu corpo. 

“Relaxe, garoto…” Nox murmurou dentro da minha cabeça, mas não havia nada que qualquer um dissesse que poderia aliviar aquela angustia dentro do meu peito. Eu conseguia sentir ela ali, porra, e era tão diferente, mas, ao mesmo tempo, tão nauseante. 

“Vai deixá-la dentro do carro?” Ouvi Jake falar ao longe. Nem tinha ouvido ele sair do carro. 

“Deixe que ela acorde sozinha. Ninguém vai encostar nela.” Respondi, firme, sem nem mesmo olhá-lo. Só a Deusa sabia o que ela faria se alguém a tocasse. Lembrando bem daqueles olhos selvagens, eu sabia sim o que ela faria. E não sobraria nada para contar história. 

Jake não disse nada, apenas se afastou e foi para dentro da sede. Não demorou para que eu conseguisse ouvir os passos de Damien pelo cascalho do pátio. “O que caralhos você pensa que está fazendo, Kade?”

“Shhh.” Olhei dele para o carro, para ver se ela a tinha acordado. “Você consegue falar mais baixo?” O encarei com raiva.

Damien olhou na direção do carro e seu semblante endureceu ainda mais, se isso era possível. “Você é inacreditável.” Me repreendeu. “Sabe que não é assim que trabalhamos, Kade. Preciso lembrá-lo que foi você quem fez as regras?”

Meu corpo enrijeceu. “Cuidado com as palavras, Damien.” Alertei, tentando controlar a raiva interminável dentro de mim. “Você não estava lá, você não viu as coisas que eu vi.” Fechei os olhos, querendo afastar os horrores que se aprofundam ainda mais em minha mente cada vez que eu vou em um evento como esse.

Mas era impossível. Impossível esquecer a expressão sádicas aquelas pessoas, o medo nos olhos dos capturados. O quanto essas pessoas sofrem até decidirem que estão prontas? 

Seguro a ânsia.

Damien suspira. “Sinto muito.” Sua voz suaviza um pouco. “Imagino o quanto deve estar sendo difícil para você.”

Para mim? Eu ri. Não. As consequências da minha decisão não vão ser difíceis para mim. Vão ser difíceis para ela. Mas prefiro deixar essa confissão para mim. Meus homens sabiam dos meus pensamentos sobre esse mercado sujo, mas eu preferia guarda a vulnerabilidade longe deles.

“Seu pai vai ficar furioso.” Passei a mãos pelos cabelos, me sentindo deslocado. Bem, eu sabia bem disso. Mas não tinha nada a ser feito quanto a isso, então que se dane. A única coisa que importava agora era integrar a garota no santuário e tornar a vida mais suportável, se isso era possível.

A senti através do vínculo antes mesmo de escutar o barulho da porta. Damien não parecia ter notado, já que murmurou. “Ele não vai gostar disso.” Só quando eu enfim olhei na direção dela, é que ele pareceu se dar conta. 

Lá estava ela, com aqueles olhos cheios de coragem nos encarando como se fôssemos suas próximas vítimas. Damien suspirou ao meu lado quando ela rosnou. Eu sabia o que se passava na cabeça do meu amigo ao vê-la naquele estado. Mal vestida, descalça e com os tornozelos e pulsos feridos. Não precisava de nenhum vínculo para saber que ela estava com dor.

Percebi o momento em que o vínculo fez a sua aparição, após seu rosnado, quando ela nos encarou perplexa. Tinha esquecido que ela não sabia qual era o meu rosto. Ela também parecia surpresa, por algum motivo, mas não durou muito. Ela voltou a me olhar daquele jeito, como se eu fosse o vilão. 

Damien sabia que aquela aproximação não seria tão fácil quanto as outras. “Eu vou avisar ao restante que você chegou.” Ele disse. Eu respondi apenas com uma afirmação vinda da garganta. 

As palavras pareciam parar na minha garganta toda vez que pensava em falar com ela. Não sabia como fazê-la parar de ter aquela pose defensiva contra mim. “Não vamos machucar você.” Eu disse com calma, tentando avaliar a sua reação. Que para a surpresa de ninguém, não acreditava. Tentei me aproximar devagar, mas parei quando ela recuou. Não sei por que doeu. “Vamos entrar, você precisa de…” Minha garganta se fechou, tentando não olhar para as suas feridas. “Cuidados.”

Eu não sabia o que tinha de errado comigo. Era esse maldito vínculo, com certeza. Mexendo com meus sentidos.

Me virei e comecei a seguir meu caminho, esperando que ela me acompanhasse, mas quando ouvi a sua voz, paralisei. “É uma ordem?” Aquela simples pergunta fez o meu corpo estremecer. A dor em sua voz, o medo escondido por trás da bravura. Quase me deixou de joelhos.

O que há de errado com você, Kade? Você já resgatou outras pessoas antes. Já viu a destruição que aqueles monstros podem causar. 

Mas era diferente agora, não era? 

Olhei em sua direção, me sentindo um egoísta do caralho por me sentir assim. Como é que ela estava se sentindo agora? Sem saber que ao invés de sofrer em minhas mãos, eu iria cuidar dela? “Não. Você pode ir aonde quiser.” Era a verdade. Ela não era uma prisioneira. Ela ficou surpresa com a minha declaração, foi evidente. Mas a sua linha de raciocínio foi longe demais enquanto ela procurava uma rota de fuga ao nosso redor. Será que ela não entendia que era impossível? “Menos isso. Se sua intenção for fugir, você não conseguirá ir muito longe. Vai morrer.” Eu não queria assustá-la, não queria parecer mais um carcereiro. Mas eu também não queria que ela morresse procurando a liberdade que ela tinha.

Ou ao menos era o que eu pensava. “Prefiro morrer…” Ela cuspiu as palavras. 

Nox soltou uma risada de satisfação, mas eu o ignorei. Não era hora para suas idiotices.

“Eu sei que você está com raiva, machucada e com medo.” Eu disse. “Mas eu realmente prometo que ninguém vai machucar você. Vem. Vou organizar um quarto para você descansar e comida decente para você comer.”

Eu não era uma pessoa de fazer promessas a ninguém. Não depois que a última promessa que eu fiz, não consegui cumprir. 

Eu vou proteger você…

Afastei aquela memória para o fundo da mente. Não queria reviver o passado agora. 

Ela não parecia acreditar nas minhas palavras, mas por algum milagre ela optou por não continuar a brigar, me seguindo de perto para dentro. E, como o egoísta que sou, agradeci a qualquer divindade por isso. Nunca mais queria usar o vínculo contra ela. Nunca.

Eu queria a sua confiança, mas sabia que isso seria um longo caminho a ser percorrido.

Segui o caminho que seria menos provável de esbarrar em alguém. Mesmo sabendo que Damien havia cuidado desse detalhe para mim. Andei o mais devagar possível para que ela pudesse me acompanhar. Tentando não me encolher toda vez que ela gemia de dor.

Isso era uma tortura. Abri a porta de um quarto e esperei pacientemente que ela escolhesse entrar. Ela primeiro olhou para mim, desconfiada demais, e depois olhou para o quarto. Era simples, uma suíte. “É seu.” Eu disse, não suportando o silêncio pesado que acompanhava nós dois. “Por favor, se sinta a vontade. Tome um banho. Vou voltar com roupas pra você e comida também.” Ela já estava no meio do quarto quando olhou para mim. Naquele momento não havia nada daquele olhar.

Nada.

Eu não sabia se ela ia responder, então comecei a fechar a porta. “NÃO.” Ela gritou, desesperada e eu abri imediatamente, assustado, notando que ela tinha se aproximado rapidamente. “Deixe aberta.” Ela parecia ofegante, os olhos arregalados. “Por favor…Senhor… Por favor.”

Aquilo me quebrou ao meio, fazendo algo dentro de mim se rachar. “Kade.” Eu disse, incapaz de formar qualquer outra palavra. Ela nem pareceu ouvir em meio a seu desespero, segurando porta aberta como se sua vida dependesse disso.

Eu a deixei lá, incapaz de argumentar qualquer coisa. Eu senti, merda, eu senti pelo vínculo o seu desespero, a sua dor. Aquilo iria me deixar doente. Que tipo de horrores ela deve ter passado? Não gostaria de pensar nisso. 

“Senhor?” Nina, a governanta, apareceu na minha frente, com o semblante preocupado. “Está tudo bem, senhor? Você parece prestes a desmaiar.”

“Está tudo bem, Nina.” Eu forcei um sorriso para a doce senhora que me viu crescer. “Preciso que suspenda os hóspedes desse corredor, Nina. Mude os de quarto, por favor.” Ela assentiu, apesar de parecer confusa. “Obrigada.”

“O senhor Damien disse que você precisava de roupas e uma bandeja de comida. Eu deixei pronto em cima da mesa, na cozinha.” Eu assenti, freneticamente. Agradeceria a Damien por sua empatia depois. 

Deixei Nina para trás e fui em busca da bandeja, que estava exatamente onde ela disse. Aproveitei o silêncio para organizar os meus pensamentos. Eu não poderia parecer tão apavorado quanto ela. Me recompus, peguei o kit médico, a bandeja e voltei pelo mesmo caminho.

Quando parei em frente a sua porta, estava meio aberta. “Posso entrar?” Eu falei num tom mais alto, enfrente a madeira escura. Não demorou muito para ela aparecer. Seus olhos me analisaram friamente, a bandeja, o kit médico e de novo a mim. Ela suspirou pesadamente como se não tivesse escolhas e abriu o suficiente para eu entrar.

Só notei que ela tinha tomado banho quando ela passou por mim e o seu cheiro se embaralhou em minha cabeça. A cor de seus cabelos, agora lavados, estava visível. Dourados, ela tinha belos cabelos dourados. 

Ela parou do outro lado do quarto como se estivesse avaliado a distância entre nós, a porta e a janela. A postura dela não era só defensiva. Era calculada. Instintiva. Um animal treinado pelo pior tipo de gente.

Coloquei as coisas sobre a mesa sem pressa. Não fiz menção de me aproximar. Se eu invadisse o espaço dela, perderia o pouco que havia conquistado no caminho até ali.

“Eu sei que já disse isso, mas eu realmente quero que saiba que não vamos te machucar. Isso é tudo um mal-entendido. Prometo explicar quando você não estiver tão exausta e machucada.” Ela ergueu o rosto devagar, sem medo de demonstrar a hostilidade que carregava nos olhos. Não me respondeu. Não precisava. O silêncio dela tinha peso, tinha intenção, tinha uma desconfiança que quase dava para sentir no ar.

Suspirei. Como é que eu podia ajudá-la? Será que eu deveria ter enviado Nina ao invés de vir eu mesmo?

Ela nem se mexeu, mas eu não conseguia deixar para lá as feridas em seus tornozelos e seu pulso. Seu rosto também estava um pouco inchado. Aquele maldito bateu forte demais em seu rosto.

“Me deixa cuidar de você?” Eu sussurrei, baixo. A pergunta pareceu deixá-la mais alerta do que qualquer comando teria feito. Ela virou o rosto, os dentes cerrados. Pouco depois seus olhos capturaram os meus. E havia neles algo que nenhum golpe físico poderia reproduzir: incredulidade. Medo. Desprezo. Confusão. Como se a pergunta que eu acabara de fazer fosse um insulto.

Ela não afastou o olhar de mim nem por um segundo. Analisava cada detalhe do meu corpo, meu tom, minha postura, como se estivesse tentando adivinhar onde eu escondia a real ameaça. 

“Eu consigo fazer sozinha,” ela disse enfim. A voz carregada de dureza.

“Consegue,” admiti, sem hesitar. “Mas não deveria. Me deixa te ajudar.”

Ela cerrou os dentes, respirando curto, irritada por eu não a contradizer. Era nítido que estava acostumada a lutar contra ordens. O fato de eu não estar pressionando a deixava ainda mais desconfortável.

O maxilar dela mexeu. Ela analisou minhas mãos, meu rosto, o kit… e o silêncio dela bateu forte. 

“É assim que você trata os outros que compra?” A pergunta saiu como veneno.

As palavras bateram como um golpe seco, muito mais forte do que qualquer coisa que ela pudesse fazer fisicamente nas condições em que estava. Estremeci.

Porra… ela realmente acreditava que eu era igual a eles.

Engoli a resposta automática que quase saiu, porque qualquer coisa que soasse defensiva seria patética diante da merda que ela viveu. Ela tinha sido torturada, exposta, vendida como mercadoria. E agora estava na minha frente, me olhando como se eu fosse apenas a continuação daquele inferno.

Ela estava errada sobre mim, mas eu entendia perfeitamente por que pensava assim.

“Eu não compro pessoas.” Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, e isso não era para ela, era para mim. Era raiva. “Você foi uma exceção.”

A verdade é que aquilo me acertou em cheio. Porque, apesar de eu saber que minha intenção era tirá-la de lá viva, não tinha como justificar o vínculo aos olhos dela. 

E uma parte minha detestou profundamente ser visto como um monstro.

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