Capítulo 3

CAELI

Não há nada em meu pescoço, ainda assim, sinto que estou acorrentada até os dentes enquanto sigo o meu comprador para fora daquele lugar.

Comprador.

Só o pensamento disso me sufoca a ponto de doer. Como é que eu poderia me acostumar com isso? Me acostumar de que eu não era mais dona da minha vida, se durante meus vinte e seis anos tudo o que eu mais fui foi ser livre? 

Já tinha ouvido falar do quando o vínculo de sangue era cruel, mesmo para o pior dos criminosos. Um encantamento simples, mas tão perigoso que foi banido para que não fosse de uso constante. A morte era preferível a ter esse encantamento. 

A morte era a única saída, na verdade. 

Meu estômago revira. Essas pessoas são tão sádicas a esse ponto? Fazer um vínculo de sangue com alguém sabendo que só a morte podia separá-los? 

Estremeço ao pensar que talvez esse era o intuito. Se divertir enquanto torturam seus brinquedos vivos.

Encaro as costas dele, mas não consigo sentir muita coisa. É como se até meus sentimentos estivessem enclausurados por causa de sua ordem. Segui-lo era tudo o que o meu corpo parecia querer fazer. Mesmo que a minha mente gritasse para fugir, fugir, fugir. 

Mas eu sabia que a minha raiva estava lá. Uma fúria primitiva e arrebatadora. Uma que fazia o meu sangue esquentar enquanto eu olhava para a suas costas, olhava para como ele andava tranquilamente como se não tivesse acabado de cometer uma atrocidade. Todos os tipos de violência se passando por minha mente, coisas que eu queria fazer com ele e com seu tipo de gente.

No entanto, aquela fisgada no coração começou de novo, como se uma lâmina de prata estivesse me perfurando. Fechei os olhos, segurei o peito com força e parei de andar, sentindo aquela dor consumir parte de mim. Estava ofegante.

Ele parou de andar quando percebeu que eu já não estava mais o seguindo. “Se continuar testando os limites, vai apenas prejudicar a si mesma.” Eu quis rosnar, bufar, qualquer coisa, mas tudo o que eu consegui foi continuar tentando recuperar a minha dignidade, ofegando. Mal tinha forças para ficar de pé. “Qual o seu nome?”

Afastando todos os pensamentos negativos sobre violência, eu o encarei, me recuperando. De jeito nenhum iria respondê-lo por boa vontade. Ele pareceu entender isso quando um som afirmativo escapou de sua garganta. Ele não insistiu, nem me ordenou a falar, só virou as costas para mim e continuou andando, fazendo o vínculo praticamente me puxar junto.

Ignorei os guardas que eu conhecia bem no corredor da saída. Os olhares maliciosos e os risos incessantes eram tudo o que eles me davam, como se soubessem o meu destino. Quando enfim chegamos ao lado de fora, percebi que era noite. Fazia tanto, tanto tempo que eu não olhava para o céu estrelado que não consegui o ofego que saiu de meus lábios enquanto eu parava e encarava o céu e a lua enorme brilhando ali.

Olhe por mim, mãe. Pedi, sentindo um vazio sem fim no peito. Eu sentia tanta falta dela. 

Só percebi que o comprador estava me encarando quando olhei para ele. Ele estava esperando com a porta aberta de um carro de luxo, para minha surpresa, não parecia impaciente. 

Mas eu sabia melhor do que esperar coisas boas de uma pessoa. Principalmente sendo um sádico comprador de escravos, como ele. O que será que ele faria comigo depois de pagar tão caro?

Engoli em seco e juro que pensei em correr, embora soubesse que nunca iria longe. Mesmo que não houvesse o vínculo, eu estava fraca demais para correr pela minha vida. Eu mal conseguia andar direito sem mancar. 

Tentando não pensar numa fuga para acabar sentindo dor, fui até lá e entrei no carro. Ele deu a volta e se sentou ao meu lado, me fazendo me afastar o máximo que podia enquanto o carro entrava em movimento. “Relaxa, eu não vou machucar você.” Ele parecia ofendido com meu recuo.

Bufei. Ele podia fazer o que quisesse que não iria me fazer baixar a guarda tão fácil assim. Eu até não podia machucá-lo, ou pensar em machucá-lo, mas eu não iria facilitar a sua vida sendo boazinha. 

Ignorei a sua presença e fiquei olhando a vista pela janela, absorvendo a paisagem. Fazia tanto, tanto tempo que eu não via nada além da escuridão, das barras de ferro daquela cela imunda, que quase chorei ao ver a natureza de novo. Sentia falta de me transformar, de caçar com Lux, de me sentir segura.

A tranquilidade foi tamanha que acabei por adormecer.

***

Acordei num solavanco olhando ao redor, ofegando assustada ao perceber que não estava na minha cela. Estava em um carro. Demorei para relembrar dos últimos acontecimentos. Não dormia tranquilamente há muito tempo, sempre tinha um guarda ou outro me atormentando. Às vezes eram os gritos que me aterrorizavam. Mas com o silêncio da viagem, até poderia dizer que foi a primeira vez que dormi de verdade desde que esse pesadelo começou.

Olhei em volta e percebi que o carro tinha parado e o comprador não estava mais sentado ao meu lado. Olhei para fora e só então notei a enorme mansão opulenta que estávamos em frente. Ele realmente parecia ter muito dinheiro.

É claro, Caeli. Ele comprou você por oitocentos mil. O que mais esperava? 

Testando os limites do vínculo, abri a porta do carro e sai, colocando meus pés descalço nas pedras surpreendentemente macias do chão. 

“Ele não vai gostar disso.” Escutei o murmúrio não muito longe e olhei na direção. Dois pares de olhos me encontraram e a conversa cessou na mesma hora. Dois homens que eu nunca sequer vi na vida estavam me olhando seriamente e eu, como a selvagem que aprendi a ser, rosnei me sentindo ameaçada.

A fisgada no peito puxou levemente, me causando confusão e interrompendo meu show. Foi só então que percebi que um daqueles homens era meu comprador. E ele estava sem a máscara agora. 

Não sei se o choque que me atingiu foi mais por perceber o quão jovem ele parecia ser para ter um gosto tão pervertido e sádico, ou por que ele era bonito. Seus cabelos eram pretos como a noite, eu já tinha reparado nisso, mas seu rosto era marcado como se tivesse sido desenhado pela própria deusa.

Nem mesmo a sua altura intimidante eu havia reparado em meio a minha névoa de fúria e desespero. 

Tão bonito por fora, mas tão podre por dentro. 

O seu amigo respirou fundo, quebrando a tensão que crescia nessa nossa troca de olhares. “Eu vou avisar ao restante que você chegou.” Ele olhou para mim, com pena naqueles olhos malditos. Eu não precisava da pena dele, quem ele pensa que é? 

“Mm.” O comprador respondeu apenas com isso, sem olhar para ele. “Não vamos machucar você.” Ele disse aquilo, de novo. Ele parecia receoso em se aproximar, mesmo assim o fez. Eu recuei um passo quando ele se aproximou demais, ciente de que ele poderia ordenar qualquer coisa perversa a qualquer momento. Ele suspirou. “Vamos entrar, você precisa de…” Ele parecia pensar nas palavras que queria usar. Seu tom de voz mais suave do que quando ele falou com os meus carcereiros. “Cuidados.”

Ele não esperou que eu respondesse, apenas começou a andar para a grande porta de entrada desse casarão. Hesitei. “Isso é uma ordem?” Foi tudo o que eu consegui falar, sentindo a minha garganta se fechar em um nó.

Ele parou no meio dos degraus, mas não se virou para me encarar rapidamente. Só que quando ele finalmente me fitou, seus olhos brilhavam com uma emoção que eu não sabia reconhecer. Que tipo de sádico esse cara era? “Não. Você pode ir onde quiser.” Ele estava brincando comigo? Acho que ele percebeu minha linha de raciocínio quando olhei para a mata escura em volta da casa. “Menos isso. Se sua intenção for fugir, você não conseguirá ir muito longe. Vai morrer.” Ele me caçaria se eu fugisse, era isso que ele queria dizer?

“Prefiro morrer…” cuspi as palavras.

Ele suspirou de novo, parecendo resignado. “Eu sei que você está com raiva, machucada e com medo.” Ele começou, quase voltando a se aproximar, mas parando sabendo o que era melhor para si. “Mas eu realmente prometo que ninguém vai machucar você. Vem. Vou organizar um quarto para você descansar e comida decente para você comer.”

Eu não acreditava em nenhuma palavra que saia de sua boca. Nenhuma. Ainda assim, algo, no fundo do meu âmago, me fazia querer acreditar que ele bom. Era o vínculo? Só podia ser isso. 

Eu o encarei, tentando encontrar as mentiras por trás de sua expressão, mas não havia nada lá. Ele era um bom mentiroso. Canalha sem coração. 

Mesmo assim eu cedi ao pedido. Aceitei sua proposta, mesmo sem muitas escolhas e com muita relutância o segui para dentro do seu covil, com o coração apertado demais, aterrorizada de que as coisas que sofri naquele lugar escuro não fosse nada comparado ao que eu ia sofrer aqui.

Que a Deusa me ajude.

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