Capítulo 2

KADE

Lugares como esse fedem a mentira. 

O salão é maior do que eu esperava. Dourado demais, luz demais, risadas demais. Pessoas circulam como se estivessem em um baile elegante.

Elas entram mascaradas achando que ninguém sabe o que realmente são, mas eu sei. Cada sorriso complacente, cada risada exagerada, cada comentário sussurrado diz mais sobre elas do que qualquer documento oficial. A elite desse reino faz questão de fingir que o comércio de escravos não existe, mas paga caro para participar dele.

Ninguém aqui imagina quem eu realmente sou e não podem imaginar. Para eles, eu sou só mais um comprador rico, violento e com gostos caros o bastante para ser convidado para a “ala especial”. 

Funciona.

Meu disfarce funciona melhor quando não abro a boca. Às vezes, não consigo controlar a raiva.

O salão principal está lotado. Música alta. Perfume forte. Conversas demais. É fácil se perder no meio da multidão, mas eu me mantenho no fundo, onde posso observar tudo. Assim vejo quem entra, quem sai, quem troca sinais discretos com os vendedores.

Minha missão sempre foi simples na teoria: observar, identificar, infiltrar, derrubar. Nunca intervir antes da hora.

Mas isso é o tipo de plano que só funciona até você ver o quanto essas pessoas se divertem com o sofrimento dos outros.

O martelo b**e, encerrando mais um lote. A plateia aplaude como se fosse um espetáculo de circo.

Idiotas.

“Senhoras e senhores, apresento o lote mais aguardado da noite.” O mestre anuncia, fazendo o salão ficar em silêncio quando as luzes focam na garota. Os guardas a empurram para o centro do palco como se fosse um animal perigoso. 

Ela tropeça por causa da corrente curta, mas se endireita imediatamente. Fraca demais para erguer totalmente o queixo. Forte demais para se curvar. 

É pequena, mais jovem do que imaginei para ser um lote especial. Pele marcada por hematomas que não deveriam estar ali. Feridas causadas por prata que deixam cicatrizes em sua carne. 

“Treinada em combate, sangue de alfa, resistência extraordinária e espírito…” Ela olha para o mestre como se quisesse rasgar cada pedacinho dele com os dentes enquanto ele citava suas qualidades para seu público. A cor dos olhos dela me atinge primeiro. Escuros. Profundos. Cheios de ódio e desespero ao mesmo tempo. É uma combinação que eu conheço bem demais. “Indomável…” 

Indomável.

Sim, isso fica óbvio no segundo em que ela tenta puxar as correntes e rosna alto o suficiente para ecoar pelo salão inteiro. A máscara de uma vampira na primeira fileira treme com o susto.

Os sorrisos em volta se alargam. A excitação no ar é quase física. É nojento. O público adora.

Meu estômago revira quando o primeiro lance é dado. Quando escuto os cochichos, os planos para o que fazer com ela, planos de como vão amansá-la. Preciso desviar o olhar por um momento para não vomitar em cima deles.

Não posso me envolver. Não posso me envolver. Repito o mantra para mim mesmo para me impedir de fazer alguma besteira. Não era assim que eu os libertava. Não era assim que eu devolvia a liberdade deles. 

Eu sabia bem o que viria com a compra de um escravo. Sabia que isso não era liberdade. Era cruel, era maligno. Eles faziam de tudo para suprimir até a última gota de sobrevivência de alguém. Só de pensar no vínculo, me causa um reboliço no âmago. 

Mas não conseguia parar de imaginar as coisas horríveis que ela teria que passar nas mãos dessas pessoas. Já vi em primeira mão como eles podiam arrumar jeitos criativos de destruir alguém indefeso. 

“Duzentos!” Grita um, subindo o lance.

O mestre sorri satisfeito, porque esse é o tipo de disputa que enche o bolso dele. 

Eu exalo devagar.

Penso no mapa que tenho que completar. No fornecedor principal que ainda não identifiquei. Nas rotas de transporte ilegal que pretendo destruir. No meu pai que espera resultados. Penso em tudo. E ainda assim… Eu levanto a mão.

“Oitocentos.”

Silêncio total. Alguns convidados viram o pescoço para me olhar. Alguns parecem ofendidos por eu ter tido coragem de entrar no jogo deles. 

“Vendida!” O mestre b**e o martelo com tanta força que parece até que ganhou comissão maior com esse lance.

Eu não sei o que estou fazendo. 

Os olhos dela me encontram no meio da multidão e ela parece atordoada, o medo é evidente por trás de toda essa coragem e eu não pude deixar de me sentir ainda mais enojado com toda essa operação. Como é que essas pessoas conseguiam ferir pessoas inocentes? 

Os guardas imediatamente entram no palco para prendê-la melhor, como se ela fosse tentar fugir — e ela tenta. Mesmo sem uma gota de força sobrando, ainda tenta acertar o guarda com o joelho. Ele desvia e dá um tapa no rosto dela. 

Fico imóvel. Cada fibra do meu corpo mandando eu quebrar o braço dele ali mesmo. 

“Senhor…” Desvio o olhar para um funcionário do anfitrião me chamando, a contragosto. “Você precisa me acompanhar para concluir a compra.”

Eu assinto, sentindo o sabor amargo na minha língua causado por toda essa situação deplorável. Caminho para a saída reservada aos compradores VIP. Os corredores ficam mais vazios quanto mais longe estamos do salão.

Quando chego à área de entrega, vejo ela encostada na parede, algemada, com dois guardas de cada lado. Seu rosto com a marca da mão do guarda e o sangue escorrendo de seus lábios. Tento acalmar a minha raiva. Nox, meu lobo, nem se deu ao trabalho de observar. Esse era o combinado, afinal. Era sempre ele o culpado por me fazer perder o controle e estragar tudo.

A garota olha para mim do jeito que um animal selvagem olha quando percebe que está prestes a ser empurrado para outra jaula. Ela me avalia. Me olha de verdade. Cheia de raiva e fúria, e nada de submissão. Não há medo.

E sei que enlouqueci mesmo: porque, pela primeira vez nessa noite, sinto que fiz a escolha certa.

O mestre de cerimônia entra na frente do meu campo de visão. “Vamos ao que interessa primeiro.” Ele coloca o papel em minha frente. “Você sabe das regras.” Ele ergueu uma sobrancelha, como se esperasse que eu negasse. Eu confirmei com um som da garganta, me segurando para não colocar as mãos no pescoço dele ali mesmo. 

Assinei o documento com meu nome falso e coloquei a quantia em dinheiro vivo em sua mesa. O sorriso de orelha a orelha dele não podia me enojar o suficiente. Ele fez um gesto para os guardas sem nem tirar os olhos do dinheiro. Eles puxam ela com certa brutalidade que me arranca um leve rosnado, fazendo eles se comportarem um pouco mais e entregarem as correntes na minha mão. 

Ela a puxa de volta, determinada a lutar até o último segundo, olhando bem nos meus olhos. Como se pudesse ver através da máscara. 

Ótimo. Prefiro assim.

“Cuidado, ela morde.” Um guarda avisou, chamando a atenção da garota que rosnou mesmo para ele, avançando, contida apenas porque eu segurava as correntes. A vontade de soltá-la quase, quase, me dominou. 

“Bom, Senhor Blackwell.” O mestre guardou o dinheiro numa bolsa preta. “Agora vem a parte mais importante e essencial.” Ele cruzou os braços atrás de si e me olhou com seriedade. “Você sabe, para mantê-los na linha. É uma cláusula indispensável e não negociável.” Bem, eu sabia disso. Eles não queriam que os servos se voltassem contra seu dono. Era ruim para os negócios, pelo visto. “Você sabe como funciona.” Ele me ofereceu uma adaga.

Eu sabia bem como funcionava o vínculo de sangue. Um ato proibido. 

Pego a minha própria lâmina e corto a palma da mão deixando o sangue fluir. Puxo levemente as correntes para trazê-la para perto. “Abra a boca.” Peço. Eu olho para ela. Ela olha de volta. Ela fecha os dentes. Tenta recuar. Seguro firme a corrente. “Abra. a. boca.” Um brilho desconhecido passou por seus olhos enquanto ela encarava os meus. Eu odiava ter que fazer isso. Mas era necessário. Sem o vínculo, eles não terminaram a venda, não me deixariam levá-la.

Ela abre a boca e eu derramo o sangue em sua língua. Recito as palavras com um gosto amargo na boca e está feito. 

Sinto o vínculo se fechar ao redor dela como uma coleira invisível. E sinto quando ela também percebe isso. 

Ela não sabe, mas agora posso sentir a presença dela. Não seus pensamentos, não suas emoções — isso vem depois, quando o vínculo amadurece. Mas posso sentir que ela existe. Que respira. Que está presa a mim.

Me sinto sujo. 

Eles soltam suas correntes e ela encara a sua falsa liberdade com surpresa. Ela olha em volta e consigo perceber sua intenção antes mesmo que ela sequer consiga perceber. “Não.” Murmuro, capturando o olhar dela. “Vamos embora.”

Ela tenta resistir e fazer o que deseja, atacá-los, mas não há força de vontade que possa romper o poder do vínculo. Ela desaba de dor por recusar a minha ordem. Fecho os olhos por um segundo, tentando manter a pose, tentando não quebrar meu disfarce ali mesmo. 

Espero até o momento em que ela se recupere, ignorando os três homens na sala rindo como se achassem aquilo divertido. Mas é para mim que ela olha quando se recupera, o fogo em seus olhos é tudo o que preciso ver para saber que nada no mundo quebraria essa garota. 

Ela respira fundo, se levanta e, sem mais relutância, me segue para fora. 

Estávamos ligados até a morte. 

E isso era a coisa mais cruel que alguém tem que suportar. 

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