Capítulo 1

CAELI

Não faço ideia de quanto tempo estou aqui. Dias? Semanas? Meses? Não sei. As celas desse lugar engolem qualquer noção de tempo. 

Tudo se mistura em um ciclo de escuridão impregnada de mofo, sangue, suor e magia ruim.  A corrente presa ao meu tornozelo machuca a pele no mesmo ponto todos os dias, até sangrar, até cicatrizar, até sangrar de novo. A rotina é essa. Prata. Para me enfraquecer, para me manter comportada.

A parede atrás de mim está úmida. Goteja, às vezes. E sempre que a água desliza pela pedra, sinto um arrepio subir pela espinha. A porta de ferro range sempre que alguém passa pelo corredor, não para me ver, mas para confirmar se ainda estou respirando.

Eu estar viva, para eles, era a prioridade. Não importa como.

Lux continua sumida do fundo da minha mente. Não responde. Não rosna. Não se mexe. O feitiço que jogaram em nós foi feito para adormecer o lobo. E funciona. Sinto o vazio ocupando o lugar dela como um buraco permanente. 

Estou sozinha.

A luz do corredor acende de vez em quando, em intervalos irregulares, como se alguém brincasse com as lâmpadas só para saber quando vou apertar os olhos. Eles gostam de saber que estou acordada. Às vezes, param diante da minha porta e conversam como se eu não estivesse ali.

Foi assim que descobri o que realmente queriam de mim. O motivo pelo qual não me mataram, porque cuidaram das minhas feridas só o suficiente para não me perder, porque alimentavam meu corpo como quem engorda um animal raro.

Eu sempre achei que os invasores eram apenas isso: invasores. Brutais, sanguinários, assassinos. Mas quando ouvi alguém falar que eu era lote especial, mercadoria valiosa, peça rara, percebi que não passaram de cães treinados para capturar gente como eu.

A parte mais cruel é que não estou sendo punida por ter lutado pela minha vida. Estou sendo avaliada. Pesada. Cotada. 

Com o tempo, eu entendi o que eles são. Não guerreiros. Não soldados. São caçadores de gente. Vendedores. Pegam o que querem e vendem para quem paga melhor.

E eu virei mercadoria.

Não me tratam como uma prisioneira. Tratam como um produto. Alimentam. Curam ferimentos superficiais. Evitam que eu morra.

No começo, eu até me recusei a fazer o que eles queriam. Me recusei a comer. Me recusei a deixar que eles tratassem meus ferimentos que eles mesmos causavam, já que Lux não estava lá para acelerar o processo. Mas aprendi da pior maneira que eles fariam o que fosse necessário para me manter na linha.

Toda vez que eu me recusava a comer, eles me forçavam. Me prendiam a uma cadeira, me amarravam e me faziam engolir a ração insossa e fedorenta que eles chamavam de comida. Arranquei alguns dedos com mordidas antes de finalmente ceder, fraca demais para lutar. Machucada demais.

Foram dias e mais dias de tentativas falhas de não comer. Não dar o gostinho de sobrevivência a esses filhos da puta. Mas havia um limite que o meu corpo aguentava. E por mais guerreira que eu tivesse sido na minha matilha, nunca fui treinada para aguentar tortura.

Penso na minha mãe todos os dias. E é apenas por isso que ainda não cedi à loucura.

Ouço quando o ferro da cela emite som alto duas vezes e só então percebo que um dos guardas está em frente a minha, olhando para dentro da cela para se certificar de que eu estava consciente. Eles me tratavam como um animal selvagem e perigoso. 

Recuo diante da luz forte que ele colocou em frente ao seu corpo. Meus olhos doem, desacostumados demais à luz. Estava há tanto tempo no escuro que nunca sabia quando era dia ou noite. “É seu dia de sorte, selvagem.” Ele murmurou, enquanto abria a porta da cela.

Foi só quando ele entrou que notei que ele não estava sozinho. Trazia mais três guardas consigo. E só o pensamento de que eles tinham medo de mim me trazia uma satisfação sádica. “Tire esses trapos velhos.” Tombei a cabeça para o lado, confusa com o seu pedido. Tirar esse vestido velho que eles chama de roupas? Por quê? “Prefere que a gente tire?” Ameaçou.

“Tente a sorte.” sussurrei, a voz rouca e machucada. Fazia tanto, tanto, tempo que eu não falava que mal reconhecia o meu tom de voz.

Os três riram, como se eu tivesse contado uma piada. Mas eles sabiam melhor do que forçar a barra. Eu podia estar fraca, quebrada, mas sempre daria um jeito de ferir. Não era à toa que me chamavam de selvagem.

Eu me levanto, não porque ele pediu, mas porque eu não queria que eles encostassem em mim. Retiro o vestido do corpo, ficando na frente deles apenas com a peça íntima de baixo. Era a única coisa digna que eles me permitiram ter. 

Afiei o olhar para eles quando o sorrisinho no rosto deles ficou malicioso demais, mas sabia que eles não iriam me tocar. Não podiam. Fui pega de surpresa quando me jogaram água fria, estremeci inteira. Depois jogaram uma toalha e duas peças de roupas um pouco mais limpas, um pouco, que as que eu estava usando. 

“Vamos, selvagem, estão esperando por você.” Eu rosnei, incapaz de conter o pouco do espírito que ainda me restava. “Eles não querem você suja de lama, mas de sangue eles não vão se importar.” Ameaçou, com os olhos brilhando.

Contive a raiva dentro de mim e fiz o que foi pedido. Sem me encolher diante do olhar dos três, me sequei e me vesti com as roupas dadas. Com os cabelos pingando pela roupa, parei diante deles. “Vou soltar a sua corrente, mas se tentar alguma gracinha…” 

Eu apenas bufei. Ele fez o que disse, tirou as correntes. “Peguem ela.” Ele disse aos outros dois enquanto se virava para sair.

“Ela sabe andar.” Eu disse, antes que eles pudessem sair me arrastando por aí. Eu odiava isso.

Um deles solta um ronco de riso. “Ótimo. Os compradores gostam de ver as mercadorias conscientes.”

Caminho entre eles enquanto sou escoltada pelos corredores. Passamos por portas fechadas, gemidos abafados, cheiros conhecidos de medo e sangue. Não olho para os lados. Sei que não sou a primeira, e não serei a última.

O corredor está mais claro do que a minha cela, mas ainda assim é apertado, quente, quase sufocante.

Quando atravessamos a porta de metal que separa o subterrâneo da área principal, o choque de luz quase dói. Lanternas mágicas iluminam corredores largos, decorados com tapeçarias, estátuas e vasos tão absurdos que parecem deslocados perto do que está acontecendo ali.

As pessoas mascaradas passam por nós como se eu fosse parte da decoração. Riem, seguram taças, negociam itens em mesas discretas. Algumas param para me olhar, mas não com repulsa. Com interesse. Como se estivessem avaliando o gado.

Estremeço.

Entramos por uma porta lateral. O som b**e forte: música, aplausos ocasionais, o eco metálico de um martelo b**endo quase como um pulso.

O homem em cima do palco fala sem parar:

“Próximo lote! Cinco escravos de alta resistência, perfeitos para trabalho pesado! Começamos em cinquenta mil!”

O vômito sobe à boca, mas engulo.

Os guardas me posicionam em uma área separada do palco, atrás de uma cortina escura. Dá pra ver parte do salão pelas frestas. Um mar de máscaras. Lobos, vampiros, humanos ricos que acham que podem comprar tudo. Alguns usam máscaras simples. Outros, verdadeiros monstros dourados, prateados, enfeitados com pedras.

“Ela é o lote final,” um dos guardas avisa ao mestre, entregando um papel.

Me acorrentando de novo ao chão. A luz forte cai sobre mim. A música diminui. Conversas se encerram. O salão inteiro olha. O homem levanta a mão.

“Senhoras e senhores, apresento o lote mais aguardado da noite.” Ele sorri através da máscara que brilha com magia enquanto os guardas me empurram para o centro, quase me fazendo cair. “Treinada em combate, sangue de alfa, resistência extraordinária e espírito…” Ele me observa, como se admirasse um filhote feroz preso numa jaula, me rodeando e eu o encaro, enraivecida. “Inquebrável.” 

Uma onda de raiva me atravessa e, como se para provar seu ponto, um rosnado grave escapa de mim por impulso. De puro ódio e raiva. As correntes que me prendem chacoalham, ressoando por todo o salão. Eu queria sufocá-lo com aquelas correntes. 

“Cinquenta mil.”

“Oitenta mil.”

“Cem!”

As vozes explodem. O salão parece excitado, como se eu fosse um espetáculo privado feito só para eles. E eu não sei se fico em choque ou perturbada com essas pessoas tão desesperadas para me comprar.

Seguro mais uma vez a ânsia.

As ofertas sobem rápido demais. Quase ninguém pensa antes de aumentar. Fazendo o meu enjoo se tornar ainda mais insuportável. 

As máscaras viram a cabeça em direção ao fundo do salão quando uma nova voz surge:

“Oitocentos.”

Silêncio.

Sem nem hesitar, a batida do martelo ecoa no salão inteiro. Sem esperar alguma contraproposta. Os murmúrios começam logo em seguida. “Vendida!”

Minha respiração fica rasa e o pânico começa a tomar conta do meu peito ao perceber que essas pessoas com dinheiro eram capazes de qualquer coisa para amaciar seus egos. 

E só então, percebendo que o meu destino nunca mais estaria em minhas mãos, o medo se apossou de mim.

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